Parece estranho que o maior desafio à autoridade do premiê Recep Tayyip Erdogan em mais de uma década de poder comece com uma pequena querela ambiental. Mas, à medida que milhares de pessoas saíram às ruas em cidades de todo o país, ficou claro que as manifestações representam algo mais abrangente do que a simples ação de "alguns saqueadores" [como Erdogan aludiu aos manifestantes] tentando impedir a destruição de árvores no Parque Gezi, de Istambul. Os protestos têm sido marcados por cenas até então impensáveis de manifestantes gritando para que Erdogan e seu gabinete renunciem.

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A ferocidade dos protestos e a resposta policial foi certamente uma surpresa para muitos em Washington. A Turquia, esse "modelo de excelência" ou "modelo de parceiro", estaria, como muitos dizem, "mais democrática do que era há uma década".

Na verdade, o que está ocorrendo é o contrário, com o partido de Erdogan (AKP) cimentando o caminho para se manter no poder e transformar a Turquia num Estado monopartidário. A ironia é que o AKP procurou desenvolver seu modelo antiliberal ao mesmo tempo em que Washington tinha o país como modelo para o pós-Primavera Árabe.

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Em 2012, Erdogan presidia a 17.ª economia mundial, havia se tornado um ator influente no Oriente Médio, comprometido com as forças da Organização do Atlântico Norte (Otan) e realizando reformas políticas de amplo alcance que rechaçaram uma série de legados autoritários do passado – como colocar o poder militar sob controle civil e reformar o sistema judicial.

O premiê turco era um interlocutor confiável para ninguém menos que os Estados Unidos. No entanto, ao mesmo tempo em que o AKP ganhava eleições em casa e aplausos no exterior, uma guinada autoritária estava em curso. Em 2007, um esquema pelo qual oficiais militares, agentes de inteligência e criminosos tentaram tomar o governo foi descoberto e usado por Erdogan para silenciar críticos. Desde então, a Turquia se tornou um país onde jornalistas com frequência perdem os empregos e são presos por discordarem das opiniões do premiê.

A máquina do Estado tem sido usada contra negócios privados quando seus proprietários discordam do governo, e a liberdade de expressão em todas as suas formas está sob pressão.