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Energia Limpa

Painéis solares nos trilhos de trem: como funciona o projeto pioneiro da Suíça?

Trem passando por placas solares na Suíça.
Startup suíça instala painéis solares diretamente entre os trilhos de uma ferrovia em operação. (Foto: Edgar Chaparro | Unsplash)

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Uma ideia que surgiu enquanto se aguardava a chegada de um trem pode ajudar a redefinir o futuro da geração de energia renovável. Na Suíça, uma startup desenvolveu um sistema capaz de instalar painéis solares diretamente entre os trilhos de uma ferrovia em operação, transformando uma infraestrutura já existente em fonte de eletricidade limpa.

O projeto, criado pela empresa suíça Sun-Ways, é considerado pioneiro por permitir a instalação e a remoção rápida dos módulos fotovoltaicos sem interromper a circulação dos trens.

“Instalamos painéis solares como faríamos no telhado de uma casa”, afirmou Joseph Scuderi, CEO da startup, durante a inauguração, em 24 de abril, da primeira usina solar removível em uma linha ferroviária.

A tecnologia começou a ser testada na pequena vila de Buttes, no cantão de Neuchâtel, e já desperta interesse de países como Coreia do Sul, Espanha, China, Estados Unidos e Indonésia.

A proposta surge em um momento em que diversos países buscam ampliar a produção de energia renovável sem ocupar novas áreas naturais ou agrícolas. Em vez de construir grandes usinas solares em terrenos dedicados, a solução aproveita um espaço que já existe ao longo de milhares de quilômetros de ferrovias.

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Como funcionam os painéis solares nos trilhos de trem na Suíça?

O sistema piloto ocupa um trecho de 100 metros da linha ferroviária de Buttes. No local foram instalados 48 painéis solares removíveis entre os trilhos, diretamente sobre os dormentes, estruturas que sustentam a ferrovia. 

Os módulos possuem potência total próxima de 18 quilowatts e podem gerar cerca de 16 mil quilowatts-hora por ano. Energia suficiente para abastecer entre quatro e seis residências. Atualmente, toda a eletricidade produzida é injetada na rede elétrica local.

O grande diferencial do projeto Sun-Ways está na capacidade de remoção dos painéis. Uma máquina desenvolvida em parceria com a empresa ferroviária suíça Scheuchzer consegue instalar ou retirar até mil metros quadrados de módulos em poucas horas.

Isso permite que equipes de manutenção tenham acesso rápido aos trilhos sempre que necessário.

Empresa instala painéis solares nos trilhos de trem.Empresa instala painéis solares nos trilhos de trem na Suíça. (Foto: Nasim Keshmiri | Unsplash)

Segundo a empresa, os painéis também podem ser instalados manualmente e contam com revestimentos antirreflexo para evitar qualquer risco de ofuscamento aos maquinistas. Além disso, foram projetados para resistir a vibrações constantes e ao surgimento de microfissuras causadas pela passagem dos trens. 

Outra solução curiosa envolve a limpeza dos equipamentos. Escovas instaladas na parte inferior dos vagões passam sobre os módulos durante as viagens, removendo poeira e resíduos que poderiam reduzir a eficiência energética. 

Por que a Suíça aposta em painéis solares nos trilhos de trem?

A Suíça enfrenta o desafio de ampliar significativamente sua geração de energia renovável para cumprir metas climáticas nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, projetos convencionais de usinas solares frequentemente enfrentam resistência quando ocupam áreas de grande valor paisagístico.

Nesse contexto, a utilização das ferrovias aparece como uma alternativa atraente. A tecnologia sustentável ferroviária aproveita corredores já construídos, evitando novos impactos ambientais e reduzindo conflitos relacionados ao uso do solo. 

Segundo estimativas da Sun-Ways, a adaptação dos cerca de 5.320 quilômetros da malha ferroviária suíça poderia gerar aproximadamente 1 bilhão de quilowatts-hora por ano. O volume corresponde ao consumo de cerca de 300 mil residências e representaria aproximadamente 2% de toda a demanda elétrica do país.

A empresa acredita que, no futuro, a energia produzida poderá ser utilizada não apenas para abastecer a rede elétrica, mas também para alimentar estações ferroviárias, sistemas de sinalização e até mesmo os próprios trens. 

Os desafios para transformar ferrovias em usinas solares 

Apesar do entusiasmo, especialistas alertam que a adoção em larga escala ainda depende de respostas para diversas questões técnicas.

Os painéis ficam expostos a vibrações, poeira, partículas metálicas, neve e às ondas de pressão geradas pela passagem constante dos trens. Também será necessário avaliar os custos associados à remoção periódica dos módulos para manutenção da via.

Por isso, o Escritório Federal de Transportes da Suíça autorizou o projeto apenas como experiência controlada. Inicialmente previsto para durar seis meses, o teste foi ampliado para três anos, período em que serão monitorados aspectos como desgaste dos equipamentos, segurança operacional, eficiência energética e impactos sobre a infraestrutura ferroviária.

Especialistas do setor ferroviário e da indústria fotovoltaica também acompanham o projeto para verificar se os painéis conseguem manter desempenho satisfatório ao longo do tempo.

Mesmo diante das incertezas, a iniciativa já é vista como uma das experiências mais inovadoras da transição energética global. Se os resultados confirmarem a viabilidade técnica e econômica da solução, os trilhos poderão deixar de servir apenas ao transporte de passageiros e cargas para se tornar uma nova fonte de geração de energia limpa.

A experiência suíça mostra que a expansão das energias renováveis não depende apenas da construção de novas usinas. Em alguns casos, a resposta pode estar em transformar infraestruturas já existentes em ativos energéticos capazes de produzir eletricidade sem ocupar um único metro quadrado adicional de terreno.

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