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Atordoados pelo sucesso dos partidos populistas de protesto nas recentes eleições parlamentares, os líderes da União Europeia estão se esforçando para reconquistar a confiança dos eleitores com a promessa de trazer a UE para mais perto das pessoas. Deixar de aplacar a ira dos eleitores poderia significar uma erosão da união, ou mesmo sua destruição, em questão de anos.

Em alguns países, o voto contra uma Europa integrada foi profundo. O Partido pela Independência do Reino Unido, de linha antieuropeia, obteve 27% dos votos dos britânicos. Na França, a ultradireitista Frente Nacional, de Marine Le Pen, ficou em primeiro com 25%, resultado qualificado como "terremoto" por Manuel Valls, o primeiro-ministro socialista.

Não há nenhum perigo imediato para as instituições que regem a união, uma vez que dois terços dos votos foram para os partidos pró-europeus. Além disso, na Alemanha, a potência econômica do bloco de 28 nações, a chanceler Angela Merkel e seus aliados ainda dispõem de uma maioria confortável. Mas, se a ameaça populista não for desarmada, há maus presságios.

Há três razões principais para a ira dos eleitores: insatisfação com os líderes políticos —vistos como insensíveis e arrogantes—, frustração por causa da lenta recuperação econômica e o crescente medo em relação aos estrangeiros. Incentivados por demagogos, cidadãos culpam os imigrantes de regiões mais pobres por muitos de seus problemas.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse que parte do problema é que a União Europeia se tornou "mandona demais, interferente demais". François Hollande, o presidente francês, acredita que a união se tornou "remota demais" para o povo.

Diferentes propostas foram sugeridas para uma reforma da instituição que governa a Europa.

Como os britânicos não usam o euro, o seu envolvimento com a união se baseia em acordos de livre comércio. Cameron exige que a união seja reduzida e ameaça promover um referendo pelo qual o Reino Unido poderia deixar a UE —apesar das estimativas que apontam que 3,5 milhões de empregos no país estão ligados ao comércio com a Europa.

Agora Cameron quer impedir o candidato vencedor das eleições, Jean-Claude Juncker, de assumir a Presidência da Comissão Europeia. Juncker, ex-primeiro-ministro luxemburguês de centro-direita, é visto como um "federalista" que quer mais poderes para Bruxelas. Juncker já disse que "a Europa não deve permitir que seja chantageada", reforçando a convicção de que o Reino Unido está mesmo de saída.

A França, por outro lado, é considerada um elemento central da união. Ao culpar o sistema "complexo" da UE pelo mau resultado do seu Partido Socialista, que recebeu apenas 14% dos votos, Hollande parecia fugir da responsabilidade por seus próprios fracassos. "A solução para os problemas que os franceses enfrentam tem de ser encontrada dentro da França", disse Janis Emmanouilidis, analista do Centro de Política Europeia, em Bruxelas. "Eu não vejo como Hollande pode de repente se tornar um presidente forte. Berlim está muito preocupada com a fraqueza da França."

Nos últimos anos, uma França economicamente enferma colocou em risco a liderança conjunta franco-alemã, que é crucial para o sindicato. "Esse desequilíbrio já criou problemas", disse Emmanouilidis. No passado, a Alemanha e a França adotaram compromissos em questões-chave, como a criação de um mercado único ou uma política agrícola mais eficiente, permitindo um acordo mais amplo dentro da união. Hollande e outros líderes, inclusive o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, querem agora acabar com a austeridade e investir cerca de US$ 200 bilhões no estímulo ao crescimento e à geração de empregos. Merkel é fortemente contrária a quaisquer novos programas de gastos.

Especialistas como Emmanouilidis acreditam que a união vai ficar com a sua política de redução de deficits. Dos 751 assentos no Parlamento Europeu, mais de 400 serão ocupados por candidatos do Partido Popular, de centro-direita, e pelos sociais-democratas, de centro-esquerda. Há rumores de uma "grande coalizão" mais formal entre os dois principais blocos políticos, a fim de enfrentar os ataques da extrema direita. "Acho que vamos ver mais dessas coalizões entre todos aqueles que se consideram os principais partidos europeus", disse Emmanouilidis, incluindo os Liberais e os Verdes.

Esses grupos poderiam trabalhar juntos para promover uma oferta de energia mais eficiente, o que é importante para a economia. Também poderia haver um endurecimento das regras de imigração, para acalmar os temores dos eleitores e enfraquecer o apoio aos populistas.

Não se pode esperar qualquer contribuição dos grupos antieuropeus, uma mistura de populistas de esquerda e de direita, incluindo alguns abertamente racistas e definitivamente fascistas. Le Pen, que encabeçou o sucesso da direita na França, está tentando criar um grupo parlamentar que reflita o seu euroceticismo. Ela descreve a UE como um "sistema totalitário", e quer destruí-la. Mesmo que consiga montar uma bancada, ela não terá muita influência. Os grupos minoritários não são capazes de bloquear a máquina parlamentar europeia.

Os populistas poderiam, sem querer, impulsionar os políticos tradicionais a agirem no sentido de criar uma União Europeia menos interferente e menos burocrática para o seu eleitorado de 400 milhões de pessoas, o segundo maior do mundo, inferior apenas ao da Índia. No fim das contas, isso pode ser uma coisa boa para o segundo maior experimento democrático do mundo.

Erhard Stackl foi editor-chefe do "Der Standard", de Viena. Seu novo livro, "Attention", uma antologia de jornalismo literário, será lançado em outubro.

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