| Foto: Katherine Evans/Free Images

Minha cachorra balança o rabo toda vez que digo “não”.

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Bingo é resgatada, por isso nunca vou saber de onde ela tirou a ideia de que “não” significa “sim”, mas o hábito é tão irritante quanto se pode imaginar quando tento fazê-la parar de comer cocô, por exemplo. Por outro lado, é a criatura mais feliz que conheço. Assim, no fim de 2017, comecei a pensar como seria minha vida se eu também trocasse os “nãos” pelos “sins” – e, assim, me propus como meta para 2018 receber 100 rejeições profissionais.

Se para você o número parece absurdo, pense nas estatísticas que provam que o adulto jovem de hoje é um ímã para portas na cara: mudamos de emprego e carreira com mais frequência que nunca, temos maiores probabilidades de depender da economia de “bicos” para sobreviver, nos mudamos mais vezes e precisamos de novos amigos nessas novas cidades, e estamos nos casando mais tarde. A impressão é a de que o único fator constante é a mudança, o que significa que estamos o tempo todo sujeitos ao julgamento, às opiniões e às decisões dos outros. Na melhor das hipóteses, é inquietante; na pior, é arrasador.

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E minha situação é especialmente traiçoeira porque sou roteirista, escritora e comediante. Minhas apresentações tendem a ser curtas e estou sempre à mercê do “lugar certo, na hora certa”. Posso enviar um roteiro ou romance ótimos para aprovação, ou fazer um espetáculo matador com casa lotada, mas, se o Fulano responsável pela tomada de decisões estiver de mau humor, ou não assistir a meu show porque teve de ir ao banheiro, ou já ter lido uma obra semelhante, ou for amigo do outro candidato, ou achar que minha aparência não é descolada como deveria, ou ter namorado alguém com um nome parecido com o meu, ou achar que sou muito velha, ou muito nova, ou muito liberal ou muito conservadora, ou for demitido antes de poder me contratar, eu me vejo de volta à estaca zero, tentando descobrir o que deu errado.

Não há nada mais frustrante que a ideia de “ter direito” a algo sem fazer nada para isso

Porém, já no início do ano, eu me senti estimulada e cheia de energia por perceber que, ao me dispor a transformar fracassos em realizações, estaria jogando com o sistema; tanto as aceitações como as rejeições contariam meio que como vitórias, e essa ideia me agradava.

Com o objetivo de emplacar 100 rejeições, passei a disputar oportunidades que sempre achei que eram reservadas aos mais inteligentes, mais engraçados e mais descolados – e, às vezes, nem era recusada. Escrevi para publicações novas, participei de uma disputa de invenção de piadas no programa de rádio do meu comediante favorito e entrevistei nomes no meu podcast que achava que não iam querer perder dois minutos de seu tempo comigo. Em um espetáculo de stand-up meses atrás, um colega me disse o que todo comediante quer ouvir: “Seu nome está em todo lugar! Você está matando a pau!”

Mas é claro que eu não podia só aceitar o elogio e ficar quieta; tive de explicar que, em matéria de estatística, eu era um malogro patético e gigantesco.

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E eu estava fracassando mais do que nunca. Trabalhos escritos, concursos de roteiros, testes, indicações de revistas, festivais de comédia... a pilha de nãos só fazia aumentar. Eu me convencera de que o tal experimento me protegeria da dor das rejeições individuais, mas adivinhem? Não ajudou em nada. Eu lá, na plataforma do metrô, de bobeira fuçando no celular e pá! Um “não” redondo. Eu olhava à minha volta, pensando: “Será que esse pessoal sabe que está perto da mais patética das criaturas?! Só pode. É tão óbvio. Nem precisa luminoso, nem nada”.

Nossas convicções: Ética e a vocação para a excelência

Flavio Quintela: O floquinho Ney (10 de julho de 2018)

Em meados do ano, dois dos meus melhores amigos realizaram seus sonhos profissionais. Fiquei superfeliz por eles, mas... bom, vocês sabem do “mas”. Em casa, sozinha, bateu uma inveja tão grande que me deitei no chão do apartamento e me acabei até fazer uma poça de choro e baba à volta do meu cabeção gigantesco. Aí me senti culpada pela inveja e chorei mais ainda. E olhei para a lista das minhas rejeições com desgosto. Por que me dedicar oito meses à derrota? Que plano mais estúpido! De repente tive a impressão de que passara dois terços do ano envolvida em um cobertor quentinho e confortável só para perceber que era feito de lixo.

Quer dizer, então, que tinha tido uma péssima ideia? Mandei um e-mail para Angela Duckworth, autora de Grit: The Power and Passion of Perseverance, para perguntar o que achava da minha resolução – e ela fez com que me sentisse cientificamente sã.

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Explicou que o que eu estava fazendo era uma “terapia de exposição”, colocando-me mais à vontade com o fracasso para reduzir o medo de enfrentá-lo. Foi um alívio, sentada à minha mesa, encontrar na mesma caixa de correspondência que continha mensagens do tipo “não foi desta vez”, “inadequada” e “infelizmente”, uma especialista em tenacidade e conquistas dizendo que toda aquela rejeição, na verdade, era útil. E completou, dizendo que essa coragem é mais importante que o talento quando se trata de sucesso. Por isso, insisti.

Escrevo no meio de dezembro e já recebi 101 rejeições e 39 aceitações. Estou exausta e é isso que me diz que fiz a coisa certa. Não estar tão cansada significaria ter passado o ano sem fazer o mínimo de esforço para conquistar qualquer coisa que fosse. E, para mim, não há nada mais frustrante que a ideia de “ter direito” a algo sem fazer nada para isso.

Coragem é mais importante que o talento quando se trata de sucesso

Se pensarmos bem, o sentimento está cada vez mais presente em vários aspectos de nossa vida. Há alguns meses encontrei um amigo solteiro, Andy, que estava cansado de ir a festas e casamentos sozinhos e frustrado com a ideia de que o amor bateria à sua porta, no estilo “o que tiver de ser será”. Esperar aí também não deixa de ser um caso de se achar no direito, e Andy queria era pôr a mão na massa. Assim, em outubro, decidiu tratar sua busca por um relacionamento monogâmico sério como a procura por uma vaga de emprego, garantindo que o alcance de seu “currículo” chegasse o mais longe possível, topando todo tipo de “entrevista”, até encontrar o par ideal, deixando sempre bem claro que não estava a fim de rolos nem compromissos pela metade. Assim, ao sair praticamente todas as noites em vez de uma por mês, passou a se sentir cada vez menos nervoso e pressionado a cada encontro.

Comparando as experiências, admitimos que, de solução mágica, nossos experimentos não têm nada: Andy ainda está solteiro e eu, contando centavos. Mas o fato é que nos arriscamos mais e chegamos mais perto de conseguir o que queríamos.

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E é por isso que não me arrependo de ter embarcado nesse projeto masoquista de rejeição. Ele fez com que eu me sentisse constrangida, deprimida, sobrecarregada e mimada – mas pelo menos também senti que estava indo a algum lugar. Não fiquei parada.

Emily Winter é comediante e contribui para “Ask Me Another”, do National Public Radio.
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