
Apos três décadas e quase US$ 1,6 bilhão, o trabalho na grande barreira contra tsunamis foi concluído em Kamaishi há três anos. Com um pouco mais de um quilômetro e meio de comprimento, 63 metros de profundidade e projetando-se a 6 metros acima da água, a estrutura resistente a terremotos entrou para o Livro dos Recordes no ano passado e reacendeu esperanças despedaçadas quanto à reanimação desta antiga cidade de ferro, hoje enferrujada.
Mas quando um tsunami gigante atingiu o nordeste do Japão no dia 11 de março, a barreira foi em grande parte amassada pela primeira onda, de 9 metros de altura, deixando Kamaishi sem defesa. Suspeita-se que as ondas desviadas pela barreira também tenham contribuído para as ondas de 18 metros que engoliram as comunidades ao norte.
Rápida e discretamente, Tóquio decidiu reconstruir a barreira como parte da recuperação da zona destruída pelo tsunami, a um custo de pelo menos US$ 650 milhões.Porém, à medida que se tornam conhecidos os detalhes dos gastos governamentais com a reconstrução, há cada vez mais sinais de que o Japão ainda tem de superar o modelo pós-guerra que enriqueceu o país, mas acabou deixando-o estagnado nas duas últimas décadas.
Como sugere a história da barreira de Kamaishi, as ligações entre governo e indústria que contribuíram para o desastre nuclear de Fukushima motivam grande parte da reconstrução e da disputa por uma fatia do orçamento de US$ 120 bilhões, que deve ser aprovado em algumas semanas.
Os defensores da obra afirmam que, se a barreira de Kamaishi não for consertada, as pessoas e as empresas fugirão ainda mais depressa, temendo outro tsunami.
"Pode haver um argumento contra a construção de uma barreira num local com pouco potencial de crescimento, mas não estamos construindo uma nova basicamente, estamos consertando", disse Akihiro Murakami, 57 anos, principal autoridade em Kamaishi do Ministério de Terras, Infraestrutura, Transportes e Turismo, que supervisiona as barreiras do país. "Neste momento, é a escolha com melhor custo-benefício."
Os reduzidos recursos do Japão seriam mais bem gastos na consolidação de comunidades destruídas em "cidades compactas" mais afastadas do litoral, oferecendo serviços centralizados, afirmam os críticos.
"Em 30 anos, pode ser que não haja mais nada lá, exceto belas barreiras e casas vazias", disse Naoki Hayashi, pesquisador do Instituto Central de Pesquisa da Indústria de Energia Elétrica, um dos maiores do Japão.
Conivência
Muito embora a barreira tenha produzido benefícios econômicos apenas para os interesses dos que controlam a construção de barreiras e portos no Japão, os defensores de sua reconstrução afirmam que ela é vital para o futuro de Kamaishi. Além de proteger a cidade contra tsunamis, a barreira destinava-se a criar um moderno porto internacional capaz de acomodar embarcações de contêineres e atrair novas empresas.
Local de nascimento da indústria moderna de aço do Japão, Kamaishi viveu períodos de crescimento econômico por quase um século, mas, no fim da década de 1970, seu maior empregador, a Nippon Steel, deslocou a produção de aço para o interior do Japão.
Burocratas descartam riscos
Em sua pressão pela reconstrução da barreira de Kamaishi, os burocratas descartaram a possibilidade de que a estrutura tivesse amplificado a destruição de pelo menos duas comunidades.No dia 11 de março, ondas de 18 metros de altura duas vezes mais altas que as vistas em Kamaishi aniquilaram Ryoishi e Kariyado. De um ponto de evacuação no alto de Ryoishi, Hajime Sato, 66 anos, bancário aposentado e líder distrital de Ryoishi, filmou a destruição enquanto usava um alto-falante para alertar as pessoas a buscarem terrenos mais altos. O tsunami matou 45 pessoas da população de 600 habitantes do distrito, mas varreu todas as 230 casas, deixando apenas 15.
"Superficial"
Shigeo Takahashi, presidente do Instituto de Pesquisa de Portos e Aeroportos, que avaliou o desempenho da barreira, afirmou não acreditar que ela tenha aumentado significativamente as ondas em Ryoishi ou Kariyado. Mas ele reconheceu que seu instituto fez apenas uma análise "superficial" de sua eficácia.
Kawata, membro do Conselho de Projetos de Reconstrução do governo, afirmou que as conclusões de uma investigação podem levar a processos judiciais ou pelo menos impedir a reconstrução da barreira. "Para eles", disse, referindo-se a membros do ministério, "não há benefício algum em conduzir uma investigação, embora alguns moradores estejam solicitando".







