Ditador Nicolás Maduro comemora vitória nas eleições, após anúncio do CNE, em 20 de maio de 2018| Foto: JUAN BARRETOAFP

Em votação marcada pelo baixo comparecimento e não reconhecida pelo seu principal adversário, o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, 55, foi reeleito neste domingo (20) para um novo mandato de seis anos, segundo o CNE (Conselho Nacional Eleitoral).

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Com 92,6% das urnas apuradas, o chavista obteve mais de 5,8 milhões, ou 67% dos votos válidos, contra pouco mais de 1,8 milhão (21%) para o oposicionista Henri Falcón.  Em terceiro, ficou o pastor evangélico Javier Bertucci, com 925 mil (11%).

A abstenção chegou a 54%. Na eleição presidencial anterior, em 2013, esse percentual foi de 20,3%. 

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A vitória oficialista ocorre apesar de o seu governo ser rechaçado pela maioria da população, segundo as pesquisas de opinião mais confiáveis, que colocavam o ex-chavista Falcón como favorito.

Pouco antes do anúncio do resultado, Falcón acusou Maduro de usar a máquina estatal para vencer o pleito.

"Não reconhecemos este processo eleitoral. Para nós, não houve eleições, é preciso fazer novas eleições na Venezuela", disse Falcón.

O ex-governador do estado de Lara acusou o governo Maduro de "atuar com perversidade" por usar o Carnê da Pátria, documento que dá acesso a diversos programas e benefícios sociais, para controlar o fluxo de eleitores ao longo do dia.

Uma coalizão de oposição da Venezuela diz que o presidente do país, Nicolás Maduro, tentou inflacionar seu número de votos ao manter centros de votação abertos horas após o fechamento oficial para esconder o que qualifica de "farsa" eleitoral de absenteísmo em massa nas eleições presidenciais de domingo. 

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Falando em nome da recém-criada coalizão da Frente Ampla, o parlamentar da oposição Juan Pablo Guanipa disse que esse “não era um processo eleitoral em que as pessoas pudessem votar livremente". Guanipa diz que a eleição "foi uma farsa de um ditador que quer permanecer no poder sem apoio popular" e pediu novas eleições nas quais todos os candidatos, incluindo aqueles barrados pelo governo de Maduro no pleito de domingo, possam concorrer.

As eleições deveriam ocorrer apenas em dezembro, mas a Assembleia Nacional Constituinte, composta majoritariamente por apoiadores do ditador, adiantou o pleito. A oposição afirma que essa manobra foi feita para tirar vantagem do racha entre os partidos adversários.

Com o resultado, o chavismo, no poder desde 1999, aparenta ganhar uma sobrevida, em meio à mais grave crise econômica da história venezuelana.

O triunfo de Maduro diminui as chances de a Venezuela reverter seu agudo processo de deterioro. Em recessão desde 2013 -e com uma hiperinflação de mais de 13.779%, a penúria do país tem levado centenas de milhares de pessoas a emigrar, fugindo da fome e da violência.

Eleição contestada no exterior

Sem a participação dos principais líderes oposicionistas, declarados inelegíveis, a eleição de domingo não é reconhecida pela União Europeia, pelos EUA, pelo Canadá e pela Colômbia, entre outros países.

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A administração americana disse que não reconhecerá o resultado. No Twitter, a missão dos Estados Unidos para as Nações Unidas disse que o processo é um “insulto à democracia”.

O Brasil, que teve seu embaixador expulso de Caracas em dezembro, vem criticando a escalada autoritária na Venezuela e não reconhece a legitimidade do pleito, mas avalia que precisa manter um relacionamento mínimo para tratar de temas bilaterais com o país vizinho.

Em 14 de maio, o Grupo de Lima, do qual o Brasil faz parte, exortou a Venezuela a suspender a eleição por não ter a participação de toda a oposição e pela falta de observadores internacionais independentes, entre outros problemas.

Abstenção e fraudes

O dia foi marcado pela pouca presença de eleitores nos centros de votação, mesmo nos redutos chavistas.

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"O que a gente ganha não dá nem pra comer, quem vai se entusiasmar com essa eleição?", disse o pintor de carros Jesús Pereira, 80, registrado no liceu Manuel Palacio Fajardo, o mesmo do presidente Hugo Chávez, morto em 2013.

Morador do bairro 23 de Enero, maior bastião do chavismo do país, Pereira afirmou que "todos estão saindo do país como os pássaros. Quem pode, vai embora."

A movimentação de eleitores era mínima no local pela manhã. A reportagem da Folha contou apenas 29 pessoas entrando no prédio do liceu entre as 8h03 e as 8h13. 

Desses, oito desembarcaram da boleia de um caminhão da Fontur (Fundo Nacional de Transporte Urbano), do governo federal. A prática é ilegal pela lei eleitoral. 

A maioria dos eleitores era de idosos. Após votar, eles se dirigiam ao Ponto Vermelho, instalado do outro lado da rua, sob um pequeno toldo. Ali, funcionários escaneavam o Carnê da Pátria, com o qual o portador tem acesso a cestas básica, atenção médica, entre outros benefícios e serviços públicos. 

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Numa tentativa para atrair eleitores, Maduro prometeu pagar um bônus a quem apresentasse o Carnê da Pátria nos Pontos Vermelhos, montados perto e até mesmo dentro dos centros de votação. Segundo relatos dos próprios eleitores, o valor será de 10 milhões de bolívares (US$ 11).

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Vestida com uma calça estampada com a bandeira venezuelana, a chavista Milagros Ramírez, 53, disse que a falta de filas se devia ao processo mais rápido de votação.

Ela atribui a crise econômica venezuelana aos empresários, que estariam promovendo uma guerra econômica contra o chavismo. "Isso não está fácil, mas temos de continuar apoiando do governo", diz a técnica de recursos humanos aposentada por invalidez.

Após votar, o principal candidato da oposição, o dissidente chavista Henri Falcón exortou o CNE (Conselho Nacional Eleitoral), servil ao governo, a fechar os Pontos Vermelhos, acusando-os de "mecanismo de controle" dos eleitores.

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"Exigimos jogo limpo e transparência", acusou o ex-governador de Lara, que liderava as pesquisas de opinião mais confiáveis. "Não podemos permitir essa chantagem."

O CNE, no entanto, não tomou nenhuma medida sobre os Pontos Vermelhos, que vêm sendo usados pelo chavismo em eleições recentes.

Na zona leste de Caracas, zona antichavista que concentra bairros de classe média e alta da capita venezuelana, os centros de votação pareciam ainda mais vazios.

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A falta de eleitores se deve em parte à campanha da coalização oposicionista MUD (Mesa da Unidade Democrática) pela abstenção. Seus principais líderes, Henrique Capriles e Leopoldo López, foram impedidos de concorrer.

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No Colégio San Ignacio, no bairro nobre La Castellana, apenas dez eleitores apareceram para votar entre as 9h29 e as 9h39. Ali, não havia um Ponto Vermelho.

"Não que eu goste de Falcón, mas a outra opção é uma fantasia de que os EUA vão invadir a Venezuela. Isso não vai acontecer", diz o advogado Henrique Castillo, 41.

Em tom de brincadeira, disse que sua mulher deixou de falar com ele porque decidiu votar. "Mas não creio que a abstenção seja uma demonstração de força".