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Uma migrante centro-americana e seus filhos em frente ao ponto de entrada em El Chaparral, em Tijuana, no estado mexicano de Baja California, em 17 de julho de 2019
Uma migrante centro-americana e seus filhos em frente ao ponto de entrada em El Chaparral, em Tijuana, no estado mexicano de Baja California, em 17 de julho de 2019| Foto: OMAR MARTÍNEZ / AFP

Dentro de uma instalação da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, a agência federal de controle de fronteiras no país, na semana passada, uma menina hondurenha de 3 anos foi solicitada a fazer uma difícil escolha, segundo o relato da família.

Os pais da menina, Tania e Joseph, haviam fugido de seu país com seus três filhos no início deste ano. Eles disseram à emissora de rádio pública americana NPR que estavam enfrentando ameaças violentas em Honduras da infame gangue MS-13. A família foi logo transferida para Juárez, no México, sob o programa de Protocolos de Proteção de Migrantes (MPP) do governo Trump, que exige que os solicitantes de asilo aguardem fora dos Estados Unidos enquanto seus pedidos são julgados por um juiz de imigração.

Mas um exame realizado na quinta-feira no Texas confirmou que a filha mais nova de Tania, chamada Sofi, sofria de uma doença cardíaca "séria" que levou um médico a dizer aos agentes da Patrulha da Fronteira que a menina deveria permanecer nos Estados Unidos. Em resposta, um agente teria dado à família uma escolha: um dos pais poderia ficar no país com os filhos, mas o outro teria que retornar ao México.

Enquanto a família se preparava para a separação, um agente instruiu Sofi a escolher entre seus pais, disse a mãe à NPR, que preferiu não relatar o sobrenome da família por causa do processo de asilo que está em andamento.

"O agente perguntou a ela com quem ela queria ir, com a mãe ou o pai", disse Tania à NPR por meio de um intérprete. "E a garota, porque ela é mais ligada a mim, disse 'com a mãe'. Mas quando eles começaram a levar [meu marido] embora, a menina começou a chorar. O oficial disse: 'Você disse [que queria ir] com a mãe'".

Falando com a NPR anteriormente, Tania explicou que sua família foi forçada a fugir de Honduras depois de vários confrontos terrivelmente violentos. A mãe da mulher teria sido baleada nove vezes, e a cunhada de Tania - que testemunhou o assassinato e estava prestes a depor no tribunal - foi morta em seguida, junto com a sua filha pequena.

Tania sabia que era hora de escapar quando um bilhete na porta indicava que ela tinha 45 minutos para sair de casa, disse ela à NPR. O bilhete teria supostamente sido assinado pela gangue Mara Salvatrucha - também conhecida como a MS-13. A família migrou para os Estados Unidos em abril para viver com parentes enquanto aguardava asilo, mas eles foram mandados a Júarez, no México, em conformidade com os Protocolos de Proteção aos Migrantes, também conhecidos como o programa "Permaneça no México".

A história da família é ainda mais complicada pela saúde precária de sua filha de 3 anos de idade. A advogada da família, Linda Rivas, do centro de advocacia para imigrantes Las Americas, uma entidade sem fins lucrativos, observou no tribunal de imigração que Sofi nasceu com uma doença cardíaca que exigiu cirurgia que a deixou com uma cicatriz no peito. Os registros médicos de Sofi mostram que ela também sofreu um ataque cardíaco, informou a NPR. Os pais foram procurar atendimento médico melhor para sua filha jovem nos EUA.

Rivas procurou remover a família dos Protocolos de Proteção aos Migrantes, citando diretrizes que declaram que pessoas com "problemas conhecidos de saúde física ou mental" não devem ser submetidas ao programa. Ela não respondeu a um pedido de comentário do Washington Post.

