| Foto: Pixabay

Os tubos de aço e concreto têm 11 metros de comprimento, pesam 24 toneladas e, se um consórcio liderado pela Rússia conseguir seu intento, vão se estender por quase 1.300 km pelo fundo do mar Báltico. Estão sendo produzidos aos milhares numa fábrica nesta ilha da Alemanha, servindo de evidência de que em breve Moscou terá os meios cruciais para vender seu gás à Europa continental. 

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Para os defensores mais poderosos do megaprojeto, conhecido como Nord Stream 2, o gasoduto vai oferecer energia mais barata, mais limpa e mais abundante para atender à demanda do continente por décadas futuras. Seus adversários, entre os quais os Estados Unidos, enxergam algo muito mais sinistro: uma jogada geopolítica para ganhar poder, algo que vai dará à Rússia condições de punir países vizinhos que não se alinhem com ela e para chantagear potências europeias que podem elevar suas vozes contra Moscou, mas dependem cada vez mais do gás russo para garantir que suas luzes permaneçam acesas. 

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Mesmo que esse não tenha sido a intenção, o projeto já realizou um objetivo russo importante: dividir o Ocidente. “Nunca vi um projeto comercial ser tão intensamente discutido nos mais altos escalões da política europeia”, comentou Maros Sefcovic, vice-presidente de questões energéticas da Comissão Europeia. “Esse projeto está realmente polarizando a União Europeia.” 

Essa divisão é sentida mais agudamente na Alemanha, o ponto final previsto do gasoduto, onde Angela Merkel é alvo de um esforço forte de lobby para persuadi-la a reverter anos de apoio tácito ao projeto e erguer um obstáculo de último minuto. 

“A Alemanha se liga a um gasoduto russo, com o qual ela vai pagar bilhões de dólares à Rússia por energia, e eu digo ‘que história é essa?”, disse o presidente americano em reunião com líderes de países bálticos este mês. 

Projeto comercial x geopolítica

A chanceler alemã, Angela Merkel, insiste há muito tempo que o projeto é puramente comercial e que ela não criaria obstáculos a ele, provocou repercussões dias mais tarde quando acrescentou que “fatores políticos também precisam ser levados em conta”. 

Apesar de serem ambíguos, seus comentários foram saudados por adversários do gasoduto, que os interpretaram como sinal de que a chanceler pretende fazer uso de seu poder considerável, como líder da maior economia da Europa, para impor uma renegociação dos termos do projeto e possivelmente sua suspensão. 

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Mas não está claro que Merkel o fará – nem mesmo se ela poderia fazê-lo --, isolada, como está, de seus aliados, que pedem uma tomada de posição mais dura contra um adversário que invadiu um país vizinho, interferiu em eleições e é acusado de realizar assassinatos em solo europeu. 

“Há uma posição unificada e bipartidária da parte dos Estados Unidos, há uma maioria consolidada na EU. A Alemanha vem sendo pressionada por todos os lados”, comentou Norbert Röttgen, presidente do comitê de assuntos exteriores do Parlamento alemão e crítico declarado do gasoduto. “Mas já está tarde, realmente tarde. Não sei se já não é tarde demais.” 

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A Alemanha concedeu a aprovação final ao projeto em março. Em janeiro tiveram início as obras de construção preparatória no porto alemão onde se pretende que o gasoduto desemboque. E, se o consórcio que pretende construir o gasoduto está nervoso com a aparente mudança de posição de Merkel, não está dando sinais disso. 

“Está tudo indo conforme o cronograma”, disse Jens Mueller, um porta-voz do projeto. “Já temos as autorizações da Alemanha e Finlândia. Estamos esperando outras autorizações nas próximas semanas e nos próximos meses. Tudo isso nos dá a oportunidade de construir o gasoduto conforme o previsto.” 

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Entre os países cuja aprovação é necessária está a Dinamarca, onde alguns setores se opõem ao plano por motivos de segurança. Mas, se esse obstáculo e outros puderem ser superados, significará que até o final de 2019, gás da Sibéria vai partir de um local próximo de São Petersburgo, passar sob as águas frias do Báltico e chegar ao nordeste da Alemanha. 

Mais energia

A rota segue a trajetória do Nord Stream original, construído em 2011. O novo gasoduto vai dobrar a capacidade de gás russo chegar à Europa através do Báltico. 

A Europa já depende fortemente da Rússia, responsável por quase um terço de suas importações de gás. A dependência é especialmente grande no caso da Alemanha, maior importadora mundial de gás: 40% do gás consumido no país vem da Rússia. 

