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O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, em visita ao México. Ele será o anfitrião de encontro do Grupo de Puebla em Buenos Aires
O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, em visita ao México. Ele será o anfitrião de encontro do Grupo de Puebla em Buenos Aires| Foto: Pedro Pardo / AFP

Líderes de esquerda latino-americanos estarão reunidos em Buenos Aires entre sexta-feira e domingo (8 a 10) para a segunda reunião do Grupo de Puebla, que terá como anfitrião o presidente eleito da Argentina, o peronista Alberto Fernández.

O primeiro encontro do grupo foi em Puebla, no México, em julho deste ano. Segundo o seu documento de fundação, o objetivo do "Grupo Progressista Latino-Americano" é servir como um "espaço de reflexão e intercâmbio político" na América Latina, para "analisar desafios comuns e desenhar iniciativas conjuntas, em busca do desenvolvimento integral de nossos povos".

A nova aliança "progressista" teria surgido como uma necessidade de conter o avanço da "nova onda de governos neoliberais" na região.

A tentativa de rearticular as forças de esquerda na região parece ter uma nova roupagem, com uma abordagem mais moderada, na tentativa de se afastar do desgastado Foro de São Paulo. Sai o caráter "anti-imperialista" e socialista, presente no Foro de São Paulo, entra o termo "progressista".

O grupo é formado por cerca de 30 líderes políticos de 12 países, de forma individual, e não por partidos ou organizações. Não há representantes de Cuba, da Venezuela ou da Bolívia. Do Brasil, participam Fernando Haddad, Aloizio Mercadante e os ex-presidentes Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva.

Novo Foro de São Paulo?

A articulação para a criação do Foro de São Paulo foi feita por partidos de esquerda da América Latina que não estavam no poder naquele momento (com exceção do Partido Comunista de Cuba); enquanto o Grupo de Puebla foi formado por lideranças que estão ou estiveram no poder, aponta Vinicius Vieira, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

"Vejo aí uma diferença relevante. O Grupo de Puebla tem, potencialmente, mais força, e ao mesmo tempo, mais moderação", opina Vieira.

Para o professor, a estratégia do grupo de se afastar de alguns rótulos da esquerda latino-americana e se identificar como "progressista", além de reforçar a sua oposição ao "neoliberalismo", tem o objetivo de "conquistar corações e mentes".

Vieira destaca que os termos "direita" e "neoliberal" são rejeitados por muitas pessoas em boa parte dos países da região. "Especialmente na Argentina, dizer que tal político é neoliberal, direitista ou conservador soa como um xingamento. Isso ajuda a criar uma imagem negativa". Ao mesmo tempo, o grupo se afasta do rótulo "esquerda", que nos últimos anos passou a ser associado à corrupção, má administração, recessão econômica e a figuras como Hugo Chávez e Nicolás Maduro. "O termo 'progressista' dá um verniz mais de centro. Ou seja, eles procuram vender a sua agenda mas sem se declarar como esquerda".

"O caráter do grupo é claramente de contraponto a essa onda liberal da América Latina - que não parece ser uma onda tão forte. Mas, ainda assim, a esquerda está se articulando de modo a galgar novos espaços", resume Vieria.

Crise da Venezuela

Em relação ao regime do ditador Nicolás Maduro na Venezuela, o Grupo de Puebla se contrapõe ao Grupo de Lima - formado em 2017 por chanceleres de países das Américas, inclusive Brasil, para abordar a crise venezuelana e buscar soluções para a restauração da democracia no país.

"Um grande objetivo do grupo é fazer uma aliança entre esses líderes para se contrapor ao discurso mais conservador e especialmente aos contrários à Venezuela e aos regimes mais à esquerda da América Latina", diz a cientista política Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais na ESPM.

O Grupo de Puebla emitiu um comunicado, em 11 de setembro, rechaçando "qualquer tentativa de uso da força que viole o princípio de solução pacífica de controvérsias e que permita uma intervenção militar na Venezuela por parte de forças estrangeiras, incluindo a invocação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), instrumento arcaico para intervenções militares em países da América Latina durante a Guerra Fria".

O Tiar é uma espécie de Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) do continente americano. Os países membros do tratado de defesa mútua aprovaram em setembro a ativação do Tiar para o caso da Venezuela.

"Não é que eles estejam apoiando o regime de Maduro, mas também não apoiam a forma como o Grupo de Lima tem tratado a questão; impondo uma solução. A proposta [do Grupo de Puebla] é construir e negociar uma solução entre todas as partes", afirma Holzhacker.

O grupo não deve ser visto como um grupo de ação, na opinião da pesquisadora, mas um "grupo de concertação entre líderes para formar uma visão e apoiar uma forma política". Ela lembrou que a esquerda latino-americana historicamente tem posição de atuação conjunta e de debates, e que a reunião de lideranças, e não de organizações, é algo novo na região. "Não é o que tradicionalmente se fazia ao longo da história", disse.

Os participantes convocados para a reunião em Buenos Aires incluem os ex-presidentes Dilma Rousseff (Brasil), Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai), José Mujica (Uruguai), Ernesto Samper (Colômbia), Leonel Fernández (República Dominicana) e o ex-mandatário espanhol José Luis Rodríguez Zapatero.

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