Um “bicitáxi” transitando em frente a uma imagem do guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara. De acordo com levantamento da Universidade Johns Hopkins, Cuba já está entre os dez países de maior inflação do mundo| Foto: EFE/Yander Zamora
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Cuba, ainda aprisionada pelo regime castrista, agora liderado pelo ditador Miguel Díaz-Canel, vive nos últimos anos sua maior crise desde a queda daquela que foi sua maior parceira no cenário internacional: a União Soviética.

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Desde a pandemia de Covid-19, decretada em 2020, o país caribenho vem sofrendo ainda mais com a escassez de medicamentos, combustíveis, alta inflação, crise alimentar e a deterioração de seus serviços públicos essenciais.

“Tenho quatro filhos e tenho que sustentá-los. Não sei como estou conseguindo fazer isso, mas estou fazendo. Um dia eu compro o almoço, outro dia não, e assim vou seguindo. A gente tem que tentar as coisas, porque você não pode comprar tudo ao mesmo tempo. Neste país, uma hora tudo falta”, disse um cidadão cubano em entrevista à agência France-Presse.

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Em fevereiro deste ano, informações oficiais do Banco Central de Cuba (BCC) davam conta de que a inflação anual da ilha havia atingido 44,5%. No entanto, essa porcentagem pode ser ainda maior, dada a falta de transparência nas informações repassadas pelo regime.

No seu levantamento Índice de Miséria de 2022, o economista Steve Hanke, da Universidade Johns Hopkins, apontou que Cuba encabeçava regionalmente uma lista que contava com Haiti, Guatemala e Jamaica, sendo o “país mais miserável” da América Central e do Caribe.

No levantamento, divulgado em maio, Hanke apontou que atualmente a inflação de Cuba estaria atingindo praticamente 87% ao ano, porcentagem bem maior do que o divulgado pela ditadura cubana e que coloca o país entre os dez de maior inflação no mundo. Para Hanke, “o regime comunista destruiu o valor do peso cubano”.

A alta inflação em Cuba é resultado direto da expansão monetária que o regime comunista vem realizando desde janeiro de 2021, quando unificou as duas moedas que circulavam no país: o peso cubano (CUP) e o peso conversível (CUC). A medida tinha como objetivo simplificar o sistema cambial e estimular a economia, mas acabou gerando uma desvalorização do CUP e um aumento do custo de vida.

Já a inflação no mercado informal de Cuba atingiu 45,36% em abril. No mesmo mês, em 2022, a inflação nesse segmento chegou a 23,69%. A alta teria sido impulsionada, de acordo com o Gabinete Nacional de Estatística e Informação de Cuba (Onei), pela área de alimentação e restaurantes.

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Esse tipo de informação já não assusta mais os cubanos. Em 2021, segundo notícias de veículos de comunicação independentes, a inflação no mercado informal de Cuba beirou os 500% na taxa anual.

A alta inflação cubana ajuda a aumentar a pobreza no país. De acordo com o relatório anual do Observatório Cubano de Direitos Humanos (OCDH), baseado em dados de 2022, cerca de 72% dos cubanos vivem na extrema pobreza.

Além disso, o relatório apontou que Cuba vem passando por uma crise alimentar grave. Segundo os dados, 54% da população do país se alimenta de forma inadequada e os produtos adquiridos para uma cesta básica só garantem a subsistência no máximo dez dias em um mês.

A grave crise econômica, desencadeada pelas políticas de governo e pela falta de reformas estruturais necessárias, vem afetando diversos setores da economia do país e impactando profundamente na fuga e emigração em massa de milhares de cidadãos cubanos, que tentam sair da ilha para recomeçar a vida.

O índice de emigração irregular de cubanos para outros países, especialmente para os Estados Unidos, tem aumentado drasticamente. Segundo dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês), ao longo de 2022 cerca de 200 mil cubanos chegaram à fronteira do país com o México, um número recorde.

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Muitos desses migrantes relatam ter sofrido violência, extorsão e roubo durante sua travessia pela América Central. O comissário do CBP, Chris Magnus, culpou o que ele chamou de “regime falido de Cuba” por desencadear uma “nova onda de migração no hemisfério ocidental”.

Em entrevista à Gazeta do Povo, o economista e professor universitário Orígenes Martins apontou que Cuba já não consegue com o turismo a arrecadação que obtinha em outros tempos e que a falta de recursos desnudou um “sistema autoritário, que levou a população a uma condição de miséria e se provou como um país que sempre dependeu da ajuda da Rússia”.

