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O presidente russo, Vladimir Putin
O presidente russo, Vladimir Putin| Foto: EFE/EPA/MICHAEL KLIMENTYEV

A derrocada da União Soviética na década de 1990 e a ascensão do presidente Boris Yeltsin marcariam o início de uma era de privatizações na Rússia. Os setenta anos de domínio estatal, contudo, não se transformariam em um mercado livre e competitivo: a grande protagonista das vendas das estatais soviéticas foi a corrupção. Ficou famoso o esquema que transferiu participações em doze grandes empresas de recursos naturais do governo para um seleta casta de magnatas escolhidos a dedo, em troca de empréstimos destinados a sustentar o vultoso orçamento federal.

Surgiam assim a primeira geração de grandes oligarcas da Rússia, empresários riquíssimos que se beneficiavam do contato com o Ocidente enquanto subsidiavam as façanhas do Kremlin. Com estas práticas, Yeltsin basicamente deixou o seu governo à mercê destes grupos, no tipo de relação que hoje se entende por "capitalismo de compadrio".

Então, chegou a vez de Vladimir Putin. E, com ela, uma nova leva de ricaços beneficiários dos contratos estatais. Grandes empresas de infraestrutura, segurança e saúde envolvidas em esquemas de propina tomariam conta do mercado. O problema é que o ex-agente da KGB que hoje lidera a invasão à Ucrânia nunca foi afeiçoado à ideia de ceder o poder à elite financeira do país - e, medida por medida, começou a virar o jogo. Se, nos tempos de Yeltsin, eram os oligarcas quem controlavam o Kremlin, Putin compraria de volta boa parte do controle das ex-estatais e deixaria os oligarcas de fora da política, em troca de fazer vista grossa para seus negócios escusos.

Foi esta classe de empresários atingida pelas sanções aplicadas principalmente pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido e pela União Europeia por causa da invasão à Ucrânia iniciada em 24 de fevereiro. “Os Estados Unidos e os governos de todo o mundo trabalharão para identificar e congelar os bens que as elites russas e seus familiares detêm em nossas respectivas jurisdições – seus iates, apartamentos de luxo e jatos particulares”, afirmava o comunicado oficial da Casa Branca. "Nós vamos atrás dos seus ganhos ilegítimos", completou o presidente Joe Biden. Até agora, pelo menos oito nomes integram a lista.

Dois "tipos" de oligarcas

Além dos magnatas que construíram seus impérios antes da chegada de Putin e dos que fizeram fortuna com suas estatais, uma outra classe de oligarcas opera no país e sofre, em partes, com as medidas ocidentais. De acordo com o professor de Negócios Internacionais da Universidade da Carolina do Sul, Stanislav Marcus, é preciso diferenciar os amigos pessoais de Putin - como o banqueiro Yuri Kovalchuk - e também os "siloviki", ex-membros da KGB e dos serviços de segurança da Rússia que se tornaram os braços fortes do presidente. Sem valor de fortuna estimulado e de perfil discreto, o mais proeminente deles é Igor Sechin, o presidente da petrolífera Rosneft.

Também fazem parte deste núcleo o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, o ex-chefe de inteligência doméstica e agora secretário do Conselho de Segurança Nacional da Rússia, Nikolai Patrushev, e o chefe de inteligência estrangeira, Sergei Naryshkin. Segundo uma reportagem do Financial Times que ouviu pesquisadores da oligarquia russa e pessoas que já tiveram contato profissional com estes homens, "uma linha clara deve ser traçada entre os siloviki e as elites russas mais amplas".

Entre alguns membros do segundo grupo - mais heterogêneo e, sobretudo, desunido - a guerra na Ucrânia começa a causar desconforto, vide o caso de Roman Abramovich, presidente do Chelsea Football Club. Mikhail Fridman, presidente do Alfa Group (já severamente atingido pelas sanções ocidentais) e um dos ex-oligarcas sobreviventes da década de 1990, pediu o fim da guerra, bem como o empresário do alumínio Oleg Deripaska (veja, ao final da matéria, uma lista com os principais nomes).

Aos olhos de alguns destes analistas e ex-funcionários, entretanto, Putin parece não dar a mínima para o que acontece com estes magnatas - pelo contrário. Uma reportagem da Forbes que também ouviu fontes internas e observadores do Kremlin também cravou que o presidente pode, na verdade, estar satisfeito com as sanções ocidentais, que forçariam os oligarcas a "trazer seus bilhões para a Rússia".

