Kenneth Rogoff já havia alertado sobre uma potencial crise financeira na China.

Rogoff, professor de Economia na Universidade Harvard, previu com precisão a crise da zona do euro e diz há anos, para quem quiser ouvir, que a China é a próxima grande ameaça à economia global.Mais uma vez, parece que ele está certo.

“Em economia, as coisas demoram mais que o esperado para acontecer, e então acontecem mais rápido do que foi previsto”, afirmou Rogoff recentemente, repetindo a frase favorita do economista alemão Rudi Dornbusch.

Rogoff, que é um grande mestre de xadrez, dedicou sua carreira ao estudo de crises financeiras.Após a de 2008, foi coautor de “Oito Séculos de Delírios Financeiros: Desta Vez é Diferente”, livro considerado seminal.

Toda crise, argumentam ele e a coautora, Carmen M. Reinhart, decorre do mesmo problema:uma grande dívida.

Para compreender as recentes maquinações selvagens do mercado acionário ao redor do mundo, é preciso apenas examinar a economia da China e sua espantosa dívida —além de sua capacidade de infectar o resto do mundo.

Para professor, crises financeiras decorrem de grandes dívidas

“A China é a clássica história do ‘dessa vez é diferente’”, disse Rogoff, listando os raciocínios por meio dos quais o país convenceu outros e a si mesmo de que é possível ter uma enorme dívida e que, de alguma forma, estaria imune às leis da gravidade econômica.Ele citou o controle do governo sobre os mercados, os milhões de trabalhadores migrando para cidades e a poupança do país, de cerca de 30% do rendimento disponível, como apenas algumas das razões pelas quais se acreditava que a China seria impermeável a uma grave recessão.

“A economia chinesa é muito vulnerável. Há muitas dívidas”, afirmou Rogoff.

O montante dessa dívida permanece uma questão sem resposta, dada a opacidade do mercado chinês.A carga da dívida do país chegou a US$ 28 trilhões em meados de 2014, vindo de US$ 7 trilhões em 2007, de acordo com um relatório publicado neste ano pela consultoria McKinsey & Company, China.

“Chegando a 282% do PIB, a dívida chinesa como porcentagem do PIB, embora gerenciável, é maior do que a dos Estados Unidos ou da Alemanha”, diz o estudo da McKinsey.”Vários fatores são preocupantes:metade dos empréstimos está ligada diretamente ou indiretamente ao mercado imobiliário chinês, há contas bancárias não regulamentadas para quase metade dos novos empréstimos e a dívida de muitos governos locais é provavelmente insustentável.”

A questão é: o quanto a economia chinesa influencia na do resto do mundo?Isso é exatamente o que os investidores tentam determinar, agora que o governo da China desvalorizou sua moeda e tentou — sem sucesso —estabilizar o mercado de ações em baixa.A queda se agravou, em parte, graças à dívida de especuladores chineses que tomaram dinheiro emprestado para comprar ações e que agora estão sendo forçados a vender, criando um círculo vicioso.

“Como tudo isso reverbera nos mercados emergentes?”,indagou Rogoff ao discutir o efeito da desaceleração da China para produtores de commodities como o Brasil, cuja economia está em recessão.”Veja a Rússia.É incrível que eles ainda não tiveram uma crise financeira.”

Rogoff não é o primeiro a identificar a China como um risco potencial.No início deste ano, Henry M. Paulson Jr, ex-secretário de Tesouro dos Estados Unidos, disse: “Francamente, não é uma questão de se, mas de quando, o sistema financeiro da China terá que passar por um acerto de contas e enfrentar uma onda de perda de crédito e reestruturações da dívida”. O gestor de hedge funds (fundos de investimento de alto risco) James Chanos avisa sobre a China há anos e recentemente declarou: “Tudo o que você imagina, é pior”.

Há, naturalmente, razões políticas consideráveis para que o país convença o mundo e seus próprios cidadãos de que pode gerenciar as convulsões de seu mercado financeiro e sua economia em desaceleração.”O colapso financeiro conduz ao colapso social, o que leva ao colapso político. Esse é o medo”, disse Rogoff.

Ele apontou para outro fator que contribuiu para os problemas financeiros da China.

“A crise em Tianjin entrou no meio”, afirmou, referindo-se à explosão em 12 de agosto na cidade portuária que matou mais de cem pessoas.Rogoff disse que o acontecimento minou a credibilidade do governo chinês porque muitas perguntas sobre o acidente permaneceram sem resposta.

Então, será que Rogoff acredita que a China ruma para uma “forte desaceleração” que conduzirá a uma recessão global?

Ele acredita que as últimas semanas aumentaram as perspectivas de uma crise significativa. No entanto, com seus trilhões de dólares em reservas, ele acha que o país pode ter ferramentas suficientes para evitar que uma calamidade se espalhe por todo o globo — pelo menos por enquanto. “Se tivesse que apostar, diria que o país sai dessa”, disse.

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