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Por décadas, o debate sobre crescimento econômico esteve centrado nos fatores de produção clássicos – capital e trabalho. O modelo neoclássico de Robert Solow (Prêmio Nobel de economia), desenvolvido no final dos anos 1950, mostrou como a acumulação desses insumos impulsiona a economia, mas também mostra seus limites: sem progresso tecnológico contínuo, o crescimento tende a perder fôlego no longo prazo, levando a economia a um estado estacionário (steady state), sem crescimento sustentado da renda per capita.
A virada conceitual veio nos anos 1980, com Paul Romer, também laureado com o Nobel de economia. Ao distinguir objetos – como capital, trabalho e recursos naturais – de ideias – conhecimento, tecnologia e métodos –, Romer deslocou o eixo da análise econômica. Ideias são, essencialmente, instruções para usar recursos de forma mais produtiva. Não se esgotam com o uso e podem ser replicadas indefinidamente a custo marginal próximo de zero.
Além disso, ideias geram externalidades positivas. Quando uma empresa ou pesquisador desenvolve uma nova tecnologia, seus benefícios frequentemente transbordam para outros agentes – seja por imitação, aprendizado ou difusão do conhecimento. Esses spillovers ampliam o impacto econômico das ideias, mas também implicam que o retorno privado da inovação tende a ser inferior ao seu retorno social.
Essa característica muda a lógica econômica. Desenvolver uma inovação exige investimentos elevados e arriscados. Uma vez criada, porém, sua reprodução tem custo muito baixo. O resultado é uma estrutura típica da economia do conhecimento: altos custos fixos e baixos custos marginais.
Economias que investem intensivamente em pesquisa e desenvolvimento, capital humano e infraestrutura científica apresentam maior produtividade e renda
Esse padrão gera uma tensão central. Em mercados competitivos, os preços tendem ao custo marginal. Nesse cenário, empresas não conseguem recuperar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, reduzindo os incentivos à inovação. O resultado é um problema clássico: o investimento privado em novas ideias tende a ser inferior ao socialmente desejável – um efeito reforçado justamente pelas externalidades do conhecimento.
É nesse contexto que entram as instituições. Patentes, direitos autorais e proteção à propriedade intelectual criam uma “cunha” entre preço e custo marginal, permitindo a apropriação temporária dos ganhos gerados pelas inovações. Embora gerem preços mais elevados no curto prazo, esses mecanismos são essenciais para sustentar o progresso tecnológico no longo prazo.
A literatura econômica reforça essa visão. De Joseph Schumpeter a Joel Mokyr – laureado com o Prêmio Nobel de economia de 2025 –, o crescimento está associado à capacidade de gerar e difundir conhecimento.
Mokyr acrescenta uma dimensão crucial a esse debate. Em seus estudos sobre a Revolução Industrial inglesa, mostra que o progresso depende não apenas da criação de ideias, mas de sua circulação. A valorização social da ciência, a abertura ao intercâmbio intelectual e a interação entre inventores, artesãos e empreendedores foram decisivas para transformar conhecimento em crescimento econômico. Ideias, em sua perspectiva, só geram prosperidade quando são amplamente difundidas e aplicadas à criação de novos bens e serviços.
Os dados internacionais recentes corroboram essa leitura e diagnóstico. Economias que investem intensivamente em pesquisa e desenvolvimento, capital humano e infraestrutura científica apresentam maior produtividade e renda. Países como Coreia do Sul e Estados Unidos lideram os indicadores de inovação, enquanto economias menos intensivas em conhecimento enfrentam dificuldades para sustentar o crescimento.
Para o Brasil, a implicação em termos de políticas públicas é direta. O desafio do desenvolvimento e do crescimento sustentado no longo prazo passa menos pela ampliação de insumos tradicionais e mais pela capacidade de gerar, absorver e difundir novo conhecimento e ideias. Isso exige avanços na educação básica, formação de capital humano qualificado e fortalecimento de universidades e instituições de pesquisa.
Em um mundo cada vez mais integrado, a circulação global de ideias amplia esse potencial. Diferentemente dos recursos naturais, o conhecimento não é limitado e pode beneficiar simultaneamente múltiplas economias.
No limite, a mensagem é simples: o crescimento sustentado depende menos do que uma economia possui e mais do que ela é capaz de criar. Ideias importam – e são o verdadeiro motor da prosperidade e do crescimento econômico sustentado no longo prazo.
Giacomo Balbinotto Neto é professor do Programa de Pós-Graduação em economia (PPGE/UFRGS) desde 2000 e pesquisador na área de crescimento econômico. Atualmente é professor de Macroeconomia II da FCE/UFRGS e revisor técnico de livros de economia.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







