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A queda do namoro entre os jovens e seus efeitos colaterais
| Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Segundo a historiadora americana Beth Bailey, em From Front Porch to Back Seat: Courtship in Twentieth-Century America, até os séculos 18 e 19 os namoros como conhecemos hoje não existiam. Os casamentos, em geral, eram arranjados; os pais dos jovens acertavam os detalhes do casamento dos filhos, baseados em motivos financeiros e sociais. Pais de meninas só prometiam suas filhas em casamento para jovens de boas famílias com condições financeiras de manter uma casa e filhos.

No fim do século 19, estabeleceu-se o sistema de “corte”, no qual os jovens tinham um pouco mais de autonomia para participar da escolha de seus pares. Normalmente, as moças tomavam a iniciativa de convidar algum rapaz que achassem interessante para visitar a sua casa. Se os pais aprovassem a escolha da filha, o rapaz ia à casa da moça, passava tempo com ela na varanda ou na sala de estar. Ele era avaliado pelos pais da pretendente, assim como também a avaliava.

Na virada do século 19 para o século 20, o “namoro” tornou-se um modelo cultural – dating, a palavra inglesa para “namoro”, apareceu pela primeira vez em versão impressa em 1914, afirma Bailey. Ela diz que no século 20 “o namoro tornou-se cada vez mais um ato privado conduzido no mundo público”, o que significa que “os namoros aconteciam com mais frequência em lugares públicos afastados, pela distância, pelo anonimato, dos contextos de acolhimento e controle da casa e da comunidade local”. Fazer companhia na varanda da família foi substituído por jantar e dançar fora na ausência dos pais, por encontros com muita Coca-Cola, filmes e acesso aos “estacionamentos”.

Com as mudanças sociais refletidas pelo mercado, o namoro experimentou algumas mudanças na passagem do século 20 para o século 21. Na década de 90 do século 20 surgiu a cultura do “ficar”, em que os jovens se relacionavam sem compromisso. Era comum que um rapaz ou uma moça ficassem com várias pessoas ao mesmo tempo, sem ter de dar satisfação para ninguém ou sem sofrer algum tipo de preconceito ou represália. A pesquisadora Jacqueline Chaves, autora de Ficar com: um novo código entre jovens, escreveu em 1994 que o “ficar” se estabeleceu entre os jovens dos anos 90 como um novo código de relacionamento marcado pela falta de compromisso e pela busca de prazer. Ou seja, para os jovens daquele período, namorar envolvia o esforço de se envolver e conhecer o outro, fazendo concessões e aprendendo a lidar com diferenças. Para se safarem disso, eles desenvolveram um novo tipo de relacionamento sem compromisso, que envolvia, muitas vezes, o sexo casual.

A última mudança social do namoro é mais recente. Ela se processou na primeira década dos anos 2000, com o advento do smartphone e das mídias sociais.  No artigo The Role of Social Media in Dating Trends Among Gen Z College Students, Meghan Isaf observa que “a dependência dos centennials pelas redes sociais os levou a uma cultura de relacionamentos casuais”, centrados na gratificação instantânea e pessoal. Essa busca por gratificação nos relacionamentos pode ser vista nos chamados namoros on-line, que, de acordo com as autoras de Relacionamentos Amorosos na era digital, deu seus primeiros passos na década de 90 com as salas de bate-papo – onde os internautas se conheciam por meio de apelidos (os chamados nicknames), sem se identificarem com fotos –, passando por e-mail, ICQ, MSN Messenger, Orkut (a partir de 2004) e Facebook, e mantendo-se estável com o surgimento dos primeiros aplicativos de namoro on-line, como o Tinder.

Conforme Meghan Isaf, os aplicativos de namoro nas redes sociais podem estar contribuindo para o declínio do namoro entre os centennials. “O uso da mídia social leva a uma tendência de evitar confrontos em relacionamentos românticos”,afirma. A tendência a evitar conflitos relacionais, por sua vez, gerou uma prática conhecida pela atual geração de jovens como ghosting – quando o cônjuge desaparece como um fastasma, sem deixar nenhuma informação ou explicação. O ghosting não diz respeito apenas a relacionamentos românticos de longo prazo: amizades e até relacionamentos de trabalho podem terminar de forma fantasma. Sem drama, sem histeria, sem perguntas, sem necessidade de fornecer respostas ou justificar qualquer de seus comportamentos e sem necessidade de lidar com os sentimentos de outra pessoa, o ghostingse tornou uma prática que autentica o medo de se relacionar e o consequente declínio do namoro entre a nova geração.

