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Líbano

Silêncio brasileiro do outro lado do mundo

Cotidiano de guerra e violência marca experiência de imigrantes

 
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Sultan Yacoub – Vistos da principal estrada que liga Beirute ao Vale do Beqaa, 30 quilômetros ao leste da capital libanesa, os campos agrícolas e a paisagem bucólica da pequena cidade de Sultan Yacoub parecem ter apagado as imagens de horror vividas durante os 34 dias da guerra entre Israel e o grupo radical xiita Hezbollah, há um ano. A cidade fica a apenas cinco quilômetros da fronteira com a Síria e é considerada um dos maiores redutos de brasileiros no Líbano.

Mas neste verão, em vez dos gritos de crianças jogando futebol na rua, da música brasileira nas casas e da conversa fiada entre vizinhos regada a muita feijoada e café brasileiro, Sultan Yacoub está em silêncio. O comércio desacelerou, cinco fábricas foram danificadas, restaurantes fecharam as portas e poucos brasileiros tiveram coragem de retornar para casa.

O empresário paulistano Nagib Barakat, de 38 anos, fugiu para a Síria com a esposa e as três filhas durante a guerra e até hoje trabalha para recuperar os prejuízos provocados pelos bombardeios israelenses. Mais do que o trauma da fuga sob a ameaça de mísseis e da crise econômica, Nagib luta ainda para superar a falta do pai, Dib Barakat, morto ao ser atingido por um míssil de Israel no quinto dia do conflito. Além de perder o pai, a fábrica foi completamente destruída e enquanto a indenização do governo libanês não vem, Nagib busca novos caminhos para superar a dor. Neste ano, ele abriu uma fábrica menor e investiu no plantio de batatas.

“A morte do meu pai foi estúpida, já que nunca nos envolvemos com política. Ele estava no lugar errado na hora errada. Jamais imaginamos que Israel atacaria o Beqaa. A fábrica acabou, mas mesmo quando receber a indenização, não vou reconstruí-la no mesmo local. Não vou ser capaz de voltar a trabalhar no mesmo lugar. A imagem do meu pai morto estará sempre presente”, disse ele.

Nagib trocou São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, pelo Líbano há seis anos temendo o aumento da violência urbana. Dividido, ele garante que adora o Brasil e que já pensou em voltar diante da iminência de uma nova guerra civil. Um dos desafios para a retomada dos negócios é o pagamento da indenização que o governo libanês ainda não autorizou. Ele conta que após a morte do pai, membros do Hezbollah foram à casa da família prestar solidariedade e oferecer ajuda financeira. “Não gosto de política, mas fui procurado pelo Hezbollah. Não recebi nada, mas eles disseram que podem me pagar a indenização caso o governo não pague. A falta de atenção do governo libanês é desanimadora. Caso não receba, vou aceitar do Hezbollah até receber o dinheiro oficialmente. Seria uma espécie de empréstimo.”

Pelo menos 90% da população de Sultan Yacoub são brasileiros e até quem nunca esteve no Brasil foi obrigado a aprender português para se comunicar com os amigos. O idioma é predominante em cidades vizinhas como Jib Janine e até mesmo a capital do Beqaa, Zahle, deu à rua principal o nome de Avenida Brasil. Muitos dos moradores são libaneses naturalizados brasileiros que voltaram à terra natal. Um deles é Mohamad Orra, de 62 anos. Nascido no Beqaa, Orra emigrou para o Brasil aos 17 anos. Morou em Votuporanga e, em 1990, decidiu que era hora de voltar para casa. Dono de uma locadora de automóveis na região, ele teve a aposentadoria antecipada devido à guerra. “Os negócios caíram, os fregueses sumiram e os pagamentos começaram a atrasar. Decidi que era hora de me aposentar e vendi a locadora. Peguei poucas roupas e fui para o Brasil com minha esposa. Voltamos há três meses, mas não há quase ninguém aqui. Não tem ninguém nas ruas. A guerra mudou tudo”, contou.

O engenheiro Saad Orra, de São Bernardo do Campo, garante que nunca viu tempos tão difíceis na região. Vivendo na região há 17 anos, todas as construções em que trabalhava estão paradas. Segundo ele, há projetos de milhares de dólares engavetados devido à instabilidade. No sul do país, os efeitos econômicos da guerra preocupam o empresário Abbas Fahs, de Foz do Iguaçu.

Morador de Tiro, Fahs viu os negócios declinarem com a queda de até 90% do turismo. Dono de um parque de diversões, não sabe como superar o prejuízo: “Os visitantes desapareceram e o restaurante está vazio. Há dois anos não havia sequer uma mesa livre aqui no verão. No sul a situação foi pior. Fugi por alguns dias com minha família depois que comandos israelenses invadiram da cidade pelo mar”.

Pelo menos sete brasileiros morreram no conflito e, segundo o consulado do Brasil em Beirute, cerca de três mil foram retirados às pressas numa operação de emergência que custou US$ 20 milhões ao Itamaraty.

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