Essa cifra deve subir substancialmente se o Nord Stream 2 for construído. Para aliados que se opõem ao projeto, a dependência alemã do gás russo gera uma vulnerabilidade perigosa para um país que tem sido intransigente nas sanções à Rússia – mas que toma o cuidado de não antagonizar a potência ao leste, dotada de grande superioridade militar. 

“Os russos estão pensando no longo prazo”, falou um alto funcionário ocidental que pediu anonimato. “Eles têm paciência e estão engajados. Pensamos realmente que ou a Alemanha não está enxergando os sinais, ou não quer enxergar os sinais que mostram como isso pode ser muito negativo para o futuro da Europa.” 

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Pressão russa

O alto funcionário citou o potencial de uma incursão militar russa no Báltico e na influência que o controle do fornecimento de gás à Europa conferiria a Moscou. “De repente todo o mundo poderia tentar deslocar tropas para o leste e os russos poderiam simplesmente fechar as torneiras” prosseguiu o funcionário, que não é autorizado a manifestar-se oficialmente. “É uma realidade que a Otan precisa realmente levar em conta.” 

A Rússia já fez manobras desse tipo antes. Ela sustou o fornecimento de gás à Ucrânia para pressionar a ex-república soviética sempre que ela parecia estar se aproximando do Ocidente. 

A Ucrânia vem expressando muito abertamente sua oposição ao Nord Stream 2, que custaria ao país até US$2 bilhões que ele recebe por autorizar a passagem do gás russo por seu território, algo que deixaria de ser feito se a Rússia desviasse o gás para o novo gasoduto. 

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Merkel disse, em abril, que falou ao presidente Vladimir Putin, em telefonema, que a Ucrânia não deve ser excluída como ponto de passagem do gás se o Nord Stream 2 foi construído. Maros Sefcovic, da Comissão Europeia, disse que tem esperança de que possa ser negociado um acordo que proteja os interesses ucranianos. 

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Mas o presidente ucraniano, Petro Poroshenko – cujo país foi vítima de uma invasão russa disfarçada em 2014 – manifestou profundo ceticismo a esse respeito, dizendo que o Nord Stream 2 representa “um perigo grave” e que os investidores no gasoduto são cúmplices da Rússia em sua guerra híbrida que tem por objetivo enfraquecer a segurança nacional da Ucrânia. 

Defensores

Não faltam defensores destacados na Alemanha para a Nordstream 2, empresa irmã da gigante energética russa Gazprom. O ex-chanceler Gerhard Schroeder, o predecessor de Merkel, é o presidente da Nord Stream 2. O projeto conta com investidores de toda a Europa. 

Brenda Shaffer, membro sênior do think-tank Atlantic Council, disse que existem razões legítimas para se apoiar o gasoduto, entre elas a necessidade europeia de reduzir emissões, substituindo combustíveis mais poluentes, como o carvão, por gás. Mas esses argumentos tendem a ficar em segundo plano diante das considerações geopolíticas. 

Os críticos também ignoram o fato de que a Europa hoje conta com mais opções energéticas do que tinha alguns anos atrás, graças à construção de terminais de gás natural líquido (GNL), disse Kirsten Westphal, membro sênior do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança. Esse fato pode limitar o potencial de influência da Rússia. “Hoje temos a possibilidade de escolher outras opções”, ela explicou. 

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Mueller, o porta-voz do projeto, disse que é a concorrência comercial, e não questões de geopolítica, que está à origem de boa parte da oposição ao gasoduto. Outros países querem vender LNG à Europa, incluindo os EUA. “Boa parte da argumentação política visa prejudicar um futuro concorrente”, ele opinou. 

Não se percebe nenhum indício dessa controvérsia em Lubmin, a cidade bucólica onde desemboca o Nord Stream original e onde já foram iniciadas as obras de preparação para o gasoduto gêmeo. 

O gasoduto proposto pode estar causando uma divisão na aliança ocidental. Mas em Lubmin, cidade situada a uma hora de carro da fronteira da Polônia e que no passado fazia parte da Alemanha Oriental, então comunista, ele é visto como bom negócio, nada mais. 

“As pessoas aqui enxergam a Rússia como parceira comercial confiável”, disse o prefeito da cidade, Axel Vogt, 51 anos. “Não queremos nos envolver na política dos EUA e União Europeia. Não sabemos quais são seus interesses.”