A maioria dos habitantes de El Bordo são cidadãos mexicanos deportados dos EUA| Foto: Adriana Zehbrauskas para The New York Times

Sob o sol brilhante do meio-dia, no fétido canal de drenagem que é o rio Tijuana, Valentin Gomez enfiou uma agulha hipodérmica de metanfetamina sob a clavícula de um amigo. Os olhos do homem reviraram em êxtase, ou alívio. Difícil dizer qual.

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É assim que Gomez passa seus dias, junto com centenas de outros que vivem à beira do canal -- um recanto de viciados em drogas e deportados, ao sul da fronteira entre México e Estados Unidos.

A área é conhecida como "El Bordo", a versão em espanglês de "fronteira". Para muitos que vivem aqui, o lugar pode ser o limbo.

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"Minha cidade não, não há nada lá para mim", disse Gomez, de 27 anos, que é de Puebla, perto da Cidade do México, mas viveu metade da vida na Califórnia antes de ser preso e deportado há um ano, depois que a polícia o pegou bebendo em público. "Não tenho nada aqui também, mas tomo minha droga e espero conseguir voltar para o outro lado."

Tijuana se promove como uma cidade em ascensão, redimindo-se de anos de violência das drogas e do declínio do turismo. É possível comprar cerveja artesanal na Avenida Revolución. Jovens empreendedores da área de tecnologia tomaram conta da velha estação de ônibus, transformando-a em um centro de novos negócios. A inauguração de um restaurante aqui é tão interessante quanto o nascer do sol.

Grande parte desse renascimento atende à população jovem e afluente da cidade , mas Tijuana continua a ser uma passagem para os oprimidos que rumam para os EUA, ou foram expulsos de lá. Entre 100 e 150 deportados passam pelo portão todos os dias, e chegam a uma cidade que mal é capaz de absorvê-los.

O número subiu nos últimos anos com as políticas do presidente americano George W. Bush e, mais recentemente, do presidente Obama, que deportou mais de dois milhões de pessoas desde que assumiu o cargo, mais até do que seu antecessor. Aproximadamente um terço dos deportados foi enviado para Tijuana.

Muitos tocam a vida, mas os mais desesperados -- viciados, alcoólatras, doentes mentais, criminosos -- acabam em El Bordo, mais cedo ou mais tarde.

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O número de habitantes vem crescendo nos últimos anos. Um estudo do fim de 2013 feito por um centro de pesquisa, o Colegio de la Frontera Norte, estimou que a população de El Bordo esteja entre 700 e 1.200 pessoas, e cerca de 90 por cento delas disseram em outra pesquisa que haviam sido deportadas dos Estados Unidos, principalmente nos últimos quatro anos. Cerca de 70 por cento disseram consumir drogas ilícitas.

O novo prefeito de Tijuana, Jorge Astiazarán Orcí, prometeu limpar El Bordo e remover seus habitantes, dizendo que a estação das chuvas que se aproxima poderia causar inundações no canal.

Os abrigos para migrantes e centros de reabilitação de drogas estão superlotados. Muitos deportados permanecem em Tijuana por meses, se não anos, na esperança de encontrar uma forma de cruzar a fronteira novamente.

Eles pedem esmolas, lavam para-brisas e às vezes roubam, e compram metanfetamina e heroína, que custam 50 pesos por dose, ou quase US$4.

A polícia muitas vezes ateia fogo aos seus pertences, exigindo dinheiro e levando-os para a cadeia por não portarem identificação, disseram vários moradores. Um porta-voz da polícia negou que oficiais tenham conduzido tais ataques, mas reconheceu que muitas prisões são efetuadas por roubo, drogas e outros crimes.

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Miguel Marshall, de 28 anos, capitalista de risco, disse estar trabalhando em um plano que iria transformar as margens do canal em jardins e parques.

Mas Juan Rudio Ramirez, de 42 anos, tomando alguns goles de Tonayan, um destilado de cana de açúcar mais barato, disse que seria difícil manter a ele e a outros afastados do canal. Os abrigos cobram até US$2 por noite, observou.

"Minha casa é aqui", disse ele.