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eleições irã
Mulher iraniana vota em uma seção eleitoral durante a eleição presidencial em Teerã, Irã, 18 de junho de 2021.| Foto: ABEDIN TAHERKENAREH/Agência EFE/Gazeta do Povo

As eleições presidenciais no Irã, realizadas nesta sexta-feira (18), devem promover não só uma mudança no comando do governo iraniano, como também uma provável guinada ao radicalismo religioso que pode aprofundar as diferenças existente entre o país e o Ocidente, além de aumentar a desconfiança no campo nuclear.

O encontro com as urnas coincide com um momento delicado para o Irã, tanto internacionalmente quanto internamente, com o descontentamento popular aumentando, de modo que há muitas questões em jogo no pleito.

Confira cinco pontos-chaves para as eleições no Irã:

1. Ascenção de radicais

O cenário político mudou radicalmente em comparação com quatro anos atrás, quando o moderado Hassan Rohani foi reeleito presidente. Desta vez ele não pode concorrer, pois já cumpriu dois mandatos consecutivos.

O bloco radical do país dominou amplamente as eleições parlamentares de 2020, que foram vistas como uma prévia do que acontecerá no pleito presidencial. Além disso, candidatos reformistas ou moderados com algumas possibilidades foram vetados pelo Conselho dos Guardiães.

Até o início desta semana, sete candidatos ainda participavam da corrida eleitoral, porém, como costuma acontecer no Irã, três deles anunciaram sua desistência para apoiar concorrentes mais bem posicionados.

Três dos quatro candidatos que disputam a presidência são adeptos da linha dura, incluindo o clérigo e chefe do Judiciário, Ebrahim Raisi, que é considerado o favorito. E o único moderado que restou, o até recentemente governador do Banco Central Abdolnaser Hemati, tem um perfil menos popular.

2. Baixo número de votantes

De acordo com várias pesquisas realizadas por agências semioficiais, o comparecimento de eleitores às urnas deve variar de 38% a 45%, muito abaixo dos padrões da teocracia iraniana, que sempre procura se legitimar através de uma votação maciça.

Além disso, a baixa participação de eleitores normalmente favorece o bloco religioso mais radical do país, pois seus eleitores apoiam o sistema teocrático e consideram o voto como uma espécie de dever religioso, algo que não ocorre entre os setores mais liberais.

O descontentamento do eleitorado dos reformistas ou moderados após quatro anos marcados pela crise econômica e a repressão dos protestos contra a crise econômica, assim como a ausência de melhorias em termos de liberdades, contribuiu para um fortalecimento dos radicais.

3. Eventual sucessão do líder supremo

A provável chegada de Raisi à presidência é interpretada por muitos analistas políticos como mais um passo em seu caminho para a posição de líder supremo. Deve-se lembrar que Ali Khamenei também foi um ex-presidente.

A idade avançada de Khamenei (82 anos) e seu delicado estado de saúde levaram a especulações, nos últimos anos, de que sua sucessão no comando da teocracia iraniana deve estar bem sustentada.

Raisi foi nomeado em 2019 chefe do Judiciário pelo próprio Khamenei, que também o escolheu para o cargo anterior como curador da importante fundação Astan Quds Razavi, que administra o mausoléu do imã xiita Reza na cidade de Mashad.

4. Relacionamento com os EUA

Os radicais normalmente relutam em qualquer interação com o Ocidente e, sobretudo, com os Estados Unidos, a quem chamam de "Grande Satã", enquanto os reformistas são mais abertos às negociações.

A tensão entre os dois países aumentou significativamente durante o mandato de Donald Trump (2017-2021), chegando à beira do conflito quando os EUA assassinaram o proeminente general iraniano Qasem Soleimani em um bombardeio, e o Irã respondeu com um ataque a uma base no Iraque que abrigava tropas americanas.

Trump adicionalmente impôs duras sanções ao Irã após a retirada dos EUA do acordo nuclear de 2015. E apesar de a vitória de Joe Biden nas eleições americanas de 2020 poder representar uma mudança de direção de Washington, qualquer melhora nas relações bilaterais pode ser impedida com os radicais religiosos no poder em Teerã.

5. Disputa nuclear

A disposição de Biden de voltar ao acordo nuclear abriu as portas para novas negociações, que ainda continuam em Viena e para as quais um presidente como Raisi e uma nova e mais intransigente equipe de negociação será um obstáculo, embora o líder supremo tenha sempre a última palavra no Irã.

As negociações buscam, além do retorno de Washington ao pacto, que Teerã volte a cumprir todos os seus compromissos sob o acordo que decidiu violar em resposta às sanções dos Estados Unidos.

Neste ano, o Irã limitou inspeções da agência nuclear da ONU e começou a produzir urânio enriquecido com pureza de 60%, próxima à necessária para produzir uma bomba atômica, o que despertou temores e desconfiança entre as potências ocidentais.

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