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Há uns 30 anos eu tinha um ótimo emprego, dava dois plantões de 12 horas cada um em pronto-socorro, ganhava até bem para meus padrões. Como eu sou muito estressado com pacientes, o fato de eu ir só uma ou duas vezes (às vezes emendava os dois plantões de 12 horas) por semana era ótimo, pois eu ficava livre daquilo pelo resto da semana. No entanto, depois de nove anos, comecei a dar mostras de problemas mentais ligados ao emprego, ao estresse de um pronto-socorro público, que é a linha de frente na guerra.

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Eram problemas que eu já tinha latentes, e só foram piorados pelo ambiente fortemente estressante. Eu poderia alegar que “foi o emprego que me estressou”; que, se não fosse pelo trabalho, eu provavelmente não teria “quebrado” minha saúde mental – e até certo ponto seria certo. Mas seria ético? Em primeiro lugar, eu sabia que era frágil para aquilo; em segundo lugar, serviço em pronto-socorro é assim mesmo: estresse em hospital de doentes graves, equipes estressadas; eles não vão se adaptar a mim. Se a empresa não se adapta a mim, se eu não dou conta da empresa, eu tenho de processar a empresa? Pois a nova categoria de diagnóstico da OMS, o “burnout”, permite exatamente isso: que você processe mais facilmente seu empregador por ter lhe “causado danos mentais”.

Como psiquiatra forense, percebi que de 70% a 80% das alegações trabalhistas que eu via contra as empresas decorriam exatamente disso: pessoas que já tinham uma tendência psiquiátrica e “quebraram” sua saúde mental não por causa do emprego em si, mas por causa de sua fragilidade somada ao emprego. Mas os processos queriam responsabilizar a empresa, culpar a empresa...

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Um dos fatores que evidenciam essa “finalidade socialista” (prejudicar a empresa) dessa nova doença é o fato de que os critérios diagnósticos da “nova doença do burnout” (listada na CID XI) já existiam antes, em várias outras doenças psiquiátricas, como distúrbio de ansiedade generalizada, transtornos ligados ao estresse, distúrbio de adaptação, de ajustamento etc. Para o leitor ter ideia, listo abaixo os critérios da OMS no CID X para o antigo “distúrbio de adaptação”, que são exatamente os mesmos critérios clínicos para o “novo burnout” do CID XI:

“As manifestações clínicas variam e incluem humor deprimido, ansiedade, preocupação (ou uma mistura destes), sentimento de incapacidade de adaptar-se, planejar o futuro ou continuar a situação atual, com algum grau de incompetência no desempenho da rotina diária. O indivíduo pode se sentir propenso a comportamento dramático, explosões de violência. Comportamento agressivo, isolamento, antissocial também pode ocorrer. Estados de angústia ou perturbação emocional. Alterações na integridade das relações sociais. O estressor pode afetar mais pessoas, não só um indivíduo. Estressores que levam circunstâncias desagradáveis agudas ou continuadas. O evento estressante ou contínuo, desprazer de variadas circunstâncias (trabalho, família, sociedade etc.) é fator causal primário, determinante. O transtorno pode ser considerado como resposta desadaptativa a estresse grave, agudo ou continuado, interfere com os mecanismos de adaptação bem-sucedidos e assim leva a problemas no funcionamento social”.

Então, qual é o objetivo político dessa nova doença? A meu ver, simplesmente ligá-la a uma causa laboral, uma “culpa do trabalho” e, portanto, “culpa da empresa”. Nesses últimos tempos socialistas-estatizantes, as empresas têm de ser culpabilizadas por “não serem perfeitas” para todo tipo de trabalhador (o que, evidentemente, é impossível). Não existe mais a ética do “se eu não dou conta desse serviço, se não me adapto corporalmente ou mentalmente a ele, que eu saia e procure um do qual eu dê conta”. Não: hoje a “ética” da OMS socialista, globalista e estatista é: se você não dá conta de seu serviço, processe sua empresa, peça danos morais, alegue assédio moral, doença ocupacional etc. Você tem inúmeros recursos jurídicos para isso, e as leis são tantas que em uma coisa ou outra a empresa estará errada, e você vai ganhar.

Marcelo Ferreira Caixeta é médico psiquiatra.