| Foto: Fabio Abreu
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Vivemos uma espécie de Guerra Fria 2.0, e muitos desconfiam, com razão, do papel chinês nessa pandemia, além da OMS como instrumento da ditadura comunista. Além disso, vemos jovens no mundo todo flertando com o socialismo, embarcando em movimentos “revolucionários” em nome da igualdade e das minorias, o que assusta quem tem bom senso.

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No último artigo, O resgate conservador, voltei ao trio de heróis – Reagan, Papa João Paulo II e Thatcher – para trazer otimismo ao leitor. Sigo na mesma toada, com base no excelente livro de John O’Sullivan, mostrando agora como os comunistas daquela época souberam explorar sentimentos nobres dos ocidentais para enfraquecer suas democracias.

Eram tempos nucleares e todos temiam uma escalada fatal do antagonismo entre soviéticos e americanos. Nesse ambiente, e após Hiroshima e Nagasaki, nada mais natural do que o pacifismo seduzir quem morria de medo do pior. Na “crise dos mísseis”, os soviéticos viram uma oportunidade para explorar isso, até porque sabiam que nunca teriam capacidade de acompanhar os Estados Unidos em seus pesados investimentos militares.

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O imperialismo soviético já amargava derrotas. Quase todos os avanços dos anos 70, que tinham causado alarme nos quintais do Ocidente, fracassaram. Tanto Andropov como seu sucessor, Gorbachev, continuaram a financiar guerrilhas e ditaduras do Terceiro Mundo, mas as justificativas ideológicas para a retirada já estavam lançadas. E a pressão financeira era cada vez maior.

Os inimigos do socialismo alimentavam esperanças, principalmente por conta do papel da Igreja. O caso polonês, com o avanço do movimento Solidariedade, mantinha acesa a chama da esperança. Desesperados, os soviéticos tentaram reverter o sentimento religioso de paz a seu favor. Vislumbraram numa intensa “campanha pela paz” o caminho para enfraquecer o adversário ocidental e ganhar sobrevida. Eis como o autor coloca a questão:

“Onde seria o Papa impopular? Onde seria Reagan visto como um opressor, mais do que Andropov? Onde estariam as correntes ideológicas de opinião ainda voltadas à esquerda? Acima de tudo, existiria um equivalente pró-comunista do Solidariedade? Como sempre, uma vez que as questões certas foram colocadas, as respostas apareceram facilmente – o lugar: a Europa Ocidental; a época: 1968 até o presente; os principais protagonistas: a esquerda europeia socialdemocrata e o ‘movimento pela paz’”.

Os movimentos pela paz antinuclear na Europa nunca foram aquilo que pareciam. Eram, no fundo, movimentos antiamericanos. Mostravam invariavelmente maior hostilidade para com os mísseis americanos, que os defendiam, do que para com os soviéticos, que os ameaçavam. O’Sullivan mostra como os “esquerdistas moderados” do Ocidente estavam ansiosos para servir como instrumentos úteis dos camaradas radicais da União Soviética:

“Em alguns casos, os sociais-democratas chegaram à porta dos soviéticos implorando pela sua própria exploração. Os registros soviéticos hoje disponíveis mostram que, nos anos 70 e 80, era quase constrangedor o desejo de figuras de topo no Partido Trabalhista britânico de colaborarem com a política externa soviética”.

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Para essa esquerda, era aceitável trabalhar ao lado de regimes totalitários se fosse contra Reagan e, portanto, “a favor da paz”. Foi lançada uma vasta campanha “pacifista”, com propaganda sofisticada e manifestações de rua comandadas a partir de Moscou. Como lembra o autor, é difícil, em retrospectiva, compreender o tamanho desta empreitada. Milhões de pessoas assinaram petições pela paz, centenas de milhares marcharam pelo centro das cidades europeias.

Um bombardeiro de filmes, documentários, panfletos e revistas contestava a colocação dos mísseis pela Otan, tudo orquestrado pelos soviéticos, que vendiam a fantasia de que os países ocidentais eram governados por círculos políticos de “extrema-direita”. Diplomatas soviéticos chegaram a ser expulsos da Dinamarca, Portugal, Bélgica, Holanda e Noruega por financiarem e organizarem esses movimentos. Mas a adesão era muitas vezes voluntária, o que chama a atenção. A “esquerda alargada” era manipulada, mas nem sempre controlada por Moscou. Ela desejava mesmo destruir o lado livre na batalha.

Não era exatamente uma novidade. Em 1949, o cartaz para o Congresso Mundial da Paz em Paris foi impresso com uma litografia de Picasso, que eternizou a pomba como símbolo da paz. Os patrocinadores do evento, paradoxalmente, eram os assassinos de Moscou. Os objetivos dos comunistas eram basicamente dois: poderiam dispersar a atenção mundial de Moscou e das atrocidades lá cometidas por Stalin; e forçariam uma associação simplista entre comunismo e luta pela paz. Enquanto ingênuos bem intencionados levantavam cartazes pedindo paz, seus financiadores executavam milhões de inocentes atrás da cortina de ferro.

A estratégia soviética nos anos 80 se mostrou brilhante, segundo O’Sullivan: “Mascarou um interesse estratégico num vestido colorido, entretecido com ambientalismo, religião, pacifismo, anarquia e excentricidade radical à antiga”. Conseguia fazer tudo, menos ganhar eleições! Thatcher seguia firme e forte no Reino Unido, enfatizando justamente a política unilateral de desarmamento do Partido Trabalhista, e Reagan era bastante popular, com a economia crescendo, o que lhe garantiu a reeleição em 1984.

Sua decisão de invadir Granada para libertar o povo de um regime socialista se mostrou acertada, e a ilha tinha importância simbólica maior do que seu tamanho ínfimo: se pudesse voltar ao capitalismo, a História andaria para trás e o comunismo não era “inevitável”. Os soviéticos compreenderam logo a relevância dessa mensagem num clima de esfacelamento do império comunista.

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O resto é conhecido: o que parecia impossível logo se tornou realidade. Para espanto de todos os “intelectuais” que previram a União Soviética ultrapassando o PIB americano e uma guerra nuclear causada pela “beligerância” de Reagan tiveram de engolir, a contragosto, a debacle do império e a queda do Muro de Berlim, sem um só míssil disparado. A propaganda pacifista visava a fortalecer o “império do mal”; a ameaça crível do cowboy durão foi o que trouxe, de fato, a sonhada paz.

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.