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O presidente francês, Emmanuel Macron.
O presidente francês, Emmanuel Macron| Foto: Bertrand GUAY/AFP

É impossível não vincular as arrogantes falas de Emmanuel Macron sobre internacionalizar a Amazônia com o que seria a semente dessa insanidade, plantada 30 anos atrás por um ícone do ambientalismo apocalíptico.

Em 1989, Al Gore – antes de profetizar que em 2014 já não haveria mais geleiras no Ártico – fez a declaração que alimentaria especulações e desejos por décadas: “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós”. Depois disso, nos primórdios da internet, viralizaram fotos de supostos mapas em livros didáticos apresentando a Amazônia como “território internacional”. Na época, os socialistas brasileiros usaram e abusaram da teoria para alimentar o antiamericanismo, mas sempre fizeram questão de omitir o fato de que Gore representava a esquerda americana.

O próprio papel histórico da França como país colonizador quase não desperta interesse

Reparar na contradição desse discurso é natural, mas também redundante, já que a hipocrisia nunca foi motivo de vergonha para o pensamento de esquerda, e sim parte inerente à sua aplicação. Segundo esse raciocínio desprovido de balizas morais, a tara imperialista de um governo estrangeiro que insinua querer nos tomar parte do território pode ser denunciada como um absurdo ou aclamada como corajosa sensatez, dependendo do quanto beneficia o projeto de poder pelo qual milito, e do quanto prejudica quem eu determinei como inimigo.

Para entender isso ainda melhor, basta imaginar como a claque formada por ongueiros e jornalistas de esquerda repercutiriam as declarações e a tentativa de chantagem financeira de Macron se o presidente fosse Lula. A essa altura já haveria bonecos do presidente francês pegando fogo em acampamentos de sem-terra e nos presídios de São Paulo. No entanto, o presidente é Bolsonaro; então, releva-se tudo, contanto que se possa atacá-lo como se fosse ele próprio o incendiário da floresta.

Os telejornais se limitam a dizer que o presidente não aceitou o dinheiro oferecido pelos europeus, pintando-o como um louco, mas recusam-se a mencionar as indecentes condições a serem aceitas em troca de tamanha bondade. O esbanjamento de dinheiro público usado para pagar ONGs internacionais durante os 13 anos de gestão petista – e encerrado por este governo – é outra pauta que poderia render tremendas reportagens num mundo ideal, onde o jornalismo fosse regido por critérios objetivos. Mas Bolsonaro é o presidente, então esse foco deixa de ser relevante.

O próprio papel histórico da França como país colonizador, responsável direto pelo desmatamento em áreas gigantescas ao redor do mundo, seja nas colônias antigas ou nas que ainda mantém – sim, colônias em pleno século 21! –, quase não desperta interesse, nem na mídia, nem nos movimentos sociais tão preocupados com “justiça histórica”. Mas, se o presidente fosse Lula...

Filipe Barros é deputado federal (PSL-PR).

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