Curitiba – A crise diplomática que colocou Brasil e Argentina contra o Paraguai nas últimas duas semanas está longe de um desfecho. Para analistas brasileiros, os Estados Unidos devem se instalar no território paraguaio com facilidade e marcar presença na região por tempo indeterminado, prorrogando o conflito. O quadro que Assunção define como uma parceria dificilmente deixará de ser interpretado como uma ameaça pelos governos dos países vizinhos, avaliam os observadores atentos à política internacional.

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Dentro de um ano, Argentina, Brasil e Chile passarão a conviver com exercícios militares a poucos quilômetros de suas fronteiras. Os aviões das Forças Armadas dos Estados Unidos e de países aliados vão executar uma série manobras no Paraguai, que tende a funcionar como uma demonstração de força para a região. Sete sessões de treinamento militar já foram autorizadas por Assunção. Pelo menos 400 fuzileiros norte-americanos devem permanecer no território paraguaio até o fim de 2006.

"A alegação de que os Estados Unidos querem prestar atendimento de saúde aos paraguaios só acoberta a situação. Sabemos que a intenção do governo norte-americano é engrossar sua presença no continente", afirma o coronel-aviador da Reserva da Força Aérea Brasileira Manuel Cambeses Júnior, membro do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro. A intenção de Washington seria estender o cordão de domínio existente na região andina para o sul, considera Cambeses.

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A política de prevenção ao terrorismo não é o único motivo apontado pelos analistas para a presença militar norte-americana no Paraguai. Eles consideram que o fortalecimento do líder cocaleiro e deputado Evo Morales, na Bolívia, por exemplo, inspira precauções contra a liberação da produção de folhas de coca e a conseqüente expansão do tráfico internacional.

"A possibilidade de formação de mais um governo de esquerda na América do Sul incomoda os Estados Unidos", analisa o estrategista paranaense Geraldo Cavagnari, que integra o Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em sua avaliação, o objetivo é limitar os desentendimentos ao confronto retórico entre o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Motivos extras

"A hegemonia dos EUA no hemisfério ocidental é inegável. Qualquer situação que desestabilize as questões de interesse do país fica sujeita a interferências", acrescenta. A influência de Chávez na América do Sul e a aproximação entre a Comunidade Andina de Nações (Bolívia, Equador, Colômbia, Peru e Venezuela) e o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) também seriam ameaças. Uma base no Paraguai daria ainda maior visibilidade sobre a região amazônica aos EUA.

A suspensão da instalação de uma base norte-americana no Paraguai depende mais de Washington do que de Assunção, considera o professor de geopolítica Fernando Sampaio, pesquisador da Escola Superior de Geopolítica e Estratégia, de Porto Alegre. Em sua avaliação, se a criação de uma base no Paraguai for considerada uma questão secundária pelos Estados Unidos, pode ser adiada, diante do déficit que levou Bush a aprovar o fechamento de 22 bases militares e a reorganização de outras 33 há uma semana. A intenção é economizar US$ 4,2 bilhões ao ano.

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