Contato de altos funcionários de Trump com o governo russo durante e após a campanha aumenta as suspeitas de que Moscou tenha ajudado a manipular as eleições.| Foto: Nicholas Kamm/AFP

As evidências indicando que diversos integrantes da campanha e da equipe de transição do presidente Donald Trump fizeram contatos com representantes do governo russo aumentaram ainda mais a pressão nos Estados Unidos para a nomeação de um procurador especial para realizar uma investigação.

CARREGANDO :)

O caso ganhou ainda mais visibilidade após vir à tona que o procurador-geral, Jeff Sessions, encontrou-se com o embaixador russo durante a campanha — fato omitido por ele em sua audiência de confirmação no Senado, quando negou ter tido contato com qualquer funcionário do governo de Vladimir Putin.

Líderes republicanos, como o senador Lindsey Graham, já começam a cogitar a possibilidade de um promotor especial, caso haja evidências de que a lei tenha sido violada. Por sua vez, líderes democratas e editoriais dos maiores jornais americanos, como “New York Times” e “Washington Post”, colocam ainda mais lenha na fogueira, alegando que não se pode esperar que ninguém no Departamento de Justiça, que responde ao presidente, aja com imparcialidade.

Publicidade

“Pode não haver nada”, disse Graham. “Mas se há algo que o FBI acredita que seja um crime, precisaremos de um promotor especial.”

Denúncias

Além das acusações a Sessions — que negou ter discutido sobre a campanha com o embaixador Sergey Kislyak, mas se afastou da investigação — novas denúncias vieram à tona, como telefonemas feitos por Michael Flynn — já afastado por Trump — e uma visita do embaixador à Trump Tower em Nova York, em dezembro, onde se encontrou com o genro e assessor do presidente, Jared Kushner. Os casos aumentam as suspeitas de que Moscou tenha ajudado a manipular as eleições, favorecendo Trump em detrimento de Hillary Clinton.

A explicação de Sessions não foi suficiente para os democratas, que continuam a pedir sua demissão e a nomeação de um promotor independente — dentre eles, o líder da minoria do Senado, Charles Schumer. O mais incisivo foi o senador Richard Blumenthal, que pediu que o procurador-geral seja questionado pela Comissão Judiciária do Senado por não ter revelado as reuniões durante a sessão de confirmação.

“Ele fez uma declaração aparentemente falsa”, atacou Blumenthal. “Gostaria que ele explicasse o que foi dito durante a reunião em setembro, no auge da campanha, quando vários relatórios indicavam a interferência russa nas eleições.”

E mesmo que Sessions não tenha cometido perjúrio (mentir sob juramento), especialistas creem que ele pode ter outros problemas legais.

Publicidade

“É, na melhor das hipóteses, um testemunho muito enganador”, explicou ao site “Politico” Richard Painter, principal advogado de ética do governo de George W. Bush. “Em uma audiência de confirmação, um candidato tem a obrigação de fornecer informações completas.”

Repercussão

A imprensa americana, que trava uma batalha com Trump desde sua posse, também pediu uma investigação independente. Em editoriais, vários jornais afirmaram que a permanência de Sessions no cargo tornou-se insustentável. “É difícil decidir o que é mais perturbador: que tantos altos funcionários estiveram em contato com o governo russo durante e após a campanha, ou que continuem negligenciando a verdade”, escreveu o “New York Times”.

Minimizando as acusações, o chanceler russo, Sergey Lavrov, comparou a polêmica envolvendo seu embaixador a uma reedição do macarthismo — em alusão ao movimento de caçada aos comunistas nos EUA nos anos 1950.

“Tudo isso parece com uma caça às bruxas, que pensamos ter acabado nos EUA, um país civilizado.”

Trump, por sua vez, contra-atacou e pediu “uma investigação imediata” sobre os laços de Schumer com o presidente russo, Vladimir Putin. Para justificar o pedido, postou uma foto do líder democrata no Senado tomando café e comendo sonhos ao lado de Putin em Nova York, em 2003. “Um hipócrita total!”, escreveu.

Publicidade

Schumer respondeu pouco depois, afirmando que “falaria com gosto” sobre seu encontro com Putin, que ocorreu “com a presença da imprensa e do público”. E desafiou Trump a fazer o mesmo.

Pence usou e-mail pessoal em função pública

Enquanto isso, outra polêmica envolvendo o vice Mike Pence ganha força. Ele utilizou uma conta de e-mail pessoal para tratar de assuntos políticos quando era governador de Indiana, segundo o “Indianapolis Star” — que revelou ainda que a conta foi hackeada no ano passado.

Na campanha, Pence criticou duramente Hillary por usar um servidor pessoal enquanto ocupava o cargo de secretária de Estado — um escândalo que perseguiu a candidata até o fim da corrida eleitoral.

Após a divulgação, no entanto, o porta-voz de Pence minimizou a comparação entre os dois casos. “Como governador, Pence cumpriu totalmente a lei de Indiana sobre o uso e a conservação de e-mails”, disse, em nota.

Publicidade