O juiz disse que não tinha autoridade para remover a família do programa, mas pediu a um advogado do Departamento de Segurança Interna que "registrasse as preocupações de Rivas", informou a NPR. Citando os problemas de saúde da menina no dia seguinte, um médico contratado pelo Departamento de Segurança Interna interveio e disse a um agente que a família deveria permanecer unida nos Estados Unidos.

O agente teria então aceitado o pedido - com a condição de que os pais fossem separados. Apenas um deles poderia ficar com as crianças pequenas nos EUA.

"… eu disse: 'Eu vim com o pai das crianças' e o agente disse: 'Ele não. Somente você e seus filhos'", disse Tania à NPR. "E o médico disse que é importante para a família ficar junto e até o médico disse: 'Eles entraram como família e têm que sair em família'".

Sofi escolheu a mãe, mas a NPR relatou que as crianças se agarraram ao pai quando ele foi levado para outra cela. O médico teria retornado e persuadido outro agente a manter a família unida, de acordo com a NPR. Eles foram liberados na sexta-feira para um abrigo de migrantes na cidade de El Paso, no Texas, e no domingo pegaram um voo para a região Centro-Oeste para ficar com parentes enquanto continuam a buscar asilo.

O Departamento de Segurança Interna não forneceu respostas a perguntas feitas pela NPR sobre o tratamento da família. A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA não respondeu a um pedido de comentário do Washington Post na tarde de terça-feira.

Efeitos devastadores

Separar crianças de seus pais pode causar efeitos devastadores e duradouros. Pesquisas sobre separação entre pais e filhos levaram especialistas em saúde, incluindo pediatras e psicólogos, a se oporem à política de fronteiras do governo Trump.

Sua frequência cardíaca aumenta. Seu corpo libera uma onda de hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina. Esses hormônios do estresse podem começar a matar os dendritos - os pequenos ramos nas células cerebrais que transmitem mensagens. Com o tempo, o estresse pode começar a matar neurônios - especialmente em crianças pequenas - causando danos dramáticos e de longo prazo, tanto psicologicamente quanto à estrutura física do cérebro.

"O efeito é catastrófico", disse Charles Nelson, professor de pediatria da Harvard Medical School, ao Washington Post. "Há tanta pesquisa sobre isso que se as pessoas prestassem o mínimo de atenção à ciência, elas nunca fariam isso".

Em meio a críticas em junho por separar famílias de imigrantes, a secretária de Segurança Interna Kirstjen Nielsen disse a uma multidão de agentes da lei que "não vamos nos desculpar pelo trabalho que fazemos".

A reportagem da NPR surge no momento em que o governo Trump tenta impedir uma onda de migrantes da América Central que buscam refúgio ao atravessar do México para os Estados Unidos, que o procurador-geral William P. Barr disse que "sobrecarregou completamente" o sistema judiciário de imigração.

O programa MPP provou ser criticamente importante para o governo Trump, pois permite algum alívio para o número recorde de famílias migrantes que entram nos Estados Unidos. Mas o ministro das Relações Exteriores do México, Marcelo Ebrard, criticou o programa esta semana, dizendo que ele foi imposto ao país sem nenhum recurso.

Um painel de três juízes permitiu que o MPP continuasse em maio, embora dois deles tenham indicado preocupações. Um juiz disse que parecia "irracional" enviar migrantes para o México sem perguntar se eles temiam estar lá. Outro disse que o governo está "clara e flagrantemente errado", relatou o Post.

A deputada democrata Veronica Escobar disse à NPR que seu escritório ajudou Tania e Joseph em sua busca para serem removidos do MPP. A congressista também solicitou que o Departamento de Segurança Interna investigasse as alegações levantadas pela família.

"É um escândalo, e é absolutamente horrível que seja pedido que uma criança escolha entre dois pais. Isso foi simplesmente chocante para mim", disse Escobar à NPR. "Uma coisa é ler sobre isso; outra coisa é realmente ouvir um pai ou mãe contando a história em primeira mão com a sua própria voz".

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