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O vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, de 52 anos, assumiu o comando do país nesta sexta-feira (6) após o Senado aprovar o impeachment de Santiago Peña por unanimidade, em meio à crise política e financeira provocada pela quebra do banco digital Ueno Bank.
Integrante do Partido Colorado e também próximo do ex-presidente Horacio Cartes, Alliana tem uma longa trajetória na política paraguaia, tendo passado por governo estadual, pela Câmara dos Deputados e pela direção da legenda que está no poder no Paraguai desde 2013.
Assim como Peña, Alliana também foi alvo de um pedido de impeachment apresentado pela oposição no Parlamento, que o acusou de omissão diante das irregularidades envolvendo o banco. No entanto, a Câmara dos Deputados rejeitou a acusação contra o vice por 48 votos a 30, abrindo caminho para que ele assuma a Presidência.
Pela Constituição paraguaia, Alliana deve completar o mandato de Peña, que está previsto para terminar em 15 de agosto de 2028, sem a necessidade de convocar novas eleições presidenciais.
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De comerciante a dirigente do Partido Colorado
Nascido em 19 de fevereiro de 1974, na cidade de Pilar, no departamento de Ñeembucú, no sul do Paraguai, Hércules Pedro Lorenzo Alliana Rodríguez é conhecido pelo apelido de "Mangui". Antes de entrar para a política, ele trabalhou no setor de comércio e chegou a integrar a seleção paraguaia de basquete em 1991. Alliana é formado em Relações Internacionais pela Universidade Autónoma San Sebastián.
Alliana começou sua trajetória política em um ambiente familiar ligado à oposição ao Partido Colorado. Seus pais foram vereadores departamentais pelo Partido Encuentro Nacional (PEN), legenda que surgiu como alternativa à hegemonia colorada no Paraguai. Em 2000, porém, ele ingressou no Partido Colorado. Seis anos depois, disputou a prefeitura da cidade de Pilar, mas foi derrotado.
Em 2008, aos 33 anos, Alliana conseguiu sua primeira vitória nas urnas ao ser eleito governador de Ñeembucú. Ele permaneceu no cargo até 2013, quando conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados do Paraguai. Ele foi reeleito para o cargo em 2018 e presidiu a Casa em diferentes períodos, incluindo entre 2019 e 2022.
Foi nesse período que Alliana consolidou sua aproximação com Horacio Cartes, que governou o Paraguai entre 2013 e 2018 e lidera o movimento Honor Colorado, uma das principais correntes internas do Partido Colorado.
Com o apoio de Cartes, Alliana chegou à presidência da Associação Nacional Republicana (ANR), nome oficial da legenda, em 2016. Ele permaneceu no comando do partido até janeiro de 2023, quando foi sucedido pelo próprio ex-presidente. Na eleição presidencial daquele ano, ele integrou a chapa encabeçada por Santiago Peña, que venceu a disputa e assumiu o governo paraguaio em agosto.
Politicamente, Alliana integra a ala mais conservadora do Partido Colorado e defende pautas ligadas à proteção da família e à manutenção dos valores tradicionais.
Em 2023, já como vice-presidente do Paraguai, ele se posicionou contra um acordo de cooperação educacional entre o país e a União Europeia, que poderia introduzir debates sobre a ideologia de gênero nas escolas paraguaias. Na ocasião, Alliana afirmou que o governo paraguaio não permitiria a inclusão desse tipo de conteúdo no ensino do país e defendeu mudanças no acordo para preservar, segundo ele, os valores familiares dos paraguaios.
Na economia, Alliana defende o incentivo aos investimentos privados, a manutenção de impostos baixos e a redução da burocracia no país. Em setembro de 2023, o então vice-presidente afirmou a empresários brasileiros que o Paraguai oferecia estabilidade econômica, segurança jurídica e uma legislação favorável ao capital estrangeiro. Na ocasião, ele garantiu que o governo dele com Peña, não pretendia aumentar impostos. Em novembro deste ano, ele voltou a defender essa posição, afirmando que não elevaria a carga tributária caso assumisse o comando do país, nesse caso, após a próxima eleição.
Relação com Cartes passou por ruptura
Apesar da ligação entre os dois, Alliana e Cartes enfrentaram uma crise política recentemente. Em abril deste ano, o vice-presidente confirmou sua intenção de concorrer à Presidência nas eleições de 2028, inicialmente com o apoio de Cartes e de Peña.
O cenário mudou em 13 de outubro, quando Cartes comunicou pessoalmente a Alliana que havia decidido apoiar o ministro Juan Carlos Baruja como pré-candidato à sucessão presidencial.
Alliana criticou a mudança, afirmou que acordos políticos não haviam sido respeitados e chegou a admitir uma candidatura fora do movimento Honor Colorado. Na ocasião, o então vice-presidente declarou que pretendia exercer a Presidência com autonomia e sem aceitar imposições.
A crise do Ueno Bank, no entanto, mudou novamente seus planos. No último dia 2, Alliana anunciou que colocaria sua pré-candidatura à Presidência do Paraguai em pausa para ajudar Peña a enfrentar a crise em curso. Três dias depois, ele voltou a se reunir com Cartes na sede do Partido Colorado, em Assunção, desta vez para discutir a sucessão presidencial. O encontro representou uma reaproximação entre os dois depois das divergências sobre a candidatura de 2028.
Acusações e críticas a Lula
A trajetória de Alliana na política paraguaia também é marcada por uma controvérsia envolvendo a contratação de sua filha Montserrat para um cargo público. Em janeiro de 2024, uma reportagem investigativa feita pelo jornal paraguaio ABC Color revelou que ela havia sido nomeada como assessora da Câmara dos Deputados do país, em setembro do ano anterior, sem concurso público e com salário mensal de 18,27 milhões de guaranis (aproximadamente R$ 16 mil). Na época, Montserrat tinha 25 anos e ainda não havia concluído o ensino superior. A nomeação foi feita pelo presidente da Câmara, Raúl Latorre, também integrante do Partido Colorado.
O caso provocou denúncias de possível nepotismo e chegou ao Ministério Público paraguaio. Alliana negou ter influenciado a contratação da filha e argumentou que ela ocupava um cargo de confiança, para o qual não seria exigido concurso. Em julho de 2024, a Justiça arquivou a denúncia contra a filha de Alliana, após a Promotoria concluir que não havia elementos suficientes para caracterizar crimes como tráfico de influência e lesão de confiança.
Alliana é casado com a deputada Fabiana María Souto e tem quatro filhos. Como vice-presidente, ele também participou de episódios relevantes da política externa paraguaia.
Em julho deste ano, Alliana criticou declarações feitas pelo presidente Lula (PT) sobre a Guerra da Tríplice Aliança, travada entre 1864 e 1870. Durante um evento no Brasil, Lula afirmou que o Paraguai havia invadido o território brasileiro e outros países vizinhos, desencadeando o conflito. As declarações provocaram uma reação do governo paraguaio por meio de Alliana, que exercia naquele momento interinamente a Presidência paraguaia. Na ocasião, ele classificou as falas de Lula como "inoportunas" e afirmou que elas atingiam profundamente o sentimento nacional dos paraguaios. Ele descreveu a guerra como um genocídio contra seu povo.
Em julho, Alliana participou, ao lado do chanceler Rubén Ramírez Lezcano, da entrega de uma nota diplomática de protesto ao embaixador brasileiro em Assunção. O documento acusou Lula de distorcer fatos históricos e solicitou a devolução de troféus de guerra, incluindo os canhões Cristiano e Presidente López, além de cópias de documentos históricos mantidos pelo Brasil.








