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A escola austríaca é a melhor por que admite um fato: é impossível controlar a economia

O foco na ação do indivíduo é um dos fatores que torna a escola austríaca tão especial. (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo)

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Em seu novo livro, Austrian Economics: An Introduction (Economia Austríaca: Uma Introdução), Christopher Coyne e Abigail Hall, ambos professores de economia, oferecem um volume conciso e acessível, com um título despretensioso, que preenche uma importante lacuna na literatura para aqueles que têm curiosidade sobre a escola austríaca de economia. Reconhecendo que a escola austríaca frequentemente carrega certos estigmas e pode ser fonte de confusão, os autores esclarecem imediatamente o que ela não é. Ela não trata da economia da Áustria, tampouco é uma filosofia política ou um manifesto libertário, nem consiste em uma lista rígida de posições políticas. Trata-se de um estudo intransigente da ação humana dotada de propósito em condições de incerteza radical e escassez.

O livro apresenta a maneira econômica de pensar que foi forjada ao longo do tempo, começando por Carl Menger e passando pela primeira geração de economistas austríacos: de Eugen von Böhm-Bawerk e Friedrich von Wieser a nomes mais conhecidos, como Ludwig von Mises e Friedrich A. Hayek, que foram os líderes intelectuais no período entre guerras. Esse fervor culminou no renascimento da escola austríaca impulsionado pelo Prêmio Nobel de Hayek, em 1974, e prossegue hoje com os austríacos contemporâneos que desenvolvem o legado de Hayek.

Coyne e Hall oferecem não apenas uma introdução às ideias fundamentais da economia austríaca, mas também um arcabouço analítico para questões contemporâneas. Você está confuso sobre déficits comerciais, política monetária, inflação, supermercados estatais e a participação do governo em empresas privadas? Fundamentando-se nas verdades da natureza humana e nas realidades do mundo, Coyne e Hall mostram que a economia austríaca é mais relevante do que nunca, oferecendo uma maneira prática de pensar sobre as forças econômicas e sobre as questões mais prementes de política pública.

A economia como disciplina existia muito antes de Menger, que estudou economia e escreveu Principles of Economics (Princípios de Economia) em 1871 para tratar do que considerava lacunas na maneira como economistas clássicos como David Hume, Thomas Malthus, David Ricardo, Jean-Baptiste Say e Adam Smith compreendiam a formação dos preços. Esses economistas concentravam-se nos produtores sem considerar o papel dos consumidores e suas avaliações dos bens e serviços. A partir da descoberta de Menger, porém, nasceu a escola austríaca.

Coyne e Hall argumentam que as características únicas da tradição austríaca surgiram em quatro momentos decisivos. O primeiro foi o Methodenstreit, ou batalha dos métodos, na qual Menger reagiu à afirmação da Escola Histórica Alemã de que não existem leis universais da economia. Menger e os que vieram depois dele estabeleceram justamente uma teoria econômica universal. O segundo momento foi o Debate do Cálculo Econômico Socialista, liderado por Mises e Hayek no início do século XX e posteriormente ampliado por Don Lavoie, que demonstrou ser impossível realizar o cálculo econômico sem direitos de propriedade privada. O terceiro foi a Revolução Keynesiana, que sustentava que os mercados eram voláteis e sujeitos a longos períodos de desemprego, e que a gestão macroeconômica por meio dos gastos governamentais poderia amenizar essas recessões. Por fim, o quarto momento é conhecido como Síntese Neoclássica, liderada por Paul Samuelson, vencedor do Prêmio Nobel em 1970, que combinou a macroeconomia keynesiana com a microeconomia das falhas de mercado e sustentou que as ciências sociais deveriam modelar seus métodos segundo as ciências físicas.

Ao longo do último século, essa guinada em direção ao planejamento macroeconômico levou os economistas da corrente dominante a se apaixonarem pela modelagem formal, alimentando uma falsa arrogância segundo a qual a economia seria um projeto de engenharia que especialistas podem ajustar com precisão. A escola austríaca nos força a estreitar nosso campo de análise e examinar primeiro a ação humana individual. Longe de rejeitar as ferramentas empíricas, os austríacos reconhecem que qualquer análise social sólida deve começar pela pessoa que age. Coyne e Hall argumentam que Menger e seus sucessores nos ajudam a compreender os processos causais que geram os resultados, permitindo-nos ter “uma ciência social objetiva da ação humana subjetiva”. Temos, assim, uma teoria pura baseada no raciocínio a priori e uma teoria aplicada na qual precisamos examinar as contingências institucionais da ação humana.

