"A casa de um inglês é o seu castelo." A frase está em trecho de um livro de direito britânico do século XVII que determina que os cidadãos fazem o que quiserem da porta para dentro e é usada até hoje. Há quem a repita só para lembrar a certa obsessão local com propriedade. Mas o que acontece quando a casa já não é do inglês? Nas últimas décadas, ícones da história e da cultura britânica passaram para as mãos de estrangeiros. Enquanto uns se revoltam, outros acham o fenômeno muito natural. No fim do ano passado, o que poucos considerariam possível aconteceu: a sede da emblemática Scotland Yard, a polícia do reino, foi vendida para um fundo de investimentos do Golfo por US$ 580 milhões.

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Dona de uma boa parte da capital, a família real do Qatar muito breve será a feliz proprietária do imóvel privado mais caro do reino de Elizabeth II, um palácio no valor de US$ 200 milhões (cerca de R$ 800 milhões). A Sheikha Mozah bint Nasser Al-Missned, a mãe do atual emir, está transformando três mansões tombadas do início do século XIX no Regent's Park em uma só. A lista de propriedades da família ainda ostenta a tradicional loja de departamentos Harrod's, fundada em 1834 — que já pertenceu ao egípcio Mohamed Al-Fayed, pai de Dodi Al-Fayed, ex-namorado da princesa Diana —, o Shard, atualmente o prédio mais alto da Europa, o No.1 Hyde Park, hoje o edifício mais caro da capital, a vila olímpica construída para os jogos de 2012, além de uma parcela da bolsa de valores de Londres, uma das mais importantes do mundo, e do supermercado Sainsbury's.

Escola e moradia cara para londrinos

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Poucos prédios são mais emblemáticos na paisagem londrina do que a antiga usina de Battersea. À beira do Tâmisa, as quatro chaminés gigantes do edifício do século XVIII podem ser reconhecidas no vídeo de "Help!", dos Beatles, na capa de um disco do Pink Floyd e na abertura das Olimpíadas de 2012. Este é outro ícone que já não pertence mais aos locais. Há algum tempo foi adquirido por um grupo da Malásia, que se dispôs a investir nada menos que oito bilhões de libras (cerca de R$ 32 bilhões) para transformá-lo em um luxuoso empreendimento residencial e comercial. Um dos ícones da paisagem londrina contemporânea dos grandes arranha-céus, a gigantesca ogiva envidraçada, assinada pelo arquiteto Norman Forster, que ficou conhecida como "The Gherkin" (ou "O Pepino"), acaba de ser comprada pelo grupo brasileiro Safra. A Jaguar/Land Rover foi comprada pelos indianos.

Oligarcas russos são donos de marcas tão importantes quanto a livraria inglesa por excelência, a Waterstone's, do jornal Independent e do Evening Standard. A presença russa na capital tornou-se tão importante que a cidade recebeu o apelido de Londongrado ou Moscou-sobre-o-Tâmisa. Diz-se que foi exatamente por este motivo que os britânicos demoraram tanto a aceitar sanções contra o governo da Rússia após os conflitos na Ucrânia.

Segundo agentes imobiliários, boa parte das disputas pelos melhores endereços de Londres, neste mercado de preços estratosféricos que ainda não conheceu um limite, se resolve facilmente com russos.

—Não costumam regatear os preços. E, ainda que não tenham como dar garantia, pagam em dinheiro o valor de um ano inteiro de aluguel — diz Sara Mason.

Se a presença estrangeira é comemorada pelo prefeito e boa parte dos banqueiros e homens de negócios, é inegável que ela tem reflexo sobre a vida do cidadão comum. Diante da especulação imobiliária, os preços não cedem, e o custo de viver na cidade passa a ser insuportável para os locais, que pouco a pouco vão abandonando Londres para morar nos subúrbios ou no campo. Segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas, 58.220 pessoas entre 30 e 39 anos deixaram Londres de junho de 2012 a junho de 2013, um recorde histórico. O público das escolas privadas também está mudando. Professores, médicos e advogados britânicos já não têm mais como manter os filhos nos colégios pagos.

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As filas de estrangeiros ricos acabaram por pressionar os preços para cima. Em entrevista ao "Sunday Times", Andrew Halls, da King's College School, afirmou que as mensalidades cresceram duas vezes mais do que a inflação nos últimos anos, o que fez que os colégios passassem a depender mais dos alunos de fora.

Nem ônibus de dois andares escapam

O fato é que, quem vem à capital atrás de uma experiência 100% britânica pode se surpreender. Nem mesmo os famosos ônibus vermelhos de dois andares que circulam pelos principais cartões postais da cidade escapam. Desde 2009, pertencem a uma empresa alemã. O luxuoso hotel Claridge's é de um fundo baseado em Brunei. A tradicional casa de chá Fortnum & Mason, a Selfridge's e o Savoy, de canadenses. As farmácias Boots são de um grupo italiano e agora tem sede na Suíça.

Nem mesmo os elegantes Aston Martin, eternizados na telona por um dos personagens mais britânicos do cinema, James Bond, é puramente inglês. A maior parte do capital da empresa hoje está na mão de italianos e um fundo do Kuwait. E os chocolatinhos Cadbury, cuja marca foi fundada em 1824 por John Cadbury na britânica Birmingham, são americanos desde 2008. Neste caso em especial, a operação de venda provocou uma forte reação entre os locais, que viram mais uma de suas casas deixar de ser sua.

Sobre o futuro da Scotland Yard, o novo QG será num edifício mais modesto às margens do Tâmisa. Seguindo instruções do Executivo, a Scotland Yard tenta cortar despesas em cerca de US$ 800 milhões. O dinheiro da venda da antiga sede vai ser usado em novas tecnologias para os agentes, o que inclui tablets e câmeras acopladas a coletes. Já o antigo endereço da polícia desde 1967 vai virar empreendimento residencial, comercial e hotel. Entusiasta dos bilhões de dólares que continuam jorrando sobre a economia da capital vindos de todos os cantos do mundo, o prefeito Boris Johnson foi taxativo ao responder à pergunta de um jornalista que queria saber se a venda para um fundo estrangeiro não o incomodava:

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— (Não) E quem pensa o contrário é completamente ignorante do funcionamento da economia — disse.