A resistência dos jovens ao namoro é apontada nas mais recentes pesquisas geracionais, como num estudo de 2017 conduzido pela pesquisadora da Universidade de San Diego, Jean M. Twenge, com mais de 4 milhões de jovens norte-americanos, e publicado no Brasil com o título iGen: Por que as crianças superconectadas de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a idade adulta. Twenge destaca que os jovens nascidos a partir de 1995 – batizados por ela como “Geração I” (de internet, iPhone...) – “estão sendo amedrontados para evitar o namoro”. Em meu trabalho como pesquisador nas escolas estaduais de Piracicaba (SP) entre 2018 e 2020, pude constatar uma atitude refratária da nova geração no que diz respeito às relações afetivas concretas. À época, apenas 25% dos 300 estudantes entrevistados por mim afirmaram namorar. Invariavelmente, eles preferiam relações virtuais e casuais, como o sexting, a se comprometerem por meio de relacionamentos físicos mais duradouros.

O declínio do namoro também é uma tendência entre os jovens no Japão, Reino Unido, Alemanha, Suécia e Rússia. Segundo as recentes pesquisas geracionais, o contato com o smartphone é o principal fator motivador do fenômeno. O excessivo acesso às redes sociais on-line deflagrou um analfabetismo emocional sem precedentes entre os mais jovens, que não sabem estabelecer relações concretas presenciais.

Mudança de comportamento entre os jovens terá efeitos nocivos para o enlaçamento social, pois está banindo os processos de conhecimento e compromisso mútuos tradicionalmente mantidos pela juventude.

A queda do namoro entre os mais novos está surtindo alterações no tecido social. Consequentemente, os jovens estão, segundo as últimas pesquisas, fazendo menos sexo – o que vem refletindo na diminuição das DSTs e na redução da gravidez na adolescência – e estão se casando com menos frequência e mais tardiamente, o que tem gerado uma considerável queda de natalidade no Brasil e impulsionado o surgimento de novos arranjos familiares, como a família unipessoal, formada por um único indivíduo. O mercado também vem experimentando um impacto desfavorável com o declínio do namoro; as vendas e os faturamentos vêm despencando entre a juventude, sobretudo no Dia dos Namorados.

Para bem ou para mal, a queda do namoro tem repercutido na formação da nova geração de jovens. Conceitos como noivado, casamento, família tradicional e criação de filhos serão profundamente alterados – se não extintos – nos próximos anos. Essa mudança de comportamento entre os jovens terá efeitos nocivos para o enlaçamento social, pois está banindo os processos de conhecimento e compromisso mútuos tradicionalmente mantidos pela juventude, o que sempre foi muito importante para o desenvolvimento do caráter individual. Com a diminuição do namoro, os jovens ficarão mais tempo morando com os pais – o que os impedirá de assumirem responsabilidades sociais – e se casarão com menos frequência. Assim sendo, os futuros casamentos dos adolescentes tendem a perdurar cada vez menos, por falta de preparo emocional antecedente e pela incapacidade de assumir responsabilidades manifestados por eles.

Seguindo a tendência de menos namoro da nova geração – e, consequentemente, menos sexo, menos casamentos e menos filhos –, o conceito de família nuclear se desintegrará pouco a pouco, o que de fato tem acontecido. Uma sociedade carente de famílias tradicionais tende a esboroar moralmente. Temos visto a consecução deste processo no norte da Europa, na América e em outras partes do mundo.

E, como efeito colateral do declínio do namoro, haverá um processo de diminuição da população ativa no Brasil, o que comprometerá a previdência social, com menos gente trabalhando para sustentar os idosos aposentados. Em última instância, afirmo que, como fruto desta mudança comportamental dos adolescentes, o futuro a se descortinar diante delesé de muita instabilidade econômica, medo e solidão.

Rodolfo Capler é escritor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP.

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