Pompeia com o Monte Vesúvio ao fundo: como eram os habitantes da cidade ainda é algo cercado de mitos| Foto: /Wikimedia Commons

Quando o Monte Vesúvio entrou em erupção no ano 79 d.C., muitas de suas vítimas em Pompeia foram soterradas por montes de pedra-pomes e cinzas que endureceram sobre elas como um molde, congelando-os no tempo.

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Durante mais de dois séculos de escavações, moldes de gesso foram feitos de muitas dessas antigas vítimas, tornando-as um lembrete famoso e pungente da imprevisibilidade da morte e do poder ilimitado da natureza.

Porém, se a maneira pela qual os moradores de Pompeia morreram está bem clara, muito menos se sabe sobre como eles viveram. Agora, uma equipe de cientistas espera mudar isso.

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Em setembro, um conjunto de especialistas – arqueólogos, restauradores, radiologistas, antropólogos e outros – montou uma espécie de hospital de campanha sofisticado aqui, completo até com um tomógrafo computadorizado, que será usado para examinar essas tumbas opacas improvisadas.

Com isso, a equipe espera reunir informação sobre os hábitos e os estilos de vida dos antigos moradores da cidade e, nesse processo, possivelmente refutar hipóteses que se acumularam sobre quem eram as vítimas.

“Nós somos o antídoto a uma abordagem não científica”, disse Estelle Lazer, antropóloga forense australiana que pesquisa ossos de pompeianos há 30 anos, publicando um estudo, “Ressuscitando Pompeia”, em 2009.

“Provas falsas” deram aos moldes nomes que pegaram, tais como “o mendigo” ou “o escravo”, reduzindo as vítimas a meros “artefatos para contar uma história”, disse Estelle. Ela criticou a noção romantizada da tragédia pompeiana promulgada pela literatura e pelos filmes de Hollywood.

“Agora temos uma chance de saber quem eles verdadeiramente foram”, afirmou.

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Por exemplo, havia a suposição de que as vítimas eram principalmente os muito velhos, os muitos jovens, os enfermos e as mulheres, “partindo do pressuposto de que não corriam rápido”, declarou Estelle.

O que surgiu dos dados até agora é que as vítimas consistiam de uma “amostra aleatória da normalidade” típica de qualquer catástrofe. “Desastres não costumam discriminar.”

Moldes

Praticamente assim que a cidade antiga foi descoberta no século 18, os escavadores começaram a tirar moldes das vítimas de Pompeia, buscando preservar os restos mortais despejando gesso líquido dentro da cavidade deixada debaixo da cinza endurecida enquanto os corpos apodreciam.

Os testes científicos, que também incluem criação de imagens por laser e amostras de DNA, integram um projeto maior de restauração sobre a maior parte dos modelos pompeianos conhecidos, 86 no total, que começou em abril.

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Os moldes estavam “em uma condição precária” e exigiam conservação fresca, disse Massimo Osanna, representante do ministério da Cultura encarregado de Pompeia, enquanto mostrava aos repórteres o trabalho em progresso.

“Quero destacar que essa é uma iniciativa interdisciplinar porque a arqueologia agora pede uma abordagem global. É um empreendimento científico, não um espetáculo da morte.”

Inicialmente, os radiologistas encarregados da tomografia tiveram de lidar com as dificuldades apresentadas pela densidade do gesso, “o que dificultou a exploração”, afirmou o Dr. Giovanni Babino, radiologista que coordenou o projeto de tomografia.

Embora as tomografias já tenham sido realizadas em múmias, os gessos pompeianos nunca foram examinados. “Não havia protocolos para isso no mundo”, disse Babino. Assim, a equipe teve de criar um parâmetro.

O tomógrafo foi montado no local, em uma área à qual o público não tem acesso, e os moldes foram transportados para serem examinados, um a um.

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De acordo com Babino, as tomografias foram executadas nos moldes do mesmo jeito que seria feito com uma pessoa viva, a única restrição era que o molde tinha de passar pelo diâmetro de 70 centímetros do aparelho.

Os dados foram elaborados para criar modelos tridimensionais, recompondo os esqueletos como um quebra-cabeça.

Mitos

Uma uniformidade entre as vítimas até agora é que a maioria “tinha todos os dentes”, disse Roberto Canigliula, da Philips Spa Healthcare, que projetou e emprestou o tomógrafo.

A descoberta sugeriu uma “dieta saudável com pouco açúcar”, disse Elisa Vanacore, dentista especializada. Os exames também mostraram que os dentes se desgastaram porque foram utilizados para cortar, ela explicou. Os registros odontológicos vão ajudar a determinar as idades das vítimas.

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Os testes já estão questionando algumas hipóteses sobre elas.

Por exemplo, um molde, encontrado no Fórum em 1963, era conhecido como a “mulher grávida” por causa da protuberância da barriga. A tomografia revelou que a pessoa provavelmente não estava grávida e talvez não fosse mulher.

“Dizem que qualquer mulher com um pouco de barriga está grávida”, disse Estelle.

Entre a restauração, que incluiu o religação dos membros, e o teste científico, “nós tentamos analisar as vítimas de A a Z”, disse Stefano Vanacore, curador-chefe encarregado das restaurações nas ruínas e primo da dentista.

O teste de DNA poderia “determinar o grau de parentesco entre algumas das vítimas”, como as duas garotas encontradas abraçadas na chamada Casa do Criptopórtico.

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As novas descobertas também poderiam ajudar a confirmar algumas teorias. Alguns moldes examinados até agora demonstraram a existência de ossos fraturados, sugerindo que algumas pessoas morreram quando o telhado de suas habitações caiu por causa do peso da cinza e das pedras que choviam do Vesúvio.

O exame de um dos moldes revelou que a vítima usava uma roupa de tecido grosso, sugerindo que a erupção não aconteceu no verão, em 24 de agosto, a data estabelecida, mas posteriormente no outono, como Grete Stefani, diretora do sítio arqueológico de Pompeia, defende há muito tempo.

Ao todo, 16 vítimas e dois animais foram examinados no tomógrafo, mas Babino espera fazer mais. Para desenvolver as imagens tridimensionais, os moldes que não conseguiram passar pelo tomógrafo estão sendo analisados com máquinas de radiografia e escâneres a laser. “A partir disso poderemos fazer comparações sobre o estado de conservação no futuro”, afirmou Vanacore.

As imagens também serão utilizadas para fazer cópias dos moldes em plástico, para exibições.

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Os dados extraídos pelo tomógrafo serão analisados pelos especialistas, que vão tentar responder a muitas perguntas, principalmente “quem são essas pessoas?”. Segundo os responsáveis, as descobertas serão publicadas neste ano.

“Essas pessoas tinham vidas, histórias de verdade que merecem ser contadas, não essas sobrepostas ao longo do tempo”, disse Estelle.