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A infraestrutura não pode depender do calendário eleitoral

O próximo presidente, independentemente de quem seja eleito, não deveria começar novamente do zero. Sua responsabilidade será preservar o que funciona, corrigir o que precisa ser aperfeiçoado . (Foto: Troy Mortier/Unsplash )

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A cada eleição, o Brasil volta a discutir quais são as pautas prioritárias da nação: políticas públicas, programas sociais e propostas de governo. Essa lógica pode funcionar para políticas de curto prazo, mas é incompatível com a infraestrutura. Rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, sistemas de energia, saneamento, telecomunicações e infraestrutura digital exigem planejamento, capital e execução que atravessam diferentes governos. O país precisa, portanto, deixar de tratar esses investimentos como marcas de uma gestão e passar a reconhecê-los como uma agenda permanente de Estado.

A infraestrutura determina quanto tempo e dinheiro uma empresa gasta para produzir, transportar e comercializar seus produtos. Quando uma rodovia está deteriorada, uma ferrovia não chega ao porto ou um terminal opera no limite de sua capacidade, o prejuízo não fica restrito ao setor de transportes. Ele aparece no preço dos alimentos, na competitividade da indústria, na capacidade de exportação, na atração de investimentos e, por fim, mas não menos importante, no crescimento econômico.

O economista Claudio Frischtak estima que o Brasil deveria investir entre 4% e 4,5% do Produto Interno Bruto em infraestrutura. O país, no entanto, permanece próximo de 2%, patamar semelhante ao identificado há mais de uma década e insuficiente para modernizar os ativos existentes e superar os gargalos acumulados.

O Plano CNT de Transporte e Logística 2026 calcula que seriam necessários aproximadamente R$ 2 trilhões em projetos para atender às necessidades nacionais, dos quais R$ 1,1 trilhão estaria concentrado nas ferrovias e R$ 511 bilhões nas rodovias. Segundo o Barômetro da Infraestrutura, elaborado pela EY-Parthenon em parceria com a Abdib, os investimentos públicos e privados no setor devem ter alcançado cerca de R$ 280 bilhões em 2025, novo recorde da série histórica, ante R$ 272,3 bilhões em 2024.

A eleição pode definir quem governará pelos próximos quatro anos, mas não pode reiniciar, a cada ciclo, a infraestrutura de que o país precisará nas próximas décadas

O avanço é relevante, mas precisa ser observado na escala do déficit brasileiro. Depois de décadas de investimentos insuficientes, um recorde anual não elimina a distância entre a infraestrutura que temos e aquela de que precisamos para competir entre as maiores economias do mundo.

A maior parte dos investimentos realizados em 2025 veio da iniciativa privada. Esse protagonismo não deve ser interpretado como uma anomalia, mas como uma oportunidade. Concessões e parcerias público-privadas possibilitam que empresas assumam compromissos de construção, operação e manutenção por longos períodos, enquanto o poder público direciona sua energia para as funções em que é insubstituível: planejar, estabelecer prioridades, regular, fiscalizar e garantir o cumprimento dos contratos.

Defender maior participação privada não significa defender a ausência do Estado. Significa exigir um Estado mais eficiente, menos suscetível à interferência política e concentrado na criação das condições necessárias ao investimento.

Neste contexto, o investidor que compromete bilhões de reais em um empreendimento com retorno previsto para as próximas décadas precisa confiar que o contrato continuará válido depois da próxima eleição. Quando há segurança jurídica, regulação qualificada e previsibilidade, o capital responde. Quando as regras mudam, as decisões são politizadas ou os contratos ficam sujeitos a revisões oportunistas, o risco aumenta. Por isso, melhorar o ambiente regulatório talvez seja uma das formas mais eficientes e menos onerosas de ampliar os investimentos.

O próximo presidente, independentemente de quem seja eleito, não deveria começar novamente do zero. Sua responsabilidade será preservar o que funciona, corrigir o que precisa ser aperfeiçoado e acelerar a estruturação de concessões e PPPs. A continuidade não impede mudanças de direção quando elas forem tecnicamente justificadas; impede que decisões de longo prazo sejam descartadas apenas porque foram tomadas por outro governo.

O Brasil precisa substituir a cultura do anúncio pela cultura da execução. Cada projeto interrompido, redesenhado sem necessidade ou mantido durante anos à espera de uma decisão representa capital imobilizado, empregos que não foram criados e produtividade que o país deixou de ganhar. Para as empresas de engenharia, previsibilidade também significa capacidade de investir em equipamentos, tecnologia, formação profissional e desenvolvimento de fornecedores.

O desenvolvimento nacional precisa ser maior do que qualquer mandato e candidato. Se o Brasil deseja se consolidar como potência econômica, deve oferecer ao setor produtivo uma infraestrutura compatível com essa ambição. Isso exige planejamento de Estado, segurança jurídica, agências técnicas e ampla mobilização do capital privado.

A eleição pode definir quem governará pelos próximos quatro anos, mas não pode reiniciar, a cada ciclo, a infraestrutura de que o país precisará nas próximas décadas.

Marcos Borin é fundador e presidente da CTC Infra.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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