A escola austríaca nos força a estreitar nosso campo de análise e examinar primeiro a ação humana individual

No centro do arcabouço austríaco está o individualismo metodológico, a ideia de que somente indivíduos escolhem. Países não escolhem; empresas não escolhem; indivíduos únicos e irrepetíveis escolhem. Devemos direcionar nosso estudo para eles a fim de compreender como e por que fazem essas escolhas. Coyne e Hall argumentam que isso muda o foco dos economistas: das tendências macroeconômicas para os agentes microeconômicos. Em suma, cada pessoa possui propósitos e planos que motivam suas escolhas e nos ajudam também a compreender as escolhas que ela deixa de fazer.

Os austríacos acertadamente começam pelo indivíduo como ponto focal, reformulando a teoria do valor. Isso também marcou uma mudança em relação a economistas clássicos como Adam Smith e David Ricardo, e até mesmo a figuras como Karl Marx, que tentaram medir objetivamente o valor final de um bem somando as horas de trabalho empregadas em sua produção. Carl Menger demonstrou que o valor é inteiramente subjetivo. Em vez de residir nos objetos físicos e nos custos de produção, ele existe na mente de cada pessoa, e a maneira como valorizamos as coisas está sempre sujeita a mudanças.

Essa ideia resolveu o conhecido “paradoxo do diamante e da água”. Você já se perguntou por que os diamantes, que não são essenciais à vida, são tão caros, enquanto a água, essencial à vida, é tão barata? A água tem uma utilidade total imensa; sem ela, morremos. Ainda assim, ela tem um preço de mercado baixo porque é abundante em relação à demanda. Os diamantes não são necessários para a sobrevivência, mas alcançam preços elevados porque são escassos. Além disso, o valor que atribuímos a cada um em uma troca depende do contexto, e a utilidade marginal de uma unidade adicional de água é baixa em relação à utilidade marginal de um diamante adicional, que é alta. Nossas escolhas dependem das situações específicas que enfrentamos. Um corredor em um dia quente pode pagar de bom grado US$ 5 por uma garrafa de água gelada em um pequeno comércio local, apesar de pagar apenas alguns centavos pela água da torneira em casa. A utilidade marginal e a valoração subjetiva governam nossas escolhas no mundo real.

Isso nos ajuda a responder a uma das questões mais importantes da economia política: como milhões de indivíduos, cada um perseguindo seus próprios planos em condições de escassez e incerteza, conseguem coordenar pacificamente suas trocas com os outros? A resposta está no cálculo econômico por meio do processo de mercado, amparado pelos direitos de propriedade privada.

Usando o Toaster Project, de Thomas Thwaites, como ilustração, Coyne e Hall demonstram a enorme complexidade da coordenação de mercado. Thwaites tentou meticulosamente fabricar uma torradeira do zero. Comprou uma torradeira barata e a desmontou, apenas para descobrir que ela tinha 400 peças; além disso, precisava de minerais brutos que teve de viajar pelo mundo para encontrar. Depois de todo esse trabalho, viu a torradeira entrar em curto-circuito quase imediatamente. Coyne e Hall usam ao longo do livro a palavra “maravilha”, assim como outros austríacos, para caracterizar o processo pelo qual obtemos esses objetos cotidianos. O mercado coordena o conhecimento disperso por meio dos preços e das trocas voluntárias.

O cálculo econômico também requer direitos de propriedade privada. Os direitos de propriedade conferem a propriedade legal e incentivam os proprietários a decidir como melhor investir seus bens, promovendo uma visão de longo prazo dos investimentos que protege os recursos contra o esgotamento e os direciona para seus usos de maior valor. Mises demonstrou que os direitos de propriedade privada eram necessários ao cálculo econômico porque precisamos avaliar o uso de um recurso escasso em comparação com suas alternativas. O socialismo substitui isso pela propriedade coletiva. Sem direitos de propriedade, não pode haver preços de mercado e, portanto, não há como avaliar os trade-offs e os custos de oportunidade.

Hayek ampliou essa ideia ao enfatizar que o conhecimento necessário para produzir até mesmo algo que consideramos uma simples torradeira não existe em uma única mente, muito menos em um comitê burocrático. O conhecimento é descentralizado, tácito e local. Os preços de mercado funcionam como sinais e incentivos. Sem direitos de propriedade e preços, só podemos fazer suposições arbitrárias sobre o que produzir, quando produzir e em que quantidade. Além disso, centralizar o planejamento econômico exige conceder a um pequeno grupo o poder de racionar recursos em nosso nome. O socialismo, portanto, nos deixa com um “problema de poder”, porque o planejamento econômico substitui o processo de mercado por um processo político, dando aos planejadores estatais poder discricionário.

Como milhões de indivíduos, cada um perseguindo seus próprios planos em condições de escassez e incerteza, conseguem coordenar pacificamente suas trocas com os outros?

Mas o mercado é um processo dinâmico de descoberta e adaptação, não um plano. Os mercados funcionam como uma catallaxy, palavra que Mises adotou para descrever melhor como os mercados funcionam e o que fazem em tempo real; as traduções incluem “admitir na comunidade” e “transformar um inimigo em amigo”. Orientados pelos Três Pês — direitos de propriedade (property rights), preços (prices) e lucros e prejuízos (profits and losses) —, os mercados promovem a cooperação e a coordenação pacífica.

