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A Argentina se tornou o principal aliado ideológico dos EUA na América Latina desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. No campo econômico, em contrapartida, a China segue à frente como um parceiro estratégico fundamental para o país sul-americano, o que tem acendido um alerta em Washington.
Em meados de maio, Santiago Caputo, um influente assessor de Javier Milei, liderou uma missão oficial nos EUA com o objetivo de reafirmar o alinhamento da Casa Rosada com o governo de Donald Trump. Na ocasião, a equipe do republicano expressou preocupação com o acesso de Pequim a minerais críticos, como o lítio, e renovou apelos para o fechamento de uma base chinesa na província argentina de Neuquén, que os americanos alegam ser mantida para fins de espionagem.
O encontro, marcado por uma concorrência de interesses, expõe uma rachadura na relação bilateral. Ao mesmo tempo em que busca manter a simpatia política de Trump, Milei deve defender a parceria com a China para avançar com seu projeto econômico de tirar a Argentina da crise e, como consequência, se manter no poder após as eleições de 2027.
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João Alfredo Lopes Nyegray, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), explica à Gazeta do Povo que a Argentina de Milei quer se aproximar dos EUA, mas continua presa à materialidade da relação chinesa.
"A China compra commodities argentinas, investe em mineração, participa de infraestrutura e ainda funciona como fonte de liquidez por meio do swap cambial. A renovação do acordo de swap com Pequim, por exemplo, permitiu acesso adicional a recursos chineses em um momento de fragilidade das reservas argentinas. Isso reduz a liberdade estratégica de Milei: ele pode discursar como aliado preferencial de Washington, mas não pode ignorar quem compra, financia e investe", afirma.
Um swap cambial é um acordo financeiro entre duas partes para a troca de valores e pagamentos de juros em moedas diferentes durante um período específico, frequentemente utilizado para acessar empréstimos em moeda estrangeira a um custo menor ou para minimizar riscos cambiais e de taxas de juros. No caso da Argentina, o mecanismo permitiu ampliar o acesso a recursos chineses e reforçar as reservas internacionais do país.
Os EUA influenciam a escolha de parceiros estratégicos de seus aliados combinando incentivos, pressão regulatória, financiamento, acesso a mercado, cooperação militar e sinalização diplomática.
"No caso argentino, isso aparece com clareza: Washington não precisa proibir Buenos Aires de negociar com Pequim, basta transformar certas áreas — lítio, portos, hidrovias, telecomunicações, defesa, energia e dados — em temas de segurança nacional", pontua Nyegray.
EUA tentam frear o avanço chinês na América Latina
Com foco em minar o controle chinês sobre recursos na América Latina, os EUA assinaram em fevereiro um acordo sobre minerais críticos com a Argentina, que prevê uma parceria mais profunda para fornecimento e processamento desses recursos para os EUA.
Washington também vinha pressionando o Brasil, outro parceiro da China, para ter acesso a recursos do país e conseguiu avançar nesse sentido durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Casa Branca, no início de maio.
O economista Igor Lucena, doutor em Relações Internacionais, destaca que os EUA poderiam pressionar a Argentina a reduzir seus acordos comerciais com os chineses, mas, para isso, Washington teria que oferecer uma contrapartida robusta a essa parceria, a fim de não prejudicar o desenvolvimento do aliado sul-americano.
"Enquanto os EUA estão no modo protecionismo, a China surge num período de avançar com suas alianças. Enquanto isso ocorrer, é muito difícil que países da América Latina abram mão totalmente dessas parcerias. Aqueles governos com visão mais à direita, como Paraguai e a própria Argentina, até buscarão maior alinhamento com os americanos, mas isso não ocorrerá em sua totalidade", avalia o analista.
Para Nyegray, o governo Trump já está buscando oferecer à Argentina uma alternativa ao avanço chinês por meio de acordos de comércio e investimento, apoio financeiro, coordenação em segurança, acesso a empresas ocidentais e aproximação em minerais críticos.
O acordo comercial e de investimentos assinado em fevereiro reforça essa lógica ao ampliar a cooperação bilateral, alinhar padrões regulatórios e fortalecer controles sobre bens de uso dual (civil e militar), além de incentivar investimentos norte-americanos em minerais críticos.
Em contrapartida, há uma pressão política para alinhar essa expectativa, por exemplo, quando autoridades norte-americanas expressam preocupação com infraestrutura chinesa na Argentina ou com possível influência chinesa em estruturas críticas. "Washington não exige alinhamento total em todos os setores, mas busca impedir que a China controle nós críticos da economia de aliados. Portos, rios, cabos, dados, lítio, defesa e energia não são mais tratados como ativos neutros. São infraestruturas de poder", destaca.
Uma das estratégias de Trump para fortalecer a parceria com seus aliados na região, visando combater a presença chinesa, foi o Escudo das Américas, lançado em março. A iniciativa, prioritariamente focada em enfrentar facções criminosas que atuam no continente americano, também é vista por analistas como uma estratégia dos EUA para reafirmar sua hegemonia regional e conter a crescente influência da China e da Rússia na América Latina.