Segundo o ex-presidente do Bank of America Russia, Charles Lingelbach, ouvido pela reportagem, os verdadeiros aliados de Putin, como Kovalchuk e os irmãos Rotenberg já foram sancionados em 2014 e aprenderam a se proteger desde então. Com relação ao resto da elite, Putin é "bastante indiferente", avalia Lingelbach. O exemplo mais recente deste desprezo seria a reunião virtual com o empresariado no dia do início da guerra, na qual o presidente falou e foi embora, sem passar a palavra a nenhum dos bilionários presentes.

Os siloviki, por outro lado, ainda que estejam subjugados às vontades de Putin, compartilham do mesmo ressentimento herdado do fracasso das reformas da década de 1990 e o fim do bloco soviético, reproduzindo o mesmo desprezo pelas elites liberais de Moscou e São Petersburgo, de modo que o isolamento com relação ao Ocidente tende a incomodar menos.

"Acima de tudo, por profundas razões históricas, culturais, profissionais e pessoais, os siloviki e a elite oficial russa em geral estão total e irrevogavelmente comprometidos com a ideia da Rússia como uma grande potência e um pólo de um mundo multipolar", escreve o jornalista Anatol Lieven. "Eles parecem preparados, se necessário, para lutar implacavelmente por um longo tempo, e com imenso custo e risco para seu regime, para evitar que [a vitória da Ucrânia] isso aconteça".

Alisher Usmanov 

17,6 bilhões de dólares

Nascido no Uzbequistão ainda integrado à União Soviética, Alisher Usmanov é um dos oligarcas favoritos de Putin e um dos mais ricos. É descrito pela União Europeia como o "empresário-oficial" que ajuda Putin a resolver problemas de negócios. Atualmente, é diretor da USM Holdings, um grande conglomerado que envolve mineração e telecomunicações, incluindo a segunda maior rede móvel da Rússia, MegaFon.

Roman Abramovich 

12,4 bilhões de dólares

O presidente do Chelsea FC é um dos bilionários russos mais famosos do mundo - mas é, provavelmente, um dos sancionados menos influentes. Há quem sugira que sua relação com Putin não é tão boa - Abramovich é um dos oligarcas que surgiram durante a presidência de Boris Yeltsin -, mas o Reino Unido defende que obteve lucros ilícitos através desta parceria através de contratos lucrativos para a Copa do Mundo de 2018, por exemplo.

Oleg Deripaska

3 bilhões de dólares

Deripaska está entre os oligarcas que perdeu bastante dinheiro e prestígio desde a chegada de Putin ao poder. Desde a década de 1990, é acusado de se envolver em esquemas de lavagem de dinheiro, suborno, extorsão e até envolvimento em assassinatos operados pelo crime organizado. Recorreu ao presidente em meio à crise de 2008 e, desde então, segundo relatórios dos Estados Unidos e do Reino Unido, se tornou "intimamente associado" a Putin. Ainda assim, é um dos únicos a falar abertamente sobre a guerra, pedindo por negociações de paz em suas redes.

Arkadi e Boris Rotenberg 

4 bilhões de dólares

Vistos como amigos íntimos de Putin, os irmãos Rotenberg são donos de uma empresa de construção de gasodutos que presta serviço para a estatal Gazprom - a responsável pelo polêmico Nord Stream 2, que passa pela Alemanha. Também estão à frente grupo SGM e do banco privado SMP. Por sua proximidade com o presidente, já foram vítimas de sanções durante a guerra da Crimeia, em 2014.

Igor Sechin  

Fortuna desconhecida

O líder dos "siloviki", Igor Sechin é próximo de Putin há muitos, muitos anos: diz-se que é um dos conselheiros mais confiáveis e próximos do presidente, além de seu amigo pessoal. Há quem diga que os dois se falam diariamente e acredita-se que tenham sido colegas de KGB nos anos 1990, embora Sechin nunca tenha admitido abertamente. Discreto e implacável com os oponentes, foi apelidado pela imprensa russa de Darth Vader. Depois de passar décadas entre a política e os negócios em cargos de alto escalão, tornou-se vice-primeiro-ministro de Putin quando este chegou ao cargo e, hoje, é diretor da "Petrobras" russa, a Rosneft.

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