
O catálogo de artefatos históricos da Califórnia inclui dois pares de botas, uma bandeira norte-americana, sacos de comida vazios, um par de tenazes e mais de uma centena de outros itens deixados para trás num lugar chamado Base da Tranquilidade. O registro histórico do Novo México lista os mesmos itens.
Isso pode ser surpreendente, considerando que a Base da Tranquilidade não se situa nem no Novo México, nem na Califórnia, mas a quase meio milhão de quilômetros de distância, no ponto onde Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisaram na Lua em 1969.
Mas, para arqueólogos e historiadores preocupados que a próxima geração de pessoas a visitar a Lua possa, por descuido, obliterar o local de uma das grandes conquistas da humanidade, estas designações foram os importantes primeiros passos rumo a uma conscientização da necessidade de proteger artefatos fora da Terra.
"Eu acho que são um patrimônio da humanidade", disse Beth L. OLeary, professora de antropologia na Universidade Estadual do Novo México (NMSU, na sigla em inglês). "É simplesmente um reino incrível que os arqueólogos não haviam começado a observar até então."
A própria pesquisadora Beth não havia pensado muito a respeito da preservação histórica da Lua até que um aluno lhe perguntou em 1999 se leis federais de preservação se aplicavam aos pontos de aterrissagem da Apollo.
"Isso deu o pontapé inicial", ela disse.
E ela descobriu ser uma questão complicada. Sob lei internacional, o governo dos Estados Unidos ainda é dono de tudo que foi deixado na Lua: a metade inferior do primeiro aterrissador, os experimentos científicos, os sacos de urina. Mas 100 nações, incluindo os Estados Unidos, assinaram o Tratado do Espaço Exterior, no qual concordaram em não reivindicar soberania sobre qualquer parte da lua.
Durante a maior parte da década passada, os esforços de Beth OLeary e seus alunos de procurar proteção formal para os locais de aterrissagem da Apollo foram uma busca solitária. A Nasa (sigla em inglês para Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço), por natureza, olha mais para o futuro do que para o passado. "Há uma tendência na Nasa de que, quando um de seus programas termina, eles tendem a se livrar de tudo", disse Milford Wayne Donaldson, oficial de preservação histórica da Califórnia.
Oficiais federais também ficaram desconfiados de que outros países poderiam ver a proteção histórica dos locais de aterrissagem da Apollo como um embuste dos EUA para fazer reivindicações territoriais. E, sem planos de voltar à Lua, tudo parecia apenas um exercício acadêmico.
Mas o interesse na Lua tem aumentado novamente. A Rússia e a Índia planejam enviar aterrisadores robóticos. A Nasa iria enviar astronautas para lá de novo até que a administração Obama mudou de foco alguns anos atrás.
Mais crucialmente, o Google Lunar X Prize, uma competição entre 26 equipes para se tornar a primeira organização privada a pôr uma espaçonave na Lua, ofereceu um bônus de US$1 milhão para visitar um local histórico lá. Pelo menos uma equipe anunciou que estava seguindo rumo à Base da Tranquilidade.
De repente, a perspectiva de um novo pequeno astromóvel passando sobre as pegadas de Neil Armstrong passou a não ser mais tão absurda.
Tradução de Adriano Scandolara.






