Projeto industrial em construção em Pune, na Índia; alguns economistas preveem que crescimento do país pode superar o da China em 2016| Foto: Atul Loke/The New York Times

A economia da China está desacelerando. O Brasil passa por dificuldades por causa da forte queda no valor das commodities. A Rússia, que enfrenta sanções ocidentais e a perda de receitas provenientes do petróleo, caminha para uma recessão.

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Enquanto outros grandes mercados em desenvolvimento capengam, a Índia se revela como uma das poucas esperanças para o crescimento global. O mercado acionário e a rupia estão em alta. Várias empresas multinacionais pretendem se instalar na Índia ou ampliar suas operações no país. O crescimento da economia indiana, por muito tempo retardatário, agora acompanha o ritmo chinês.

Premiê da Índia, Narendra Modi (à dir.), tem usado medidas provisórias para realizar reformas econômicas 
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A Índia está aproveitando o sucesso das políticas pró-mercado instituídas pelo primeiro-ministro Narendra Modi nos seus primeiros oito meses de governo. As fábricas já não precisam parar uma vez por ano para que fiscais do governo inspecionem as caldeiras. As regras para investimentos estrangeiros foram abrandadas nos setores imobiliário, de segurança e de defesa. Uma reforma tributária está em andamento.

O otimismo renovado dos investidores estrangeiros está estimulando uma expansão da atividade econômica em cidades como Tiruppur, polo de tecelagem e confecção.

A permanência desse salto indiano depende da capacidade de Modi de aprofundar as reformas no país. Para isso, ele deve enfrentar a pobreza persistente e a corrupção que assola a economia. Sem apoio político suficiente para rever com rapidez a legislação, ele recorreu a medidas provisórias para promover mudanças, ao mesmo tempo em que busca domar os deficit e ampliar os investimentos, dando incentivos à indústria e construindo modernos portos e rodovias.

A Índia também se beneficia de ventos econômicos favoráveis, os mesmos que vêm causando estragos na Rússia e na Venezuela. A dependência do petróleo importado há décadas arruína o país.

Em meados do ano passado, o petróleo custava US$ 100 bilhões por ano à Índia, ou cerca de 5% do seu PIB. Agora, o preço do petróleo caiu pela metade, fazendo com que a inflação e os gastos com transportes despencassem. O subsídio aos combustíveis pôde ser reduzido, o que ajudou a conter o deficit orçamentário. “Basicamente, tivemos um presente de US$ 50 bilhões para a economia”, disse Raghuram Rajan, do Banco Central da Índia.

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O país também se beneficia dos problemas de outros mercados emergentes. Na China, as investigações contra multinacionais, as tensões com países vizinhos e o aumento nos salários industriais estão levando muitas empresas a procurarem outros lugares que possam oferecer grandes contingentes de mão de obra.

Mary Barra, executiva-chefe da General Motors, viajou em setembro passado a Pune, no oeste da Índia, para supervisionar o início das exportações da Chevrolet de lá para o Chile. Ela aproveitou para avaliar oportunidades de expansão no mercado automobilístico indiano, que, segundo estimativas da empresa, passará a ser um dos três maiores do mundo até 2020.

Diante dessa maré positiva, Modi começou a enfrentar outros desafios econômicos.

Ele quer expandir o papel da iniciativa privada na mineração de carvão, um setor dominado pelo governo, e acelerar a construção de rodovias e outras obras de infraestrutura. Espera também implantar um imposto nacional para transações interestaduais, substituindo os atuais impostos estaduais.

Na visita que fez em janeiro a Nova Déli, o presidente dos EUA, Barack Obama, destacou os obstáculos para a atuação empresarial na Índia. “Ainda há muitas barreiras —muitas exigências, restrições burocráticas— que dificultam abrir uma empresa, ou exportar, importar, fechar um contrato ou cumprir sua parte num contrato.”

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Outros desafios incluem um dos piores índices mundiais de poluição atmosférica e um histórico de disputas judiciais, muitas delas envolvendo posse fundiária, que podem retardar projetos. Um centro de manutenção de aeronaves da Boeing só agora está prestes a ser inaugurado, após dois anos de atraso nas obras, por causa de protesto de moradores por maiores indenizações por uma faixa de 180 metros de terreno, o que afinal conseguiram.

Interessados em construir grandes fábricas se preocupam com as rigorosas leis trabalhistas, como a que dá garantia de emprego vitalício para trabalhadores desqualificados ou semiqualificados com pelo menos dois anos de experiência.

A Nokia e a Foxconn Technology, de Taiwan, suspenderam no ano passado a sua produção numa fábrica de celulares no sul da Índia. A Nokia está envolvida em uma disputa tributária de US$ 365 milhões e enfrenta uma redução na demanda por modelos de celulares mais antigos, do tipo que a fábrica produzia.

Em 27 de janeiro, centenas de operários da Foxconn realizaram uma greve de fome em meio a uma disputa sobre verbas rescisórias. Rohini, 25, que ganhava US$ 220 por mês, disse que ficou arrasada ao saber que perderia seu emprego. “Sei que, pela lei, tenho direito a ter emprego até os 58 anos”, disse Rohini, que, como muitas pessoas no sudeste da Índia, usa apenas um nome.

Essas proteções jurídicas do emprego estão começando a ruir. As empresas passaram a terceirizar a mão de obra, burlando as garantias trabalhistas.

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Para Modi, o desafio mais imediato é no âmbito político.

Embora o seu partido domine a Câmara Baixa do Parlamento, o Senado está dividido e retarda a votação de medidas que garantiriam reformas de longo prazo. Assim, Modi se valeu de medidas provisórias que expiram automaticamente no final de abril. Elas podem ser renovadas, mas não indefinidamente.

O governo tem sido criticado por rever a fórmula de cálculo do PIB. A mudança alinhou a Índia às práticas da maioria das nações desenvolvidas, resultando em um acentuado aumento do crescimento registrado. Mas os críticos viram a decisão como uma manobra política de Modi para ganhar popularidade.

Assessores do primeiro-ministro afirmam que mudanças significativas foram iniciadas e que os críticos são impacientes demais.

“Há muitas questões herdadas que tivemos de resolver”, disse o ministro indiano das Finanças, Jayant Sinha, citando como exemplos o deficit público e a inflação persistente. “Vocês precisam nos dar um tempinho para que todos os negócios sintam a diferença.”

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