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Governo Macron

A França gastou “custe o que custar” na pandemia; agora, protestos e greves entregam a conta

Manifestante discute com policial durante protesto em Paris na quinta-feira (8) (Foto: FIRAS ABDULLAH/EFE/EPA)

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As manifestações que têm ocorrido na França nas últimas semanas revelam uma crise mais profunda que a da educação no país europeu, motivação dos protestos: a deterioração das contas públicas durante o governo do presidente Emmanuel Macron, que está no poder desde 2017.

Os protestos, que começaram em setembro como manifestações em apoio a professores em greve de uma escola de Paris, vêm ganhando corpo na França e resultando em confrontos com as forças de segurança, com vários feridos, presos e estabelecimentos de ensino suspendendo aulas.

Os manifestantes pedem mais recursos para a educação em um momento em que a França enfrenta sua pior situação fiscal em décadas.

No final de setembro, o INSEE, o instituto nacional de estatísticas da França, divulgou que a dívida pública do país atingiu o patamar de 119% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior desde os mais de 300% de 1946, no pós-Segunda Guerra Mundial.

Antes da pandemia de Covid-19, a dívida francesa equivalia a menos de 100% do PIB. O governo Macron promoveu um endividamento elevado para sustentar a economia – minada pelas medidas restritivas de enfrentamento ao coronavírus – durante a emergência sanitária global, numa política que foi apelidada de “custe o que custar”.

Agora, a conta chegou. Com atraso, Macron vem tentando promover cortes de gastos e equilibrar as contas públicas, mas enfrenta forte resistência de manifestantes, do bloco de esquerda liderado pelo partido A França Insubmissa (LFI, na sigla em francês) e da legenda de direita nacionalista Reagrupamento Nacional (RN), que conquistaram grandes bancadas na Assembleia Nacional na eleição parlamentar antecipada de 2024.

A reforma da Previdência de 2023, que elevou a idade mínima de aposentadoria no país de 62 para 64 anos, desencadeou grandes protestos na França porque a então primeira-ministra Élisabeth Borne invocou o artigo 49.3 da Constituição francesa para que a medida fosse aprovada sem que fosse votada no Parlamento.

Em outubro de 2025, o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, cedeu a ameaças da esquerda e anunciou a suspensão da reforma previdenciária até a eleição presidencial de 2027.

Em um período de um ano, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, a França teve três primeiros-ministros.

Michel Barnier e François Bayrou foram destituídos por votos de desconfiança no Parlamento articulados pela esquerda e pelo RN, contrários aos cortes de gastos defendidos por Macron.

Lecornu os substituiu e, devido ao impasse orçamentário, desistiu do cargo em menos de um mês, mas voltou a ser indicado dias depois pelo presidente e continua sendo premiê da França.

Além da questão previdenciária e da educação, outra pressão que as contas públicas da França enfrentam é o aumento dos gastos em defesa, medida cobrada pelo presidente americano, Donald Trump, aos outros integrantes da Otan diante da ameaça da Rússia.

A eleição presidencial francesa será realizada em abril, e Jean-Luc Mélenchon, líder do LFI, e Marine Le Pen, do RN, têm aparecido entre os primeiros colocados nas pesquisas.

Enquanto Mélenchon mantém o discurso esbanjador típico da esquerda, Le Pen passou a defender cortes de gastos, porém, Andrew Kenningham, economista-chefe para a Europa da consultoria Capital Economics, afirmou em análise citada pela emissora americana CNN que a intenção do RN de cortar impostos pode pressionar as contas públicas.

“Os investidores estarão preocupados com um maior populismo fiscal após as eleições”, escreveu Kenningham. “Existe um grande risco de que os spreads subam ainda mais, seja antes ou depois das eleições do próximo ano.”

Analista enxerga pouca “margem de negociação” para o governo Macron

Em entrevista à Gazeta do Povo, Frederico Dias, doutor em relações internacionais e coordenador do curso de ciências econômicas do Ibmec Brasília, disse que Lecornu “tem pouca margem de negociação em qualquer dos níveis”: externo ou interno. “Cada concessão doméstica reduz sua credibilidade externa, e cada corte alimenta a mobilização interna”, pontuou.

“As instituições europeias, ao mesmo tempo que impõem limites às políticas do governo francês, permitem que seu endividamento seja amortecido pelo Banco Central Europeu, de hegemonia alemã. Neste sentido, dificilmente a crise levaria a um colapso, com a insolvência do Estado francês. É mais provável que a crise se torne crônica, aumentando o risco dos títulos alemães, rebaixamentos de rating da França, governos frágeis em Paris, orçamentos aprovados no limite”, afirmou Dias.

A respeito do LFI e do RN, o analista disse que ambos “representam eleitorados que se sentem perdedores da globalização e da disciplina fiscal europeia” e que seus programas econômicos, ainda que apresentem divergências, têm em comum “menos deferência a regras fiscais da União Europeia, especialmente o LFI”.

Nesse sentido, os dois partidos, se chegarem ao poder em 2027, vão se deparar com os problemas já enfrentados por Macron e Lecornu, destacou Dias: um Parlamento fragmentado; correções fiscais impostas pela UE; e a queda forte dos títulos governamentais.

“Os economistas que alertam para o risco têm razão em apontar a trajetória da dívida, mas é preciso lembrar que o governo atual, de centro-direita, também não conseguiu estabilizá-la, e que os protestos mostram um eleitorado que rejeita o ajuste, qualquer que seja o governo. O problema é estrutural e anterior a 2027: a França tem um contrato social caro e uma base política que não aceita revisá-lo”, afirmou Dias.

Eduardo Galvão, doutor em relações internacionais e professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, disse à Gazeta do Povo que há na França uma dificuldade crescente de conciliar as demandas da sociedade com a capacidade financeira do Estado, agravada pela fragmentação política e pela resistência às medidas de ajuste.

“A ausência de uma perspectiva consistente de equilíbrio fiscal aumenta a desconfiança dos investidores, pressiona os juros e eleva o custo da dívida. Com isso, uma parcela crescente do orçamento acaba comprometida com despesas financeiras, reduzindo justamente a capacidade do governo de investir em áreas como educação, saúde e infraestrutura”, explicou.

A respeito das divergências entre os programas econômicos do LFI, que defende uma participação maior do Estado na economia e a ampliação de investimentos e políticas sociais, e do RN, que “combina propostas de redução de impostos, contenção de determinadas despesas e mudanças nas prioridades do orçamento”, Galvão disse que os dois partidos precisam responder à mesma questão: como financiar suas propostas sem agravar o desequilíbrio das contas públicas?

“O risco de populismo fiscal surge quando se oferecem soluções atraentes para o eleitorado sem demonstrar de maneira convincente como elas serão sustentadas. Isso pode acontecer tanto com promessas de ampliar gastos quanto com propostas de reduzir impostos”, alertou o analista.

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