Veja quais ministros e partidos caíram devido à crise econômica| Foto:
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Manifestação em Portugal contra as medidas de austeridade exigidas para que o país receba um pacote de ajuda de 78 bilhões de euros
Partido Comunista Grego estendeu bandeiras no sítio arqueológico de Acrópole, em maio, incitando os povos da Europa a reagirem contra a crise
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Por anos, o welfare state, ou estado de bem-estar social, foi sinônimo de avanço e conquistas na Europa do pós-guerra ao transformar em direito dos cidadãos o acesso à saúde, à educação e a outros benefícios. Agora, esse sistema é golpeado com força pela crise econômica, já que diversos países europeus estão reavaliando o quanto o poder público pode bancá-lo.

Críticos de esquerda argumentam que o estado de bem-estar social oferece soluções para os problemas dos trabalhadores, mas não atinge as causas desses problemas. Cria seguro-desemprego, por exemplo, em vez de gerar empregos; ou dá uma série de benefícios, mas não aumenta os salários. Entre as críticas da di­­reita, está a de que os benefícios excessivos podem deixar os trabalhadores acomodados e, consequentemente, reduzir a produtividade.

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Diante da crise, não apenas governos neoliberais, mas os próprios sociais-democratas estão recorrendo aos cortes diante da encruzilhada da crise. Os benefícios sociais vão sobreviver à crise europeia?

Charles Pennaforte, diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (Cene­­gri), do Rio de Janeiro, considera que saúde, educação e habitação não podem sofrer cortes muito drásticos. Os países precisam reduzir as despesas com a máquina pública, diz, que é mais suscetível aos gastos.

"Os cortes não podem ser radicais, pois grande parte da economia desses países é dinamizada por esses setores que empregam muita gente. Cortes sem critérios vão gerar mais recessão", alerta Pennaforte.

Gunther Rudzit, coordenador do curso de Relações Interna­­cionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), de São Paulo, diz que a área de segurança, indo desde os bombeiros até a defesa nacional, não pode sofrer grandes cortes. Já em setores como saúde e educação, ele acredita que são necessários rearranjos "dependendo da cultura e da capacidade de cada país".

A professora de Economia Cintia Rubim, do Centro Uni­­ver­­sitário Curitiba (Unicuri­­tiba), ob­­serva que já há sinais de que a maior fragilidade social está re­­sultando no aumento de usuários de drogas e de casos de depressão na Grécia. A pesquisadora cita uma pesquisa do Instituto Uni­­ver­­sitário de Investi­­gação em Saúde Men­­tal, de Ate­­nas, que revelou um aumento de 40% na taxa anual de suicídios na Grécia.

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Para Cíntia, os governos não devem se preocupar em mostrar apenas para o mercado e para os credores que estão em busca de soluções. "É preciso sinalizar pa­­ra a população que esses cortes não significam um abandono do Es­­tado para com a sociedade, a fim de que as pessoas consigam sentir confiança na economia", diz.

Rudzit avalia que uma recuperação econômica vai levar no mínimo dez anos para ocorrer e a expectativa é de que ressurja uma Europa mais comedida. Pa­­ra esses especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o estado de bem-estar social não deixará de existir completamente. Pen­­na­­forte acredita que o crescimento econômico, quando voltar a ocor­­rer, vai estimular a retomada dos investimentos sociais. "Contudo, os patamares serão inferiores aos atuais".

Imigração

As consequências da crise também atingem os imigrantes, que estão encontrando mais barreiras para entrar ou para permanecer na Europa. Os pedidos de mu­­dança no Tratado de Schen­­gen (que permite livre trânsito entre países da União Europeia) são um sintoma das preocupações em controlar a imigração. "Os poucos empregos existentes de­­verão ser protegidos com ‘unhas e dentes’. Certamente tere mos uma maior vigilância das fronteiras", diz Pennaforte.