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| Foto: Pedro Serapio/Gazeta do Povo

Quando nos sentimos perdidos e desbussolados, quando o norte deixa de marcar o horizonte, cresce a necessidade, às vezes às raias da insanidade, de encontrar algum elemento, um alvo, uma explicação pra situação e sentimentos que estamos vivenciando. Isso pode se dar tanto no que se refere ao indivíduo, quanto a um grupo, não raras vezes numa nação inteira.

Tal é a situação que penso estarmos vivendo como país, nesse momento. O descontrole da violência nas grandes cidades, a cultura de feiura e do baixo nível no universo artístico, a drogatização pesada em amplas margens de adolescentes, a drogatização “leve” dos adultos, a autoministração de remédios controladores de humor e comportamento entre crianças, jovens e adultos; tudo isso somado a percepção, de que nossas lideranças políticas e sociais se divorciaram da realidade concreta e subjetiva das pessoas que formam a comunidade da nação, nos encaminha a todos à busca desesperada pelo bode que nos expie.

Apontar culpados alivia a sensação de impotência ante o sentimento angustiante que nos oprime. Faz-nos parecer que retomamos o controle da situação, assumimos novamente o leme de nossas vidas; cria a miragem de um norte à frente facilmente manejável. O bode expiatório é sempre escolhido, por reunir os elementos que condensam as deficiências e insuficiências que na verdade, caracterizam e identificam a realidade de um todo; sendo esse todo, justamente marcado pela falta de norte que não pode, não deve, não se consegue assumir enquanto tal.

Apontar culpados alivia a sensação de impotência ante o sentimento angustiante que nos oprime

Por trás da crise política, ou por baixo dela, uma realidade inteira se esconde. Essa realidade tem apenas um nome, crise de destino. Se falamos agora abertamente no fim de uma época, ou, o fim do pacto da democracia pós-regime militar, o que estamos querendo dizer na verdade é que não se trata de um pacto que termina, necessitando de outro que o substitua, mas simplesmente que o que somos, desde o fim do regime militar, continua clamando por entendimento.

O Brasil mudou nesses trinta anos de democracia social liberal a esquerdista, esquerdopata ou o que quer seja. Mais sensato seria dizer, entretanto, que o país se desfez de si mesmo nesse mesmo tempo. Inegável reconhecer o desejo ansioso com que as gerações políticas dos anos 1970, se lançaram em salvar o país de seu suposto atraso. Mergulhados que fomos pelos ventos da mudança, se fazia imperioso mudar tudo em nome do novo que não podia mais esperar. A sensação que temos agora é de estarmos sendo engolidos exatamente por tudo aquilo que se imaginava estar sendo substituindo trinta anos atrás. De algum lugar que não sabemos onde, emergem as forças que reivindicam um retorno, uma meia volta completa ao país que fora lançado fora.

Leia também: O outro lado dos problemas (artigo de Cristovam Buarque, publicado em 3 de maio de 2018)

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Mas se foi lançado fora, como volta? Nunca foi lançado a lugar algum, posto que compõem a grande e maior parcela da sociedade nacional, que nunca nem em momento algum se comprometeu em lançar fora o que a caracteriza e marca como sociedade. De outro lado, as massas que integram a nova cultura, vendida e ventilada como única saída possível, se veem órfãs do futuro que não chegou. São elas que caminham desorientadas à procura de salvação; salvação que não esperam encontrar e, por isso, entregues a toda expressão e comportamento tóxico, diluente e poroso das grandes cidades. Não há lugar melhor pra se liquefazer que os ambientes cosmopolitas dos grandes centros.

Aqui vemos com clareza a geografia da crise nacional. De um lado, as grandes cidades e centros cosmopolitas, entregues sem solução a todo tipo de crise, seja identitária, de violência, de explosão urbana caótica, de multivocalidade discursiva e, de outro, o grande interior brasileiro, perfazendo a maior parte da cartografia nacional, sedimentado por seus sentimentos de pertença ao conservadorismo religioso, na ligação aproximada com a vida rural do país, com histórias antigas ainda não esquecidas, tradições que, ainda que mudem, permanecem.

É do Brasil que nunca se foi e daquele outro que se quis inventar que se trata a crise.

Luciano Alvarenga é sociólogo e mestre em Economia pela Unesp.
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