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Análise

“É hipocrisia as nações ocidentais apoiarem o Kosovo mas não a Ossétia do Sul”

O professor Segrillo: Rússia não deve ir tão longe para não romper laços com o Ocidente | Arquivo pessoal
O professor Segrillo: Rússia não deve ir tão longe para não romper laços com o Ocidente (Foto: Arquivo pessoal)

Entrevista com Angelo Segrillo - Historiador da USP e Instituto Pushkin de Moscou

A posição dos países ocidentais e da ONU, contrários à separação de territórios da Geórgia, entra em choque com a vasta aprovação dada em fevereiro à saída do Kosovo do território sérvio. Mesmo com os argumentos fornecidos, que incluem o passado histórico da região, essa contradição revela hipocrisia por parte do Ocidente, na opinião do professor Angelo Segrillo, um dos maiores conhecedores de história russa e eslava do país.

Leia outras opiniões do autor de O Declínio da URSS – Um Estudo de Causas em sua entrevista à Gazeta do Povo:

Gazeta do Povo – Qual a influência da separação do Kosovo da Sérvia, em fevereiro, sobre a situação na Geórgia?

Angelo Segrillo – O grande problema é que o separatismo é um efeito dominó. O Kosovo abriu um precedente perigoso, ao separar-se unilateralmente da Sérvia.

Por que o Ocidente apoiou a separação do Kosovo e não faz o mesmo no caso da Ossétia do Sul?

As posições são contraditórias. Por coincidência, a Sérvia não era aliada do Ocidente, que é aliado da Geórgia. O que os EUA dizem é que as situações são diferentes porque o Kosovo sofreu repressões históricas muito mais fortes por parte da Iugoslávia, enquanto a Ossétia do Sul, de alguma maneira, seria "mais bem tratada" pela Geórgia. Não é uma lógica que se sustente, é bastante clara a hipocrisia.

Qual a participação do presidente russo, Dmitri Medvedev, no apoio ao separatismo? Como ele deve resistir à pressão internacional?

Vai ser interessante agora ver se é o Putin quem está mandando na Rússia ou o Medvedev. Pela Constituição, é o presidente quem lidera as Forças Armadas. Mas ainda não está claro quem está à frente. Medvedev adotou uma posição enérgica. Isso faz bem para sua imagem dentro do país, mas externamente, cai seu conceito.

Que complicadores o senhor vê no conflito deflagrado ontem?

De um lado, a posição do presidente eleito em 2004, Mikhail Saakashvili. Ele tenta retomar o controle de todo o país. Além da Ossétia do Sul, enfrenta problemas na Abkházia. Mas conseguiu controlar a situação na Ajaria. De outro lado, a Rússia chegou a emitir nos últimos meses passaportes para cidadãos ossetianos – e uma guerra da Geórgia contra eles atinge cidadãos russos.

O que está envolvido na tensão separatista na Geórgia?

Os ossetianos estão separados em dois grupos. A Ossétia do Sul, que pertence à Geórgia, e a do Norte, que já pertence à Rússia. A questão principal dos separatistas não é serem independentes, e sim se reunificar com os demais ossetianos.

Por que existe o separatismo na região?

Em toda a ex-União Soviética, o conceito de nacionalidade não é dado pelo local de nascimento, e sim pela etnia. E etnia não é entendida como nós entendemos, um subgrupo dentro de um grupo maior. Para eles, os ossetianos são uma nação separada.

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