Essa coordenação ocorre por meio do empreendedor, que desempenha um papel fundamental na tradição austríaca. Operando em condições de incerteza radical, o empreendedor precisa antecipar necessidades não atendidas dos consumidores e descobrir novas maneiras de criar valor. Lucros e prejuízos orientam esse processo e funcionam como mecanismos indispensáveis de retorno, conectando-o diretamente aos desejos dos consumidores.

Uma vez compreendido o processo de mercado sem interferências, fica clara a ameaça do intervencionismo e de suas distorções. O intervencionismo distorce os sinais, os preços e os incentivos. Hayek advertiu que os intervencionistas sofrem da pretensão do conhecimento e, portanto, não podem, mesmo com as melhores intenções, conduzir a economia em direção a um conjunto previamente estabelecido de objetivos. Assim, os austríacos não rejeitam o intervencionismo por uma questão de ideologia, mas porque ele enfraquece justamente o processo que aproveita o conhecimento descentralizado.

Como exemplo, Coyne e Hall iniciam seu capítulo sobre intervencionismo com a história de um ex-prefeito de Nova York que reagiu à escassez nacional de fórmula infantil impondo um teto de preços. Parece uma boa ideia no papel. Mas limitar os preços distorce o sinal transmitido pela mudança no preço relativo. Usar uma política pública para ocultar esse preço produz várias consequências. As pessoas não reduzirão seu consumo, e isso incentiva a estocagem; sem a alta de preços, os empreendedores ficam privados de um sinal necessário para produzir e distribuir mais fórmula infantil. Nesse caso, os tetos de preços literalmente mordem a mão que nos alimenta. Isso é contraintuitivo, e é justamente por isso que as políticas intervencionistas são tão populares e que precisamos da economia austríaca e de um foco no processo de mercado para obter clareza sobre como responder. Além disso, como aponta Israel Kirzner, esses esforços de política pública não apenas sufocam o processo de descoberta, mas também promovem a “descoberta supérflua”, canalizando a atividade empreendedora para formas improdutivas, como a busca por privilégios (rent-seeking), subornos e atividades no mercado negro.

Como seria de esperar, o dinheiro ocupa um lugar central no processo empreendedor. Coyne e Hall destacam que o próprio dinheiro é uma ordem espontânea; ele surge sem um planejamento central e favorece o cálculo econômico. Assim, as regras adotadas pelos bancos centrais são importantes para determinar se o dinheiro facilita a atividade econômica ou se as intervenções bancárias distorcem as trocas e até mesmo provocam ciclos econômicos artificiais.

Seus capítulos finais apresentam as contribuições austríacas para as teorias monetária, bancária e dos ciclos econômicos. Em vez de tratar dinheiro e capital como fatores macroeconômicos, os austríacos enfatizam que o dinheiro tem origem espontânea, o capital é heterogêneo, os bens têm múltiplos usos (isto é, podem ser utilizados em diversos processos produtivos) e a produção é organizada em um processo estruturado no tempo, no qual as taxas de juros de mercado refletem as preferências temporais. Os ciclos econômicos são gerados dentro do próprio sistema econômico por meio de distorções no setor bancário que empurram artificialmente as taxas de juros para baixo de sua taxa natural, resultando em períodos de expansão e contração.

Eles concluem o livro destacando áreas nas quais os austríacos contemporâneos estão fazendo importantes contribuições de pesquisa, incluindo a robustez dos mercados, a macroeconomia, o empreendedorismo, a comunidade e a sociedade, a economia do desenvolvimento e a guerra e defesa, entre outras áreas de política pública. Este livro oferece um volume conciso e de grande impacto, que será valioso tanto dentro quanto fora da sala de aula. Embora a inclusão de perguntas para discussão ao final de cada capítulo pudesse ter ampliado sua utilidade didática, o livro ainda assim se destaca como um guia claro e acessível, repleto de exemplos práticos e relacionados à vida cotidiana. Em última análise, Coyne e Hall demonstram que a economia austríaca é uma escola heterodoxa centrada na ação humana dotada de propósito, no conhecimento disperso, na formação de preços e no valor subjetivo. Em suma, em um mundo que se esqueceu das muitas falhas do socialismo e das economias de comando, ela oferece a base para melhorar nosso mundo e promover a prosperidade.

Anne Bradley, Ph.D., é pesquisadora afiliada ao Acton Institute, vice-presidente de Assuntos Acadêmicos do The Fund for American Studies, organização educacional voltada à formação de jovens em princípios de liberdade econômica, e professora de economia do The Institute of World Politics, instituição de ensino superior especializada em relações internacionais, segurança nacional e assuntos de Estado.

©2026 Acton Institute. Publicado com permissão. Original em inglês: The Continuing Relevance of Austrian Economics

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