Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Bicentenário

Missão 2022

Projeto do governo prevê a transformação do Brasil em pólo de política internacional nos próximos 12 anos, numa espécie de nova declaração de independência. País quer ser livre para dizer o que pensa sem constrangimentos

O Brasil quer comemorar o bicentenário da Independência como membro do Conselho de Segu­­ran­­ça da ONU e livre para dizer o que pensa sem sofrer constrangimento na arena internacional.

Esse é o conteúdo de política externa do projeto Brasil 2022, elaborado pela Secretaria de As­­suntos Estra­­tégicos da Presidência (SAE). Ape­­sar da elevada dose de utopia, analistas ouvidos pela Gazeta do Povo acreditam que passos concretos estão sendo dados, e o principal deles seria o reaparelhamento das Forças Armadas.

O primeiro item do documento, publicado em julho no site da SAE, prega que, nos próximos 12 anos, o Brasil se tornará "ainda mais soberano". Causa estranheza já que a soberania é um conceito absoluto: ou o país tem o poder de tomar decisões internas autônomas, ou não tem.

"O problema é que sofremos constrangimento externo após alguns posicionamentos, e isso significa que não temos soberania plena", avalia o coordenador de Relações Internacionais da Uni­­Curitiba, Juliano Cortinhas. Para o especialista, isso ocorre quando o país toma uma decisão que contraria o que é esperado pelas po­­tências.

Um caso emblemático foi o acordo obtido em parceria com a Turquia para que o Irã enviasse seu urânio pouco enriquecido pa­­ra enriquecimento em outros países. Foi feito um estardalhaço pe­­los três países aliados, mas um dia depois os EUA apresentaram na ONU um projeto que ampliou as sanções econômicas ao país persa.

"Outros exemplos são tratados que o Brasil assina por pressão externa, como foi com o de não proliferação nuclear", acrescenta Cortinhas.

A conquista da soberania plena é descrita na terceira meta do projeto Brasil 2022: tornar o país "plenamente soberano, com os meios necessários à garantia da segurança de suas fronteiras terrestres, de seus mares e espaço aéreo contra as ameaças transnacionais – o crime organizado, o terrorismo, tráfico de drogas e de armas – e capaz de dissuadir qual­­quer Estado que pretenda li­­mitar nossa autodeterminação, nossa segurança econômica, nosso de­­senvolvimento".

"A única forma de atender a es­­sa meta é se armar. Até agora, não pôde haver ampliação da participação internacional sem aumento da segurança", acredita a professora da Escola de Guerra Naval e da Universidade Federal do Rio de Janeiro Sabrina Medeiros.

Para isso, o país tem investido em mais efetivo militar, assinou projetos de cooperação em submarinos com a França e deve decidir em breve pela compra de aviões-caças – mas só depois das eleições.

Sabrina, uma das analistas do projeto Brasil 2022, conta que ou­­tra ação concreta serão "jogos de guerra", agendados para outubro. O objetivo é unir os responsáveis pela reação a um ataque terrorista fictício à Baía de Guana­­bara durante a Copa das Confede­­rações, em 2013.

"O Brasil entende que o (controle) do pré-sal e de plataformas de petróleo oferece risco e o reaparelhamento das Forças Ar­­ma­­das é necessário", diz Sa­­brina.

Além de se armar, o Brasil busca aumentar seu poder de dissuasão. A professora cita a participação do governo Lula na mediação do conflito entre Colômbia e Ve­­ne­­zuela, quando o presidente brasileiro teria contribuído para evitar que o caso chegasse às cortes internacionais.

A meta mais categórica do projeto diz que, em 2022, o Brasil será membro do Conselho de Segu­­ran­­ça (CS) da ONU. O pleito não é no­­vo. Desde o fim dos anos 60, ainda no governo Médici, o Brasil pede a reestruturação do CS, considerado anacrônico por ter como membros permanentes, com poder de vetar qualquer de­­cisão, os vencedores da Se­­gunda Guerra (França, Reino Unido, EUA e Rússia) mais a Chi­­na. Para alcançar essa meta o Brasil se uniu a outros "sem-acento" (Alemanha, Japão e Índia) e juntos pressionam pela mudança.

"A noção de que países emergentes como Índia, Brasil, África do Sul e Indonésia têm um direito de maior representação internacional é amplamente aceita", diz o presidente do think-tank Intera­­merican Dialogue Peter Hakim. "Em outras palavras, a insistência do Brasil por um assento permanente não é mais vista como so­­nho ou otimismo, e sim uma meta razoável, e cada vez mais, até mesmo um direito. Mas os obstáculos para alcançá-lo ainda são muito proeminentes."

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.