| Foto: Daniel Etter para The New York Times

Mal se nota o amanhecer de domingo no clube Berghain, que há dez anos é a meca da música techno em Berlim. Perpetuamente sombria, sua principal pista de dança está sempre lotada. Os DJs tocam dia e noite nos fins de semana, que se estendem até as tardes de segunda-feira.

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Originalmente a casa de turbinas de uma usina de energia elétrica em Berlim Oriental, o salão principal do Berghain tem uma escada de aço, paredes de concreto e pé-direito de 18 metros de altura.

Os frequentadores estão vestidos para dançar, não para se exibir: as mulheres usam minivestidos pretos ou tops e shorts com mochilas, e os homens vestem blusões com capuz e jeans, ficam sem camisa ou com poucas peças além de acessórios de couro. As pessoas balançam, fazem movimentos irrequietos, saltam para todo lado, sacodem as cabeças, contraem os ombros, meneiam os quadris, espremem-se em duplas.

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Fora da pista de dança, há alcovas escuras para encontros privados. Vale tudo, menos tirar fotos.

No mês passado, comemorou-se o 25° aniversário da queda do Muro de Berlim em 1989. As energias anárquicas liberadas pelo fim do Muro definiram a cidade por uma geração, apesar de tendências recentes de expansão imobiliária elitista. As cicatrizes da divisão ainda são visíveis em lugares como a East Side Gallery, parte preservada do muro com 1,6 km ao longo do rio Spree.

Um aspecto da reunificação que ninguém poderia prever —o surgimento do techno e de uma cena clubber independente e duradoura— acabou sendo um alicerce da identidade berlinense. Embora a dance music eletrônica mais comercial esteja buscando o glamour e a fama do pop, a tradição em Berlim ainda é se divertir nas ruínas: no escuro, de forma tosca e sem regras determinadas.

"Essa cultura faz parte do DNA da cidade", disse o jornalista e DJ Sven von Thülen. "Os anos de anarquia deram tempo para a subcultura se enraizar na cultura da cidade."

Os clubes de Berlim atraem não só muitos berlinenses e turistas, mas um influxo de artistas, músicos e DJs expatriados.

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Berlim deixou de ser regida apenas pelo techno. A house music, estilo predominante em clubes internacionais, também faz sucesso em muitas pistas. Mas o tipo de house music mais palatável que tende para o pop ainda não conquistou Berlim.

"Berlim curte suas próprias criações", afirmou a DJ Ellen Allien. "O som daqui é mais pesado que o de outros lugares."

O techno surgido durante a reunificação de Berlim resultou de circunstâncias singulares: música nova (e a tecnologia para fazê-la e divulgá-la), espaços disponíveis e drogas emergentes como o ecstasy.

"Gorbatchov é o culpado pelo techno", disse Dimitri Hegemann, que fundou o pioneiro clube Tresor. "O modo como ele liderou as reformas que levaram ao fim do comunismo no Leste Europeu e à queda do muro deu a luz verde. Havia otimismo, euforia. Tudo era criativo, qualquer coisa era possível e nós podíamos fazer o que quiséssemos. Jovens do Leste Europeu e da Europa Ocidental foram para Berlim para ver o que estava acontecendo e, por algum tempo, não havia autoridades para perseguir os clubes ilegais."

Os espaços foram cruciais. No perímetro estabelecido pelo muro para sua infame faixa da morte, havia edifícios abandonados à espera de quem quisesse promover festas.

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O techno chegou a Berlim como um produto importado. Tratava-se do techno de produtores de Detroit como Juan Atkins e Derrick May. O techno de Detroit refletia parte dos sons e batidas eletrônicos robóticos introduzidos na década de 1970 por grupos alemães como Kraftwerk, por meio da house music e do hip-hop americanos.

Outro fator importante que moldou a cultura clubber de Berlim foi o fim dos toques de recolher. Isso ajudou a criar o hábito local de noitadas que se estendem até o dia seguinte. Poucos frequentadores chegam aos clubes antes da 1 hora da madrugada.

A cidade se distingue de outros centros conhecidos pela vida noturna: Berlim ainda dá mais valor à música do que à mera exposição pessoal. Há histórias de mulheres sendo barradas na porta de um clube por usarem salto alto, uma "prova" de que sua verdadeira intenção não era dançar.

No decorrer dos anos, clubes ilícitos foram substituídos por lugares com alvarás de funcionamento, controles de segurança e programações amplamente divulgadas.

Inevitavelmente, o techno rude de Berlim enfrenta a concorrência de estilos populares em outros lugares. É possível que algum dia os clubes bem localizados junto ao rio se tornem sedes de corporações ou apartamentos com vistas privilegiadas. Isso, porém, não vai acontecer tão cedo. Uma geração após o techno tomar o controle geral, Berlim continua dançando.

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