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Ásia

Como o Japão se tornou um centro de operações para espiões da Rússia

A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, e o ditador russo, Vladimir Putin: situação gera constrangimento e cobrança de aliados de Tóquio (Foto: Riccardo Antimiani/Pavel Bednyakov/EFE/EPA)

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O Japão oferece ajuda financeira, humanitária e militar (com armamento não letal) à Ucrânia desde que o país europeu foi invadido por forças russas, em fevereiro de 2022, e impôs sanções a Moscou que fizeram o comércio bilateral com a nação do ditador Vladimir Putin cair de US$ 20,8 bilhões no ano fiscal de 2021 para apenas US$ 7,6 bilhões em 2025.

Entretanto, uma reportagem publicada este mês pelo jornal americano The New York Times revelou duas realidades que estão constrangendo os japoneses diante da Ucrânia e dos aliados no Ocidente.

O periódico nova-iorquino relatou que o país asiático se transformou em um “covil de espiões” russos, depois que países ocidentais expulsaram centenas deles e estes acabaram reaparecendo no Japão.

Citando como fontes autoridades de inteligência e de governos de países em três continentes, o NYT mencionou como exemplo um oficial veterano da agência de inteligência militar da Rússia, o GRU, que está trabalhando sob uma identidade falsa como funcionário no escritório da companhia aérea estatal russa Aeroflot em Tóquio.

Segundo o jornal, tal oficial desempenha “um papel crucial no abastecimento da máquina de guerra da Rússia”.

É nesse ponto que há uma conexão com o segundo fator que vem constrangendo Tóquio: segundo estimativas do governo ucraniano citadas pelo NYT, 90% dos mísseis e drones russos contêm componentes japoneses.

Esses dois fatores decorrem de leis frágeis antiespionagem e de controles frouxos de exportação de produtos de alta tecnologia, o que já levou a cobranças por parte de Kiev e outros aliados.

“Autoridades japonesas consideram que as capacidades de inteligência do país estão paradas no tempo há décadas”, declarou ao NYT Andrew Shearer, embaixador da Austrália no Japão, que tem oferecido aconselhamento informal ao governo japonês nessa questão.

Devido ao trauma da repressão antes e durante o período da Segunda Guerra Mundial, a Constituição japonesa pós-conflito restringiu a vigilância estatal, deixando o país sem mecanismos legais suficientes para coibir a espionagem estrangeira.

Em entrevista à reportagem, o coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povo, disse que, além de aderir ao regime de sanções contra a Rússia, o Japão proibiu a exportação de diversos componentes e equipamentos sensíveis e vem ampliando a fiscalização sobre empresas e países terceiros utilizados para contornar essas restrições.

“Entretanto, o que a reportagem do NYT mostra é a fragilidade na aplicação desses controles: acompanhamento insuficiente do usuário final, dificuldade de rastrear mercadorias de uso dual, triangulação por países intermediários e limitações históricas de sua estrutura de contrainteligência. O próprio governo japonês reconhece a necessidade de reforçar o combate às atividades de inteligência estrangeiras”, disse Gomes Filho.

O especialista afirmou que o principal interesse russo no Japão não é a espionagem política tradicional, mas justamente a obtenção clandestina de tecnologia.

“O Japão possui indústrias avançadas de semicondutores, sensores, equipamentos ópticos, telecomunicações e robótica. Muitos desses produtos têm uso dual e são essenciais para sistemas de comunicação e navegação ou fabricação de armamentos”, destacou Gomes Filho.

Japão reconhece necessidade de evolução em ações antiespionagem

Segundo informações da agência France-Presse (AFP), após a publicação da reportagem, o porta-voz do governo do Japão, Minoru Kihara, admitiu que o país precisa evoluir nessas questões.

“Reconhecemos que, em um cenário de segurança em rápida transformação, há uma necessidade crescente de combater atividades de inteligência estrangeira — como a obtenção de informações críticas — que ameacem a segurança nacional do Japão”, declarou a jornalistas, defendendo que Tóquio “precisa tratar essa questão com ainda mais rigor”.

Kihara sinalizou que já há movimentos nesse sentido, ao lembrar que o Parlamento japonês aprovou recentemente uma lei que abre caminho para a criação de um novo organismo nacional destinado a coordenar as atividades de inteligência do país, atualmente fragmentadas.

Um fator extra de incômodo para o Ocidente e a Ucrânia é que, segundo relatório publicado pela Fundação Carnegie para a Paz Internacional, passos tímidos de reaproximação entre Tóquio e Moscou foram dados este ano.

O think tank americano citou que em maio Muneo Suzuki, parlamentar do governista Partido Liberal Democrata (PLD), visitou Moscou para se reunir com o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Andrei Rudenko.

No mesmo mês, Mikhail Shvydkoi, representante especial de Putin para a cooperação cultural internacional, presidiu a cerimônia de abertura do Festival Oficial da Cultura Russa no Japão, realizada em Tóquio.

Entre os convidados, estava Akie Abe, viúva do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, que, durante os períodos em que governou o Japão (2006-2007 e 2012-2020), buscou aproximação com a Rússia para tentar resolver a disputa territorial sobre as Ilhas Curilas, reivindicadas pelos dois países, e estabelecer um canal de comunicação diante da piora das relações japonesas com dois vizinhos perigosos: China e Coreia do Norte.

Além disso, o Japão recebeu este ano uma remessa de petróleo do projeto russo Sakhalin-2 e está mantendo negociações comerciais com Moscou.

Porém, a Fundação Carnegie para a Paz Internacional destacou que o Japão mantém sanções contra a Rússia e não há qualquer sinalização da atual primeira-ministra, Sanae Takaichi — seguidora de Abe, assassinado em 2022 —, de maior aproximação com Moscou.

Pelo contrário. Em maio de 2022, quando se tornou alvo de sanções da Rússia por apoiar medidas contra o país, ela desdenhou: “Para mim, tudo bem! Eu não iria lá, mesmo que me convidassem”.

Gomes Filho disse que a situação exposta pelo NYT, ao gerar a percepção de que o território japonês ou suas empresas estão sendo utilizados para abastecer a máquina de guerra russa, “produz custos políticos e reputacionais”.

“Entretanto, considero pouco provável que os Estados Unidos ou os europeus adotem medidas contra o Japão como Estado. O mais provável é uma combinação de pressão diplomática, compartilhamento de informações de inteligência, exigência de controles mais rigorosos e eventuais sanções contra indivíduos, transportadoras ou empresas específicas que participem conscientemente das operações”, afirmou o analista.

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