Sabemos do que precisamos? Creio que não. Estamos em outro polo, povoado por aqueles que deixaram tudo, menos a razão. E só não deixamos a razão pois acreditamos que seja útil à nossa busca pelo “progresso”. Sacrificamos a beleza, as tradições, os valores e – dentre outras coisas – a literatura, pois tudo isso se tornou descartável e inútil para a cultura do “progresso”. Mas a literatura é, sim, necessária.
Para compreendermos a importância da literatura e sua relação com o todo, é preciso um olhar atento à Idade Média, esse período livresco e clerical, pois os medievais nos provaram a importância dos livros. O Medievo herdou obras heterogêneas, a ponto de se ver obrigado a organizá-las, sistematizá-las e harmonizá-las. O resultado disso? Uma civilização rica em imaginação e conceitos: A Divina Comédia, de Dante, e a Suma Teológica, de Tomás de Aquino, são frutos desse período. A imaginação desenvolvida nessa cultura livresca se estendeu ao entendimento medieval do cosmos, da natureza e de outras áreas do conhecimento.
Apenas nos livros antigos somos postos sob uma luz que nos revela aquilo que não somos capazes de ver sozinhos
A sobrevivência do papel do “mito” – exemplificado pelo ciclo arturiano – é outro elemento a ser destacado desse período. Os medievais eram bons tanto na conservação de livros quanto na conservação dos termos e seus significados. O conceito de “mito” é um “relato significante”, entendimento oposto à leitura atual da palavra, rapidamente associada a algo mentiroso e infantil. Toda mitologia serve, desde os gregos, para fins didáticos e melhor formação do indivíduo, não levando em conta se as histórias contadas são verídicas ou não.
Dos muitos aprendizados que nos foram concedidos por esse período, destaco dois. O primeiro é sobre a importância dos livros antigos e da releitura dos clássicos, pois é no ato de retornar e relê-los que aprendemos sobre nossa própria situação sociocultural, suas demandas e virtudes. Apenas nos livros antigos somos postos sob uma luz que nos revela aquilo que não somos capazes de ver sozinhos. O segundo aprendizado é sobre o quão importante é a imaginação. Se um medieval pudesse vir a nosso tempo e testemunhar que limitamos a nossa imaginação a temáticas infantis, creio que nenhum avanço tecnológico poderia surpreendê-lo tanto quanto esse triste fato. Como afirmavam C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien, dois estudiosos e entusiastas do período medieval, a imaginação é a ferramenta pela qual podemos experimentar vislumbres do transcendente, daquilo que ainda está por vir e que é eterno.
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Sou otimista. Acredito que a literatura tenha, sim, lugar em nossa sociedade, e ela tem o poder de não só manter como também de restaurar nosso entendimento das coisas. A tecnologia passa, mas as velhas folhas de papel sempre resistirão ao tempo. É empolgante poder conversar com diferentes pessoas de diferentes países com apenas um clique, mas só quem retornou aos antigos livros sabe a experiência que é poder conversar com aqueles que já se foram. Em uma sociedade on-line, é preciso estar off-line para aprender e experimentar o melhor da vida.
Pedro Miquelasso é colunista do Tolkien Talk YouTube Channel com foco em C.S. Lewis e desenvolvedor de conteúdo no The Pilgrim app.
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