Cartucho de um dos fuzis utilizados no ataque desta quarta-feira (2), na Califórnia | MARIO ANZUONI/REUTERS
Cartucho de um dos fuzis utilizados no ataque desta quarta-feira (2), na Califórnia| Foto: MARIO ANZUONI/REUTERS

Na manhã de quarta-feira (2), um casal armado com fuzis entrou atirando em um centro de serviços sociais da pequena cidade de San Bernardino, na Califórnia. Quatorze pessoas morreram na ação. No mesmo dia, em Savannah, na Geórgia, outro atirador matou uma pessoa e feriu quatro. Cinco dias antes, um homem invadiu uma clínica de planejamento familiar no estado do Colorado e matou três pessoas.

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A sensação de que os tiroteios aleatórios estão cada vez mais comuns e banalizados nos Estados Unidos é confirmada por números. Foram 355 casos em 2015, mais do que um por dia. Os dados são tão impactantes que o jornal Washington Post publicou um calendário com todos os casos do ano. O levantamento que a publicação levou em conta é da organização “Guns are cool” e inclui apenas situações que envolvem um atirador e mais de quatro vítimas desconhecidas do autor – ou seja, não é um tipo de violência personalizada.

Além disso, o grupo usa uma metodologia diferente do FBI, a policia federal dos EUA, que considera um fuzilamento em massa apenas casos em que morrem mais de quatro pessoas -- mas isso, para o grupo, mostra dados distorcidos, pois esconde situações como a de um atirador (chamado Travis Steed) que entrou em uma boate no Memphis e feriu a tiros 12 pessoas, matando uma. “É um absurdo”, diz a apresentação do documento publicado no fórum reddit.

O número de eventos de violência em massa até agora já ultrapassou a quantidade de casos de 2014 (336) e se aproxima dos dados de 2013 (363).

Porte de armas em xeque

“O problema é muito grave. Se olharmos as estatísticas, isso tem crescido principalmente após 2011. Podemos dizer que o país vive uma espécie de epidemia e, infelizmente, a tendência é que este tipo de incidente continue a crescer”, afirma J. Reid Meloy, psicólogo forense de San Diego (Califórnia), especializado em avaliar ameaça a escolas e empresas.

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Meloy acredita que o país precisa debater urgentemente formas de criar controles para as armas, principalmente para pessoas com problemas mentais, instáveis ou que possam gerar riscos. O direito a armamento está na Constituição e um forte lobby das empresas do ramo impedem qualquer avanço no tema.

Para o analista, as redes sociais podem ajudar a controlar os ataques, pois muitos dos que os cometem pesquisam previamente sobre casos semelhantes na internet e chegam a dar indícios de que poderiam cometer o crime. Ele acredita, contudo, que é preciso que a mídia mude a forma como noticia esses ataques:

“Precisamos acabar com a glamourização dos atiradores. Isso inspira outras pessoas instáveis a seguirem este caminho”, diz.

Pete Blair, especialista no assunto pela Texas State University e autor da campanha “Don’t Name Them” (“Sem nomeá-los”) diz que a mudança de postura dos veículos de comunicação é essencial para evitar que mais casos se repitam.

“Os jornais, a TV, os sites fazem perfis dos atiradores, os colocam em destaque. Precisamos que a cobertura deste tipo de incidente passe a ser sobre os heróis que conseguiram minimizar a tragédia, sobre as vítimas, para acabar com o incentivo a esses crimes”, ele aponta.

Ele acredita que a existência de um número tão elevado de tiroteios nos EUA em comparação com outros países se explique por questões culturais. E é cético quanto à possibilidade da aprovação de normas mais rígidas para a venda de armas.

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Sociedade dividida

A sociedade americana, em geral, se divide sobre o assunto: uma pesquisa da Pew Research, realizada no fim de julho, aponta que 85% dos americanos são favoráveis à verificação dos antecedentes criminais para a venda de armas e que 79% defendem leis para evitar que pessoas com distúrbios mentais tenham acesso a elas.

Alguns pontos, contudo, evidenciam bem a divisão da sociedade sobre o tema: 85% dos democratas apoiam a criação de um banco de dados sobre armas pelo governo federal, contra 55% dos republicanos. E, enquanto 70% dos democratas querem a proibição para a venda de armas automáticas, menos da metade dos republicanos (48%) é a favor da proposta.

O site “Gun Violence Archive” (Arquivo de violência com armas) mostra que o problema não é restrito aos ataques em massa. Este ano, segundo levantamento, ocorreram 48.194 episódios do tipo, independentemente do número de vítimas, que causaram 12.188 mortes nos EUA. Das vítimas, 640 tinham entre 0 e 11 anos e outros 2.417 entre 12 e 17 anos.

O presidente Barack Obama e os democratas tentam, há anos, criar algumas restrições ou ao menos, um registro nacional de donos de armas, mas o tema é rechaçado pela maioria dos republicanos.

Entretanto, o apoio dos americanos às armas transcende os partidos e o pré-candidato democrata Bernie Sanders, que se define como socialista, defende as armas, comuns em seu estado natal, Vermont. O tema deve voltar a ganhar força nas eleições presidenciais americanas do ano que vem, embora especialistas não vejam muito espaço para um acordo político sobre o tema.

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