
Países como Cuba, Nicarágua e Guatemala devem estar preocupados com a possibilidade de a oposição vencer as eleições de amanhã na Venezuela. Isso porque o candidato oposicionista Henrique Capriles promete e até colocou como meta em seu plano de governo o fim dos "presentes" dados pelo governo de Hugo Chávez em todo o mundo.
Entre os regalos como se diz em espanhol distribuídos por Chávez, o destaque é a venda a preços preferenciais de milhares de barris de petróleo por dia à Cuba (115 mil barris) e a países da América Central. Capriles diz que não só cortará as doações como também revisará todos os acordos bilaterais feitos pelo governo.
"O candidato da oposição tem disposição de respeitar os tratados internacionais, porém vai renegociar aqueles que não trazem benefícios para o país. Como consequência, deixará de dar presentes aos países politicamente alinhados, como tem feito o atual governo", diz a professora María Teresa Romero, da Escola de Estudos Internacionais da Universidade Central da Venezuela.
As mudanças na política de relações exteriores com uma vitória de Capriles não se darão apenas com o corte das doações, segundo analistas. A previsão é de um novo arranjo regional, com o país se reaproximando do Chile, Colômbia e Estados Unidos. A Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), composta por um bloco alinhado ao bolivarianismo criado por Chávez, com destaque para Bolívia, Equador e Cuba, sofreria um sério impacto.
"A Alba não é um bloco de integração, como diz o governo. É um sistema clientelista, em que países dependentes da ajuda da Venezuela aderem ideologicamente em troca de auxílio. Esse esquema tem que mudar, ou a Alba tende a desaparecer com uma vitória da oposição na Venezuela", diz Adolfo Salgueiro, especialista em Direito Internacional e membro da equipe do programa de governo de Capriles.
Na lista de doações do governo e criticada por Capriles está até um patrocínio de US$ 930 mil à escola de samba carioca Unidos de Vila Isabel, feito pela PDVSA, a estatal petroleira.
O governo rebate e diz que não são doações, mas acordos que também trazem benefícios à Venezuela. No caso de Cuba, foram enviados à Venezuela cerca de 30 mil médicos, que são responsáveis pelo atendimento primário da população, algo parecido com o médico de família. Há ainda dentistas e professores de educação física, entre outros profissionais, trabalhando nas favelas e bairros mais pobres.
Na relação com países considerados inimigos dos EUA, como o Irã, enquanto o governo propõe ampliar o intercâmbio, Capriles defende o rompimento das relações.
Brasil
As trocas com o Brasil não serão afetadas com Capriles na Presidência, mas para alguns analistas existem pontos que serão revistos.
"Não há razões para mudar. Os dois países tem boas relações, a presidente Dilma Rousseff tem sido prudente, democrática e menos radical que Lula. O que precisa ser feito é a correção dos desequilíbrios no comércio bilateral. Hoje a balança comercial é muito favorável ao Brasil, o que é ruim para os venezuelanos", observa Salgueiro.
Nos bastidores chavistas a tese de equilíbrio na balança comercial também tem respaldo, mas o governo propõe uma maior troca de investimentos e aposta no Mercosul para abrir as portas aos produtos venezuelanos.



