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Grupos terroristas difusos, como um de Benghazi, são hostis ao Ocidente | Esam Omran Al-Fetori/Reuters
Grupos terroristas difusos, como um de Benghazi, são hostis ao Ocidente| Foto: Esam Omran Al-Fetori/Reuters
  • Mohammed Ali al Zahawi, líder da Ansar al Shariah, que participou do ataque a um consulado dos Estados Unidos na Líbia

O grupo militante Ansar al Shariah de Benghazi está sob ataque de um ex-general renegado que tenta livrar a Líbia do islamismo político. Mas, em resposta, a milícia está apontando diretamente para Washington. "Fazemos a América lembrar das derrotas no Afeganistão, no Iraque e na Somália", disse recentemente Mohammed Ali al Zahawi, líder do grupo, alertando que os Estados Unidos enfrentariam algo "muito pior" caso tentassem intervir na Líbia.

Encurralado em uma batalha local por território, mas atento ao Ocidente, Zahawi é, em muitos aspectos, um perfeito exemplo da crescente ameaça terrorista de "extremistas e afiliados da Al Qaeda descentralizados", que o presidente Barack Obama descreveu recentemente.

A Ansar al Shariah de Benghazi, conhecida por seu papel no ataque de 2012 que matou o embaixador americano J. Christopher Stevens, é um dos milhares de grupos militantes independentes que surgiram em territórios do Oriente Médio e da África que estão sob governos fracos ou foram devastados por guerras —lugares como Líbia, Mali, Somália, norte da Nigéria, Sinai egípcio, Iêmen, Iraque e a maior parte da Síria.

A maioria tem objetivos locais e está preocupada em expandir seu território, derrubar regimes autocráticos ou defender uma visão do islã contra supostas ameaças estrangeiras. Mas todos os grupos compartilham uma admiração pela militância puritana que caracteriza a Al Qaeda. Eles treinam ou doutrinam combatentes que circulam entre as milícias, frentes de batalha e mesmo continentes. E veem malfeitos americanos por todo lado.

Apenas na Síria, mais de 5 mil milícias islâmicas independentes surgiram nos últimos quatro anos. Algumas, como o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, se inspiraram na Al Qaeda, mas depois romperam com o grupo, adotando uma pauta ao mesmo tempo mais local e mais implacável. Várias adotam punições medievais, como a decapitação.

Outras operam como grupos criminosos, caso de Mokhtar Bel Mokhtar, o renegado militante islâmico do Norte da África conhecido por suas lucrativas atividades de sequestro e contrabando de cigarros. Na Nigéria, o desenfreado culto islâmico Boko Haram matou milhares de civis antes de sequestrar 250 estudantes do sexo feminino. E grupos militantes tão diferentes e distantes como o Al Shabab, na Somália, e a "filial" argelina da Al Qaeda podem formar alianças táticas e fugazes e intercambiar armas ou militantes.

A Al Qaeda no Magreb Islâmico, expulsa no ano passado do norte de Mali por uma força liderada pela França, ainda tem dezenas de milhões de dólares nos seus cofres, ou talvez até mais, graças aos resgates obtidos em troca da libertação de europeus sequestrados na vasta e muitas vezes desgovernada região do Sahel, no norte e oeste da África.

Na perversa lógica do terrorismo, mesmo uma ofensiva internacional pode trazer benefícios em termos de propaganda. No caso da milícia Boko Haram, qualquer tentativa ocidental de ajudar a salvar as garotas poderia desencadear uma represália. "Independentemente de como isso terminar, a Boko Haram certamente será capaz de melhorar sua imagem", disse um funcionário do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

De certa forma, dizem especialistas, a proliferação de grupos militantes inspirados na Al Qaeda está revertendo a fórmula de Osama bin Laden, que se concentrava nos patrocinadores globais considerados capazes de amparar os governos locais. "Estamos vendo movimentos globais se tornarem locais, buscando ancoragem e projeção local", disse Mathieu Guidère, da Universidade de Toulouse, na França. Essa difusa miscelânea de grupos agora representa "a maior ameaça direta" aos EUA e aos seus interesses, segundo Obama.

O presidente dos EUA prometeu "desenvolver uma estratégia que responda a essa ameaça difusa", mas ele também alertou contra "enviar forças que deixem nossos militares desguarnecidos ou despertem ressentimentos locais". Como responder a uma ameaça específica local sem consequências indesejadas é uma pergunta ainda sem resposta, disse Frederic Wehrey, do Fundo Carnegie para a Paz Internacional.

"Se esses grupos estão realmente focados numa pauta local, isso alcança o limiar necessário para uma ação?", perguntou o especialista. "Se entrarmos nesses países focados exclusivamente em segurança e começarmos a treinar ou trabalhar com as forças do governo local, então isso se transformará em uma profecia autorrealizável, e esses grupos locais se tornarão ainda mais antiamericanos."

O grupo rebelde sírio Ahrar al Sham, uma das maiores forças de combate criadas durante a revolta contra o ditador Bashar al Assad, exemplifica o desafio pela frente. Seu objetivo é substituir Assad por alguma forma de governo islâmico, não travar uma jihad global contra o Ocidente.

Mas, ao mesmo tempo, o grupo trabalha lado a lado no campo de batalha com a Frente al Nusra, afiliada da Al Qaeda na Síria. Quando um emissário enviado pelo líder da Al Qaeda, Ayman al Zawahiri, foi morto na Síria, ele foi velado como membro do Ahrar al Sham, não da Al Qaeda, o que mostra como são nebulosas as linhas que separam os grupos.

Agora, alguns alertam que a proliferação de grupos radicais pode ajudar a reavivar a Al Qaeda original. Bruce Riedel, veterano da Agência Central de Inteligência (CIA), disse que, "embora não haja dúvidas de que o núcleo da Al Qaeda no Paquistão tenha sido reduzido, há muitas razões para acreditar que ele irá se regenerar muito rapidamente assim que a pressão sobre ele for aliviada —quando os drones pararem de voar".

Colaboraram Rukmini Callimachi e Ben Hubbard

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