Martins observou que a única solução para o fim da crise generalizada em Cuba é "mudar o sistema político do país, gerar emprego democraticamente e buscar se associar a economias que ajudem a construir uma melhor estrutura econômica e social”. Para isso, a ditadura comunista da ilha teria que ser “imediatamente derrubada”.

Crise energética

Cuba também vive uma crise energética, que vem afetando indústrias locais e o transporte público e privado da ilha. De acordo com informações do relatório anual do OCDH, serviços básicos como os de água potável e eletricidade já não conseguem mais atender de forma satisfatória toda a população.

A falta de combustível, que tem gerado diversas filas em postos de gasolina nos últimos meses, se deve principalmente à redução do fornecimento de combustível já refinado por parte da Venezuela ao país - especialmente a gasolina e o diesel.

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O país sul-americano é o principal aliado de Cuba na América Latina, mas vem enfrentando sua própria crise sob o regime de Maduro, o que fez a Venezuela reduzir ano a ano a exportação de petróleo para Cuba. Para tentar sanar o problema, a ditadura cubana tem tentado negociar nos últimos anos a importação emergencial de petróleo do Irã em troca de alimentos.

O regime cubano tem atribuído a crise energética do país aos efeitos do embargo dos Estados Unidos, que limita as relações comerciais e financeiras da ilha desde 1962. No entanto, em 2021, o ditador Díaz-Canel reconheceu erros na gestão econômica e anunciou algumas medidas para tentar aliviar a situação da população.

Entre elas, estavam a unificação monetária e cambial (que teve um efeito contrário ao esperado), a “ampliação do setor privado”, a “eliminação de subsídios excessivos”, a “flexibilização das importações por pessoas físicas e jurídicas”, a “autorização da criação de pequenas e médias empresas (PMEs)” e a “abertura ao investimento estrangeiro”. Porém, essas reformas têm sido lentas, insuficientes, contraditórias e em alguns casos, praticamente inexistentes.

Escassez de medicamentos

A crise econômica cubana também vem fazendo o país enfrentar uma grave escassez de medicamentos, que afeta tanto as farmácias como os hospitais da ilha. A situação se agravou no começo deste ano, quando Cuba registrou um aumento de casos de Covid-19 e outras doenças, colocando o sistema de saúde à beira do colapso.

De acordo com informações da organização Human Rights Watch (HRW), com base em dados oficiais relatados pela chefia da indústria farmacêutica de Cuba, cerca de 88 dos 262 medicamentos mais necessários para a população estavam “indisponíveis” no país em 2022.

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Diferentemente da versão relatada pelo regime cubano, de culpar o embargo por todos os problemas do país, o relatório do OCDH aponta outras razões para a crise sanitária em Cuba. Entre elas, estão a ineficiência do modelo econômico centralizado e estatizado, que limita a produção e a distribuição de bens e serviços, e a falta de transparência e de participação popular no sistema político cubano, que impede o controle social e a fiscalização dos recursos públicos.

Outras organizações de direitos humanos, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e a Human Rights Watch, denunciaram que no país há constantes violações aos direitos humanos cometidas pela ditadura contra os dissidentes e os manifestantes, que sofrem repressão, prisão e tortura.

A escassez de medicamentos em Cuba traz consequências dramáticas para a população, que sofre com o desabastecimento de remédios essenciais para tratar doenças crônicas como diabetes, hipertensão, artrite e asma. Também faltam antibióticos, analgésicos, anti-inflamatórios e antialérgicos.

O OCDH apontou que oito em cada dez cubanos não encontram nas farmácias os medicamentos de que precisam. Para combater infecções, aliviar sintomas e conseguir os medicamentos que precisam, o OCDH disse que 57% da população cubana recorre à medicina natural, igrejas ou à solidariedade de familiares e amigos no exterior. Outros enfrentam longas filas nas farmácias ou recorrem ao mercado clandestino, onde os preços geralmente são exorbitantes.

Diagnosticado com hipertensão aos 16 anos, o comunicador social Leonardo Brito, que mora na cidade de Holguín, no leste de Cuba, relatou que toma diariamente três comprimidos de captopril e um de hidroclorotiazida.

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Segundo ele, os remédios servem "para me manter sob controle, mas nas últimas semanas só tomei um, para alongá-los".

“Há mais de quatro meses não chegavam o captopril e a hidroclorotiazida. No final de abril, consegui comprá-los na farmácia, mas não no valor estabelecido, porque o abastecimento ainda é instável”, lembrou, em relato ao site Inter Press Service en Cuba.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]