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Durante a pandemia de COVID-19, houve um aumento acentuado nos casos de depressão, comportamentos compulsivos, automutilação e suicídio entre adolescentes e jovens adultos. Isso é comumente atribuído às circunstâncias difíceis que enfrentam, como a solidão ou perspectivas de emprego precárias, e às influências às quais estão expostos, especialmente por meio das redes sociais. No entanto, certas atitudes generalizadas em relação à vida também desempenham um papel importante, e estas podem ser a chave para prevenir esses problemas antes que exijam tratamento médico.
Em 26 de fevereiro, a rede social Instagram anunciou um novo recurso de monitoramento parental: os pais poderão receber alertas quando seus filhos adolescentes fizerem buscas repetidas relacionadas a suicídio ou automutilação.
Essa notícia representa um reconhecimento implícito de um problema sobre o qual muitos profissionais de saúde e de orientação educacional vêm alertando há algum tempo: a crescente deterioração da saúde mental entre jovens e adolescentes.
A questão não é apenas quanto tempo os jovens passam nas redes sociais, mas que tipo de relação com a realidade eles estão desenvolvendo. Se toda emoção desconfortável pode ser silenciada deslizando para o próximo vídeo; se toda insegurança é medida em "curtidas"; ou se toda tristeza é exposta ou escondida de acordo com seu impacto social, então a capacidade de lidar com o desconforto fica enfraquecida, e tudo se reduz a doses de dopamina e bem-estar.
As plataformas digitais não são a única causa desse desconforto, mas fazem parte do ecossistema em que a identidade é construída hoje. As redes sociais proporcionam um ambiente de exposição constante, comparação perpétua e suposta gratificação instantânea, o que intensifica a fragilidade emocional inerente à adolescência.
Ansiedade
Os casos de ansiedade, depressão e automutilação estão em ascensão, e as próprias empresas de tecnologia começam a admitir que suas plataformas e dispositivos têm alguma responsabilidade por isso. O aspecto mais preocupante é o aumento entre os jovens.
Os diagnósticos de ansiedade em adolescentes cresceram rapidamente e, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), o suicídio continua sendo a principal causa de morte não natural nessa faixa etária. A automutilação, especialmente entre meninas, tornou-se um dos indicadores mais preocupantes de sofrimento emocional entre os jovens.
Por outro lado, o consumo de ansiolíticos disparou nos últimos anos em países como Portugal, Islândia e Espanha. Segundo a Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos de Saúde, o consumo ultrapassa agora 110 doses por dia para cada 1.000 habitantes, e a Espanha mantém-se no topo do ranking de consumo de benzodiazepínicos.
É necessário transmitir aos jovens que a tristeza não é uma falha do sistema, mas sim parte do processo de amadurecimento
Esses dados nos levam a uma reflexão pedagógica e social imediata. A prevenção em saúde mental juvenil não pode se limitar ao controle parental ou à filtragem de conteúdo, mas deve abordar o aprendizado de como permanecer na realidade sem fugir dela ou suavizá-la, além de reconhecer que a mensagem de que o desempenho é o eixo fundamental do bem-estar também está deixando sua marca nos jovens.
Alegria não é o mesmo que bem-estar.
Vivemos em uma cultura marcada pela exaustão, pressa e exigências excessivas, não apenas provenientes do trabalho ou da sobrecarga de estímulos, mas de um estilo de vida que requer disponibilidade constante e bem-estar emocional. A alegria é confundida com bem-estar, satisfação ou ausência de problemas e torna-se frágil e incapaz de sustentar a vida quando se torna exigente.
Por outro lado, as expectativas culturais sobre a felicidade frequentemente criam uma lacuna entre o que é prometido e o que é realmente possível, aumentando a frustração. A promessa de alcançar a felicidade é determinada por fatores sociais e culturais. Nesse sentido, o sociólogo Eduardo Bericat, em sua obra Excluídos da Felicidade (CIS, 2018), lança luz sobre essa questão e analisa como a promessa histórica de alcançar a felicidade levou a uma preocupação com o bem-estar material e emocional que não é atendida de forma equitativa em todos os grupos sociais.
O pensamento de Han Kang, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2024, e de Byung-Chul Han, vencedor do Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2025, também reflete esse problema. O filósofo Byung-Chul Han trouxe à tona sua tese sobre a "sociedade do esgotamento". Han oferece uma análise implacável de nossa época, descrevendo uma sociedade na qual as pessoas não se sentem mais oprimidas externamente, mas sim impulsionadas internamente a produzir mais, a dar conta de tudo, a nunca parar. Por sua vez, a romancista sul-coreana Han Kang narra poeticamente a fragilidade humana e retrata uma sociedade incapaz de lidar com a dor.
Do ponto de vista educacional e psicológico, essa lógica tem consequências claras: fadiga crônica, dificuldade em manter a atenção, sentimento de fracasso permanente e uma relação cada vez mais instrumental consigo mesmo.
Liberdade interior
É revelador observar como a linguagem contemporânea deslocou o conceito de alegria, substituindo-o por "bem-estar" ou "satisfação". Enquanto o bem-estar se refere a uma condição um tanto estática, dependente do consumo, a alegria possui uma qualidade dinâmica. Alegria (do latim alacer) significa vivaz, entusiasmado e disposto, e implica vivacidade e prontidão de espírito. Refere-se a uma atitude vital, que nos impulsiona a viver e agir, e não simplesmente a um sentimento agradável.
