O resultado das eleições italianas, ao não apontar para um vencedor claro, gerou incertezas por toda a Europa. Nenhum dos candidatos obteve maioria absoluta no Parlamento.

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O primeiro colocado, Pier Luigi Bersani, de centro-esquerda, agora parte em busca de alianças para um futuro governo em que seria primeiro-ministro.

Silvio Berlusconi, de centro-direita, ficou em segundo lugar, parecendo ressurgir das cinzas após alguns escândalos e quedas de governo.

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Em terceiro temos Beppe Grillo, um comediante crítico dos políticos tradicionais, que defende não fazer alianças, o que poderia ser causa de ingovernabilidade. Mario Monti, atual premiê, ficou em quarto lugar, amargando uma derrota com seu comportamento de subserviência à União Europeia e suas políticas de austeridade.

Uma aliança entre Bersani e Berlusconi parece bastante improvável, uma vez que ambos ocupam campos opostos no espectro político. Mesmo que um dos dois se alie ao centrista Monti, a maioria não está garantida, diante dos votos escassos recebidos por este último. Deve-se lembrar que na transição do governo passado, com a queda de Berlusconi, a intervenção do presidente Giorgio Napolitano fez com que Monti fosse nomeado chefe de governo. Dessa vez, Napolitano promete não intervir e deixa o cenário ainda mais instável, causando nervosismo nos mercados.

Os líderes europeus rapidamente se reuniram com Monti, declarando que seu governo estaria cumprindo com o programa acordado pelo bloco, garantindo a confiança dos mercados. O português Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, e o belga Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, defenderam a continuidade das políticas de Monti, fazendo transparecer que querem vê-lo participando de um futuro governo italiano pró-europeu. Apesar disso, parece que o eleitorado italiano quis demonstrar exatamente o contrário, ou seja, uma aversão às políticas europeias de austeridade que aumentaram os impostos e cortaram benefícios da população. Com isso, um novo governo italiano, uma vez formado, deve significar um maior confrontamento com a Alemanha, defensora da austeridade. Por outro lado, a França de François Hollande deve ganhar mais um aliado advogando crescimento. Diante desse cenário, a pressão sobre Angela Merkel deve aumentar, inclusive com ameaças de que a Itália, terceira economia da zona do euro, deixe a moeda única. Resta saber se agora os alemães estarão mais dispostos a pagar a conta da crise.

Demetrius Cesário Pereira, professor de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco, especialista em Política Europeia, e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).