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| Foto: Robson Vilalba/Thapcom

Muitos consideram que a escassez de água será o grande problema desse século. Secas que impõem racionamento em seu consumo não são coisas apenas do sertão brasileiro, mas também de locais ricos como a Califórnia. Como cerca de 70% do uso da água vai para a agricultura, isso pode significar alta no preço dos alimentos, algo temerário quando pensamos na quantidade de miseráveis no mundo. O que fazer? Como garantir um suprimento mais estável desse fundamental recurso que tomamos como garantido?

Em Let There Be Water, Seth Siegel conta a fascinante história de como Israel, um pequeno país cercado de deserto árido, conseguiu atingir uma condição de excesso de água, a ponto de permitir sua exportação por meio de uma farta agricultura. O livro foi best-seller do NYT e foi recebido com muita empolgação por inúmeros políticos e cientistas. Michael Bloomberg o considerou leitura essencial, e nomes que vão da esquerda à direita, como Tony Blair e George W. Bush, reconheceram sua importância para o debate.

Não é para menos. O livro conta como, no meio do deserto e numa das regiões mais secas do planeta, Israel foi capaz de inovar no setor, conquistando não só autonomia, como excedente de água. A receita que surge por meio desse relato, repleto de casos interessantes, não se encaixa em ideologias “puristas”, e não vai agradar nem fundamentalistas de mercado, nem estatizantes. O que importa para os israelenses é o resultado, e isso eles conseguiram.

Todos são cobrados por aquilo que efetivamente usam de água no país, e por um preço real, o que encoraja um uso racional do recurso escasso

Forças de mercado foram parte essencial do sucesso. Todos são cobrados por aquilo que efetivamente usam de água no país, e por um preço real, o que encoraja um uso racional do recurso escasso. Mas a participação do Estado também foi crucial, a ponto de o autor reconhecer que, numa nação que endossou o livre mercado, esse setor específico flertou com uma solução “socialista”, ou ao menos centralizadora por meio do governo.

O que Israel tem a ensinar pode não ser motivo de muita atenção hoje, mas seria um grande erro. Segundo o autor, dificilmente alguém ficará imune ao problema da falta de água no futuro, especialmente se nada for feito agora. A crise da água é iminente, e algo como 600 milhões de pessoas já sofrem com ela. A estimativa é que 1,5 bilhão de pessoas sejam afetadas em breve. E, se quisermos uma alimentação rica em proteína para a maioria, o desafio se torna ainda maior: produzir uma libra de bife consome 17 vezes mais água do que produzir uma libra de milho.

Como foi, então, que Israel, cujo território é 60% deserto e o restante semiárido, conseguiu deixar para trás o risco da seca? A primeira parte da resposta começa na cultura. O povo de Israel é imbuído desde cedo dos cuidados necessários no uso da água. Não são fanáticos, mas aprendem a respeitar com consciência o fato de que recurso tão fundamental é escasso e jamais pode ser tratado como abundante e certo. Há intensa campanha de educação quanto a isso, sem falar que a própria Bíblia judaica oferece um guia de como pensar sobre água: ela nunca é tida como um maná, mas sim algo que precisa ser buscado com esforço e engenhosidade.

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E criatividade é com os israelenses mesmo. Uma cultura aberta ao empreendedorismo, com ampla tolerância ao erro, desde que sirva como lição, gera um ambiente propício para inovações tecnológicas. Esse é o maior segredo de Israel. Um setor normalmente tratado como entediante atraiu, no país, diversas empresas inovadoras, que desenvolveram vários métodos novos para aumentar a produção ou reduzir o desperdício da água.

As técnicas desenvolvidas no país, normalmente em parcerias público-privadas, permitiram um aumento incrível da produtividade. Incubadoras incentivadas pelo governo, com pouca burocracia e ajuda financeira, possibilitaram o surgimento de mais de 200 empresas nesse setor, algumas delas se alastrando pelo mundo e exportando serviços para mais de 100 países.

Foi essa combinação exótica de centralismo estatal no planejamento, alocação do recurso com base em prioridades nacionais e funcionamento dinâmico do mercado inovador que fez com que Israel se tornasse um exemplo ao mundo quando o tema é uso da água. Seu método de gotejamento na agricultura, a reutilização quase total do esgoto e a técnica de dessalinização são modelos para vários países, inclusive o Brasil. Projetos ambiciosos de infraestrutura bancados pelo governo, de olho no futuro distante e não apenas nas próximas eleições, fizeram a diferença. Isso foi possível tanto pela obsessão de Israel com a água, o fator cultural, como pela blindagem do quadro técnico de reguladores da politicagem, o fator institucional.

As técnicas desenvolvidas no país, normalmente em parcerias público-privadas, permitiram um aumento incrível da produtividade

Havia um forte interesse nacional em jogo: a própria sobrevivência da nação em meio a um cenário extremamente hostil e desafiador, o que ajudou a unir a população em torno de um projeto comum. Essas características peculiares podem dificultar a simples cópia do modelo israelense pelos demais países, mas mesmo assim há muito a ser aprendido com seu sucesso.

A lição mais óbvia é a necessidade de se cobrar o preço real pelo uso da água, o que cria o incentivo correto para um consumo mais consciente. Subsídios que mascaram o custo efetivo, especialmente na agricultura, ou soluções comunitárias que impedem o conhecimento do consumo individual prejudicam a racionalidade e incentivam o desperdício. Todos devem saber exatamente quanto estão pagando pelo uso da água, pois somente assim vão pensar duas vezes antes de tratá-la como um bem infinito.

O preço da água chegou a aumentar 40% para as famílias israelenses quando o mecanismo de cobrança individual foi adotado, mas quase da noite para o dia os consumidores encontraram maneiras de dobrar a economia de água em casa. Campanhas podem ajudar, mas não bastam. É preciso sentir no bolso o impacto.

A “revolução aquática” de Israel ajuda não só comercialmente, mas também na diplomacia. Israel ajuda seus vizinhos, e vem fazendo isso há décadas. Infelizmente, quando os aiatolás fanáticos e os terroristas do Hamas assumiram o poder no Irã e em Gaza, respectivamente, a ajuda a esses locais foi interrompida e o enorme custo é pago por sua população, refém de seus governos enquanto aprende a odiar Israel. Mas não só esses povos, como o mundo todo tem muito a aprender com Israel, especialmente quando o assunto é cuidar da água, preciosa e escassa.

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.
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