Não se trata de euforia ou otimismo superficial, mas de uma forma de afirmar que a vida vale a pena ser vivida, mesmo quando não é fácil. A verdadeira alegria não vem de evitar as dificuldades, mas de abraçá-las com propósito. É uma forma de liberdade interior aprendida no cotidiano: na paciência com que se acompanha um longo processo, na atenção aos detalhes, na fidelidade a uma tarefa difícil ou no cultivo de relacionamentos.
A verdadeira maturidade não consiste em evitar o desconforto, mas em aprender a habitar uma realidade imperfeita sem se anestesiar diante dela
A alegria também se encontra na criação, no ato de trazer algo novo ao mundo, por menor que seja, seja pintar, escrever, inventar ou preparar uma refeição com amor.
Como Viktor Frankl destacou em Em Busca de Sentido, mesmo nas circunstâncias mais extremas, os seres humanos não podem ser privados de sua liberdade interior, de sua capacidade de escolher a atitude com que enfrentam as circunstâncias e encontrar sentido na vida. A cultura do bem-estar prometeu felicidade por meio do alívio imediato do desconforto. No entanto, quando o bem-estar se torna uma obrigação, ele deixa de proporcionar alívio e começa a gerar confusão.
Na perspectiva da psicologia contemporânea, Martin Seligman, em Flourish: A New Understanding of Well-being and Happiness (Kairós, 2012), distingue entre prazer, bem-estar e uma vida com significado, observando que uma vida orientada apenas para o conforto emocional é frágil, enquanto o compromisso com aquilo que tem significado — mesmo que exija esforço — sustenta uma alegria mais estável.
Pressão para se sentir bem
A pressão para se sentir bem enfraquece a capacidade de suportar frustração, esforço ou espera — experiências inevitáveis em qualquer processo de amadurecimento. De uma perspectiva educacional, isso tem consequências profundas. Sem a experiência prática do fracasso, a capacidade de ler, pensar e até mesmo estudar fica prejudicada. A alegria surge quando nos dedicamos com atenção ao que fazemos, mesmo quando os resultados não são perfeitos ou não atendem às nossas expectativas.
Aqui, o conceito de felicidade está ligado ao de maturidade emocional. No meu livro, "O Que Eles Não Te Contaram Sobre Seu Filho e Você Gostaria de Saber" (Palabra, 2023), enfatizo a necessidade de educar para a maturidade emocional, ajudando as crianças a distinguir o essencial do supérfluo. Maturidade emocional não significa aprender a evitar o desconforto, mas integrar emoção, razão e ação de forma coerente, de modo a alcançar a capacidade de não viver à mercê de estados emocionais ou promessas externas de bem-estar, mas de sustentar a própria vida com um grau de introspecção que é raro hoje em dia.
Numa era marcada pela exaustão emocional, pela pressão para se sentir bem e pelo consumo recorde de medicamentos ansiolíticos, a alegria tornou-se um ato de resistência
A tarefa dos pais é incutir hábitos que promovam a reflexão, a observação e a atenção como uma forma natural de "estar no mundo". O silêncio, a leitura profunda ou uma boa conversa são verdadeiros fatores de proteção contra o vazio e a solidão de uma sociedade exausta e sobrecarregada de estímulos.
Fidelidade à vida real
Falar de alegria em uma cultura exausta pode parecer ingênuo ou deslocado; no entanto, entendida como fidelidade à vida real, torna-se uma forma silenciosa de resistência. É aquele gesto discreto que nos sustenta quando a vida decepciona ou não corresponde às nossas expectativas, prometendo não conforto, mas uma maneira de aceitar e ser grato pela realidade.
Reconhecer o que recebemos, cuidar do que nos foi confiado e aceitar nossas próprias limitações são maneiras concretas de abrir espaço para essa verdadeira alegria. Viver assim não significa negar a dor, mas compreender a vida que compartilhamos como um tecido forte, capaz de resistir ao desgaste do tempo.
Como G.K. Chesterton nos lembrou em Ortodoxia, a alegria não é meramente o prazer da vida, mas a luz que nos permite enxergá-la como digna de ser vivida. Ela não surge de uma existência sem atritos, mas da capacidade de admiração e gratidão diante da realidade e de suas limitações.
Embora a cultura do bem-estar possa nos confundir com promessas vazias ou “restaurantes sem reserva”, a verdadeira alegria é cultivada exatamente ali, na vida concreta que cada um tem diante de si.
Não estamos diante de uma crise temporária, mas de um declínio prolongado que afeta adolescentes, jovens e adultos. Nesse contexto, devemos nos perguntar como restabelecer um ritmo sustentável e tranquilo na vida cotidiana, como valorizar o desejo, os limites e a espera e como reconstruir um sentido da vida que não dependa unicamente do desempenho ou do sucesso visível.
A verdadeira alegria surge da aceitação de que nossa vida — imperfeita, limitada, real — sempre vale a pena ser encarada com simplicidade e coerência entre quem somos e o que fazemos.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Vivir en la realidad: un posible antídoto frente al deterioro de la salud mental entre los jóvenes







