Manifestante palestino corre para escapar de bombas de gás lacrimogênio durante um protesto contra israelenses na vila de Bilin, perto de Ramallah, em 2009| Foto: Abbas Momani/AFP
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Canal expôs meandros da Guerra do Líbano

Além de enfurecer o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o Canal 10 ganhou a antipatia também de líderes anteriores, desempenhando um papel fundamental na exposição de como foi conduzida a guerra do Lí­­ba­­no, em 2006, e divulgando suspeitas de acordos corruptos en­­volvendo terras na família do ex-­­primeiro-ministro Ariel Sha­­ron.

O canal mostrou a situação de um médico palestino em Gaza, cujas três filhas foram mortas por forças israelenses na guerra ocorrida ali em 2008-2009, e mostrou um ministro do partido nacionalista Yisrael Beiteinu chegando à casa de uma mulher suspeita de ser sua amante e deixando a casa na manhã seguinte.

"Se nós deixarmos de existir, a mensagem será clara: se você tem coragem de abrir uma em­­presa de notícias que faz críticas, irá à falência", afirmou Raviv Drucker, principal repórter in­­vestigativo da estação, responsável pela matéria sobre as viagens de Netanyahu.

Um executivo do Canal 10, que falou sob a condição de anonimato, afirmou que um auxiliar de Netanyahu disse que, se Drucker tirasse férias por tempo indeterminado, o adiamento das dívidas seria muito mais fácil.

O gabinete de Netanyahu ne­­gou que essa conversa tivesse ocorrido.

Em anos anteriores, Neta­­nyahu chegou a intervir para salvar o Canal 10 duas vezes, pois afirmou que é a favor de aumentar as redes de notícias para ex­­pandir o mercado de ideias e de­­bates.

Fox News

A mídia israelense, como re­­clamam ele e seus auxiliares, pende para a esquerda, e o que o país precisa é de uma versão israelense da Fox News (emissora nor­­te-americana conhecida por suas posições conservadoras).

Algumas pessoas afirmam que era isso que Netanyahu acha­­va estar ajudando a criar quando, há cinco anos, persuadiu seu amigo, o bilionário americano Ronald S. Lauder, a investir no enfermo Canal 10. Mas a estrutura do canal dificulta que os do­­nos intervenham em seu con­­teú­­do.

Entretanto, depois da exibição da matéria sobre as viagens de Netanyahu, o primeiro-ministro esfriou sua amizade com Lauder, que se recusou a fazer comentários.

Outro dono do canal é o produtor de Hollywood Arnon Mil­­chan. O terceiro e maior acionista é Yossi Meiman, um liberal is­­raelense dono de um gasoduto do Egito que tem sido repetidamente explodido desde a revolução egípcia.

Um canal de televisão israelense exibiu, há quase um ano, uma reportagem sobre diversas viagens realizadas pelo então re­­cém-eleito Benjamin Netanyahu a Paris, Londres e Nova York antes de se tornar primeiro-ministro, em 2009.

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Acompanhado da esposa, ele voou de primeira classe e se hospedou em luxuosas suítes de hotéis. Sua esposa frequentava o cabeleireiro e mandava seu guarda-roupa para a lavanderia. As contas, exibidas na tela, foram pagas por amigos abastados.

Viajar com luxo à custa de outros pode violar regras do funcionalismo público e a própria lei, e também pega mal. Mas, em vez de receber elogios por seu jornalismo, o Canal 10 hoje luta pa­­ra sobreviver, e a hostilidade de Netanyahu em relação à emissora está sendo lançada como parte de uma guerra cultural e política mais ampla em Israel entre a esquerda e a direita, envolvendo esforços para controlar o judiciário, a divulgação de notícias e o discurso público.

Trata-se de uma batalha que imediatamente coloca a coalizão direitista governante contra a elite liberal à medida que o governo se recusa a adiar a dívida do ca­­nal, o que poderia obrigá-lo a fe­­char.

"A briga envolvendo o Canal 10 é, em parte, uma vingança.Netanyahu quer fazê-los pagar pelo que fizeram com ele", argumentou Nachman Shai, membro do parlamento do partido oposicionista Kadima e ex-executivo de mídia que ajudou a criar o Canal 10 há uma década.

"Mas também faz parte de uma luta de três frentes – envolvendo os tribunais, a sociedade civil e a mídia. A direita quer controlar todas as instituições. A li­­ber­­dade de imprensa está em ris­­co."

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As pessoas ao redor de Neta­­nyahu, que entraram com um pro­­cesso de calúnia contra o canal, da ordem de US$ 1 milhão, afirmam que o Canal 10 é uma empresa falida cujas dívidas já foram perdoadas inúmeras vezes e que está se escondendo atrás de queixas políticas e preocupações exageradas quan­­to à liberdade de expressão para fazer o público absorver suas dí­­vidas.

À primeira vista, o pedido que o Canal 10 faz é modesto. Ele de­­ve US$ 11 milhões, a maior parte desse valor a um órgão regulador oficial, e o restante em impostos. Ayelet Metzger, vice-diretora ge­­ral do órgão regulador, afirmou que sua agência e o ministério das Finanças tinham concordado em adiar a dívida por um ano.

No entanto, um comitê parlamentar votou contra isso em de­­zembro. A coalizão de Neta­­nya­­hu obrigou seus membros a votarem contra. Isso significa que o Canal 10 irá, em teoria, fechar as portas no fim deste mês, quando termina sua franquia de dez anos.

Na prática, haverá uma batalha para salvá-lo devido à crença de que o canal desempenha um papel fundamental no debate público, com suas transmissões de notícias investigativas e cruzadistas.

A única outra rede independente é o Canal 2, que também está enfrentando dificuldades econômicas.

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Entretanto, Netanyahu possui uma forte influência sobre outros veículos de mídia: o estatal Canal 1, uma rádio estatal e um jornal de sucesso distribuído gratuitamente, o Yisrael Hayom, de propriedade de um amigo americano de Netanyahu, o bilionário Sheldon Adelson.

O presidente Shimon Peres interveio, afirmando que o esforço do canal para sobreviver é "uma luta pelo caráter democrático de Israel".

Num comentário relacionado, ele também se declarou "en­­vergonhado" pelos diversos projetos de lei considerados no Par­­lamento que, segundo ele, afastam a democracia em Israel: uma lei antidifamação, outra que si­­lencia alto-falantes com chamados à oração para os muçulmanos, e outra que impede go­­vernos estrangeiros de financiar grupos de esquerda em Israel.

No verão passado, o Parla­­mento aprovou uma lei tornando possível processar qualquer pessoa que defenda o boicote a produtos de Israel, incluindo as­­sentamentos da Cisjordânia.