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Funcionários descarregam carga contendo 10 milhões de máscaras de proteção compradas pela França da China, no aeroporto de Paris-Vatry, 30 de março de 2020. A demanda global por equipamentos médicos de proteção fabricados na China aumentou em meio à pandemia de coronavírus
Funcionários descarregam carga contendo 10 milhões de máscaras de proteção compradas pela França da China, no aeroporto de Paris-Vatry, 30 de março de 2020. A demanda global por equipamentos médicos de proteção fabricados na China aumentou em meio à pandemia de coronavírus| Foto: FRANCOIS NASCIMBENI / AFP

Os Estados Unidos estão sendo acusados de "pirataria moderna", após alegações de que o país interceptou entregas de insumos médicos de emergência para o combate ao coronavírus que já haviam sido pagos por outros países, oferecendo valores maiores do que os negociados para levar os produtos.

Nesta sexta-feira (3), a Alemanha acusou os Estados Unidos de confiscar milhares de máscaras de proteção que já tinham sido pagas por autoridades de Berlim, segundo a imprensa alemã.

O ministro do Interior do estado de Berlim, Andreas Geisel, disse que oficiais americanos interceptaram 200 mil máscaras de proteção N95 produzidas pela 3M enquanto elas estavam sendo transferidas entre voos na Tailândia, que já tinham sido pagas pela Alemanha e seriam usadas por policiais.

Geisel fez um apelo ao governo federal da Alemanha para que pressione os Estados Unidos pelo cumprimento das regras internacionais de comércio. "Essa não é a maneira de tratar parceiros. Mesmo em tempo de crise global, métodos de faroeste não deveriam ser usados", disse Geisel, que descreveu a atitude americana como "pirataria moderna".

Essa não foi a primeira reclamação sobre a postura do governo dos EUA em relação à compra dos escassos insumos que são tão necessários para o combate à pandemia do novo coronavírus.

Valérie Pécresse, presidente da região de Île-de-France, que inclui Paris, comparou a busca por suprimentos médicos a uma "caça ao tesouro". "Eu encontrei um estoque de máscaras disponíveis e os americanos - não estou falando do governo americano, mas sim de americanos - fizeram uma oferta mais alta do que a nossa. Eles ofereceram um valor três vezes maior e pagamento à vista. Eu não posso fazer isso. Estou gastando dinheiro do contribuinte e só posso pagar na entrega ao verificar a qualidade", disse Pécresse à BMFTV.

Outras autoridades francesas já haviam alegado que compradores americanos ofereceram valores maiores para carregamentos de máscaras, incluindo um caso em que a carga estava em uma aeronave já na pista de decolagem de um aeroporto em Shanghai, China, com destino à França e foi desviada para os Estados Unidos.

Segundo duas autoridades francesas, os compradores americanos ofereceram um valor três vezes mais alto pelo carregamento de milhões de máscaras, que tinham sido compradas para serem usadas em unidades de tratamento intensivo na França.

Uma autoridade do governo americano disse à AFP que "o governo dos Estados Unidos não comprou máscaras que seriam entregues da China para a França. Relatos que dizem o contrário são completamente falsos".

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, disse na quinta-feira que estava preocupado com o relato de um lote de máscaras que chegou em quantidade menor do que a esperada e que parte dele foi comprado por alguém que "deu um lance mais alto".

"Entendemos que as necessidades dos EUA são muito grandes, mas acontece o mesmo no Canadá, então temos que trabalhar juntos", disse Trudeau.

Países europeus também têm sido acusados de confiscar máscaras que seriam destinadas a outros países da União Europeia. Segundo a revista francesa L'Express, a França confiscou, em 5 de março, 5 milhões de máscaras da empresa sueca Mölnlycke produzidas na França, dois dias depois de o presidente Emmanuel Macron ter assinado um decreto que permite ao governo confiscar estoques de materiais hospitalares para combater o coronavírus.

Segundo a empresa sueca, essas máscaras seriam enviadas para Espanha e Itália, países entre os mais atingidos pela pandemia.

A empresa francesa Valmy SAS foi obrigada a redirecionar um pedido de equipamentos de proteção individual feito pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido. Um representante da empresa disse à CNN que o pedido foi bloqueado por agentes da alfândega na costa da França.

Carregamento para a Espanha é barrado na Turquia

Um avião carregado com respiradores para a Espanha foi bloqueado por autoridades turcas em Ancara, disse nesta sexta-feira a ministra de Relações Exteriores da Espanha, Arancha González Laya.

Em coletiva de imprensa, Laya disse que o avião foi bloqueado pelo governo da Turquia em Ancara antes de embarcar com materiais comprados por várias localidades espanholas, "por preocupação [do governo turco] de poder abastecer seu próprio sistema sanitário".

Segundo o site de notícias espanhol El Mundo, Laya explicou que o governo turco impôs nos últimos dias restrições para a exportação de produtos médicos para "abastecer o seu próprio sistema sanitário diante desta epidemia". No entanto, a carga bloqueada havia sido fabricada na Turquia por encomenda de uma empresa espanhola que importou os componentes da China, informou a publicação.

A ministra disse que conversou com autoridades da Turquia mas não teve sucesso. No momento, o governo considera perdido esse carregamento.

No mês passado, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que "os preços de máscaras cirúrgicas aumentaram seis vezes, respiradores N95 mais do que triplicaram, e aventais custam o dobro".

"Os suprimentos podem levar meses para serem entregues, a manipulação do mercado é abrangente e estoques são muitas vezes vendidos a quem dá o maior lance", disse. De lá para cá, a demanda por esses materiais só aumentou.

A maioria dos países não estava preparada para essa pandemia e não tem capacidade de produzir os equipamentos de proteção individual necessários para combatê-la; apenas profissionais da saúde chegam a usar milhões de máscaras diariamente, por exemplo. A China concentra grande parte da capacidade global de produção desses insumos.

Ministro da Saúde do Brasil critica postura dos Estados Unidos

Sem mencionar nominalmente os Estados Unidos, o ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta, fez duras críticas à postura do governo americano. "Estamos vendo retenção sobre produções globais de máscaras. Quase que uma coisa assim: 'isso era global, agora é só pra atender o meu país'. Nós estamos dialogando com os países no sentido de ter um mínimo de racionalidade nesse momento, pra podermos achar um ponto de equilíbrio", disse Mandetta.

O ministro ponderou que a China permaneceu fechada durante fevereiro e março com seus insumos, para atender o mercado interno, mas isso gerou um problema em todo mundo, já que os chineses são responsáveis por mais de 90% da produção mundial desses equipamentos e insumos de proteção. O problema, no entanto, é que o presidente Donald Trump tem atuado para que os insumos sejam todos direcionados aos Estados Unidos.

"O momento continua difícil em termos de abastecimento de sopradores. Nós não confirmamos hoje o que vai entrar de respiradores e material", comentou Mandetta, ao citar que a Bahia esperava a chegada de 680 sopradores, o que não ocorreu.

(Com informações do Estadão Conteúdo)

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