Aprendemos nas aulas de História que a Revolução Industrial foi um período de desenvolvimento científico e tecnológico no século 18 que transformou sociedades agrárias, especialmente na Europa e na América do Norte, em industrializadas e urbanas. Bens que antes eram minuciosamente trabalhados à mão começaram a ser produzidos em grandes quantidades por máquinas, graças à introdução de novas e promissoras técnicas.
No Brasil, essa mesma marcha viria a acontecer com um atraso – literalmente – secular, ganhando tração somente a partir da década de 1930, quando houve maior diversificação e investimento em infraestrutura. Beira a ironia que o país viva há praticamente quatro décadas justamente o oposto: um precoce e contínuo processo de desindustrialização.
Por aqui, há um caminho minado por desinteligência estrutural, burocrática e econômica que culmina nos resultados inexpressivos que colhemos: fica mais caro produzir.
Hoje, o nível de produção da manufatura brasileira está cerca de 15% abaixo do pico da série histórica, que foi alcançado em 2013. Dados recentes da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) dão conta de que, devido à perda de competitividade da indústria nacional, a diferença entre as importações e as exportações do setor produtivo, cujos produtos têm maior valor agregado, deve atingir neste ano os US$ 125 bilhões, um saldo negativo recorde.
Entendemos por desindustrialização a tendência de redução da fatia do setor manufatureiro no Produto Interno Bruto do país e a decorrente diminuição na geração de empregos nele. Também precisamos estabelecer que nem sempre é um processo traumático. Ao contrário. Dependendo da conjuntura, a redução da capacidade de produção da indústria pode ser um sinal de amadurecimento – é natural que economias desenvolvidas, inclusive, gastem mais em serviços do que em bens de consumo.
Não é o caso do Brasil. Por aqui, há um caminho minado por desinteligência estrutural, burocrática e econômica que culmina nos resultados inexpressivos que colhemos: fica mais caro produzir. É o tal do custo Brasil nos colocando em desvantagem competitiva quase que instantaneamente. A lição que outros países nos fornecem é a de que políticas industriais modernas exigem alocação de recursos em pesquisa e desenvolvimento. A inovação é uma alavanca para solucionar boa parte das dificuldades que testemunhamos.
Mais números: segundo relatório do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em 2019, o Brasil investiu cerca de R$ 89,5 bilhões em P&D – o que corresponde a 1,21% do PIB. Enquanto isso, Alemanha e Estados Unidos investiram mais de 3%. Outro fator de impacto para a desindustrialização brasileira tem a ver com a forte dependência do Estado para permitir o crescimento industrial – não apenas no que depende de tecnologia, mas também de educação e de infraestrutura. Melhorias em ambas as áreas elevam o potencial de redução de custos de produção e de aumento de produtividade.
Outro ponto relevante é participação da política monetária adotada no Brasil entre os anos de 2003 e 2010, na qual os juros foram elevados por um longo período, motivando a entrada de moeda estrangeira no país e a valorização do real. O cenário (juros elevados somados à moeda nacional apreciada) cria empecilhos na tomada de crédito por parte das indústrias: o valor do dinheiro no decorrer do tempo e o elevado custo de oportunidade afetam diretamente a taxa interna de retorno do investimento, além de gerar um forte estímulo à importação. No fim do dia, há redução na demanda de produtos produzidos do lado de cá da fronteira.
Por fim, a instabilidade política e econômica é mais um dos tropeços que injeta boa dose de incerteza no mercado e coloca em xeque o potencial de crescimento e a segurança depositados no país. A repercussão tem batido à porta ano após ano, com a fuga de grandes empresas e o encerramento das atividades fabris em diversos polos brasileiros. De 2011 a 2020, a indústria perdeu 9,6 mil empresas e fechou 1 milhão de vagas no Brasil, de acordo com o IBGE. Quando olhamos para o PIB brasileiro, o aumento da participação do setor agrícola em detrimento do desempenho da indústria fica mais evidente.
O share da indústria de transformação no PIB brasileiro era de 15,6% no quarto trimestre de 1996, chegando a 10,3% no primeiro trimestre de 2021. No mesmo período, a agropecuária, somado ao setor extrativo, saíram de uma participação de 4,9% para 16,2% no PIB do país – um claro sinal de dependência da exportação de commodities. Reverter o processo de desindustrialização passa necessariamente pela revisão de políticas que garantam a competitividade dos produtos nacionais no mercado global, pensando nos atributos que o mercado de hoje requer. Apenas soluções sustentáveis no longo prazo são capazes disso.
Estamos falando de tecnologia e inovação, de uma boa educação de base, de capacitação de mão de obra para aumentar a produtividade e gerar desenvolvimento. O investimento, nesse caso, é questão de sobrevivência.
Marcos Weigt, economista pela FAAP com MBA em finanças pelo Insper, é head de tesouraria do Grupo Travelex Confidence.
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