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Mulheres passam por mural com desenhos de bombas de petróleo em rua de Caracas, 14 de abril. Além das crises econômica e humanitária, a Venezuela passa também por uma grave crise ambiental
Mulheres passam por mural com desenhos de bombas de petróleo em rua de Caracas, 14 de abril. Além das crises econômica e humanitária, a Venezuela passa também por uma grave crise ambiental| Foto: AFP

Além da crise humanitária, econômica e política, a Venezuela também está sofrendo, há anos, com uma grande crise ambiental que ainda é pouco mencionada em fóruns internacionais sobre o tema, seja por falta de interesse político ou pela complexidade da situação – já que os problemas ambientais estão profundamente relacionados com as crises política, social e econômica.

São duas as principais fontes de preocupação de ambientalistas venezuelanos: os constantes vazamentos de uma indústria petrolífera com infraestrutura decadente; e a exploração ilegal de minérios no sul da Venezuela, que além dos impactos ambientais, traz consigo problemas sociais graves. Alertas sobre aumento do desmatamento, mesmo em áreas não preservadas, por causa da demanda crescente por lenha para cozinhar, também já foram feitos por organizações não governamentais da Venezuela.

A situação atual do país nesta área, assim como em várias outras, mostra um contraste chocante do que era a Venezuela há cerca de 20 anos. No fim do século XX, o país era considerado um exemplo a ser seguido entre as nações amazônicas, tendo estabelecido diversas áreas de proteção ambiental, como parques nacionais e reservas, que protegiam quase 70% do sul da Venezuela, uma área de ampla biodiversidade e florestas inexploradas. Nos primeiros anos da presidência do falecido Hugo Chávez, parecia que o país continuaria avançando nesta direção, mas as ações tomadas a partir do segundo mandato já não mais condiziam com a retórica conservacionista do regime chavista.

De acordo com estudo feito pelo Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS), a dependência econômica da exploração do petróleo foi um dos motivos que levou Chávez a se esquivar de seus compromissos ambientais. Em 2011, o governo parou de publicar dados importantes sobre meio ambiente, como estatísticas sobre mineração, pesca, qualidade da água, entre outros. Quando Nicolás Maduro assumiu o poder e o desmantelamento da indústria petrolífera nacional começou a se agravar, a crise ambiental começou a se tornar mais evidente.

“O regime de Maduro minou as capacidades institucionais para regular e monitorar o desmatamento, assim como a extração informal se torna cada vez mais necessária para muitos venezuelanos que agora dependem da madeira como substituto do gás de cozinha”, escreveram as pesquisadoras do CSIS, Cristina Vollmer Burelli e Claudia Fernandez, em uma análise publicada no começo de abril.

Derramamento de petróleo

Talvez o exemplo mais marcante da crise ambiental venezuelana seja a situação do Lago Maracaibo, no estado de Zulia. Décadas atrás, o local impulsionou a produção petrolífera do país e agora é o retrato do descaso do chavismo com o meio ambiente. As águas do lago estão cobertas com petróleo que vaza de poços há anos, sem qualquer medida de prevenção de derramamento por parte da petrolífera estatal PDVSA.

Luis Florido, político da oposição, disse no começo do ano, após uma visita a um dos setores do lago, que o que está acontecendo lá é um “ecocídio”. “Há petróleo nas casas, nas ruas, no lago”, relatou. “Navegamos no Lago, vimos a contaminação ambiental, a destruição das fontes de petróleo, o derramamento de óleo, uma coisa triste”. A situação também vem sendo relatada pela imprensa local e internacional há alguns anos.

Mas o derramamento de petróleo não ocorre só em Zulia. Nos últimos dez anos foram registrados quase 46 mil vazamentos de petróleo e poluentes na Venezuela. Grande parte destes derramamentos ocorre pela falta de manutenção nos campos de extração do produto.

Mineração ilegal

A exploração ilegal de minérios na Venezuela, especialmente o ouro, na região sul do país também é motivo de preocupação de ambientalistas locais. Desde o estabelecimento do chamado “Arco Mineiro do Orinoco”, em 2016, e o declínio da produção de petróleo no país, o regime chavista passou a permitir a mineração em partes da Amazônia venezuelana, impulsionando o garimpo ilegal na região.

Ao definir esta zona extrativista, Maduro declarou que tinha como objetivo organizar a atividade de mineração e diversificar a renda do Estado, mas em pouco tempo o Arco Mineiro do Orinoco se tornou um centro de mineração ilegal onde atuam gangues, guerrilhas e grupos terroristas, o que aumentou drasticamente a violência na região.

“Venezuelanos pobres que foram levados a trabalhar na mineração de ouro devido à crise econômica e emergência humanitária se tornaram vítimas de crimes macabros cometidos por grupos armados que controlam minas ilegais no sul da Venezuela”, disse José Miguel Vivanco, diretor para as Américas da Human Rights Watch, em um relatório da organização.

Em um informe do ano passado sobre a Venezuela, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas reconheceu que a mineração ilegal acontece na Venezuela há mais de 20 anos, mas informou que a presença de atores criminosos começou a se tornar mais visível a partir de 2011, quando Chávez acabou com as concessões de mineração para empresas estrangeiras, e aumentou consideravelmente depois de 2015, com o aumento do preço do ouro. Não há qualquer controle do Estado sobre essas áreas dominadas por gangues, que também levaram a mineração ilegal para dentro de parques nacionais e áreas de floresta protegidas.

Segundo levantamento do governo americano de 2019, mais de 2,8 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica foram derrubados nos anos seguintes à criação do Arco Mineiro do Orinoco. Pelo menos 50% dessa área estava em “territórios protegidos”. Outro sério risco para o meio ambiente é a contaminação de águas com mercúrio, metal amplamente utilizado na mineração, apesar de ser proibido, e que é jogado no solo e acaba contaminando também os rios.

“Os resultados foram catastróficos para a região, bem como para seus povos e ecossistemas. Terá efeitos trágicos e duradouros - talvez irreversíveis - na Venezuela e além de suas fronteiras”, afirma a ONG SOS Orinoco. “O Arco Mineiro é a arrogante e desafiadora manifestação pública da vontade de um Estado falido de sobreviver às custas de saquear o patrimônio da nação venezuelana”.

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