Mentoria pode transformar as universidades brasileiras. Rejeitá-la em nome do “sofrer no processo” perpetua falhas e desperdiça talentos.| Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Uma conversa recente com uma amiga, mentora de comunicação, me deixou inquieto. Em um grupo de WhatsApp com professores e pesquisadores, ela apresentou minha proposta de mentoria universitária. A resposta foi reveladora: "Provavelmente tem público para isso, mas somos contra." Por quê? "O aluno tem que passar pelo processo, tem que sofrer, tem que sentir na pele. Não adianta ficar facilitando."

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Eu só cheguei ao PhD premiado em Antropologia pela Universidade de Indiana porque, além de muito trabalho, tive mentores decisivos. Uma tia-avó, doutora por Stanford nos anos 1960, me ensinou o que era o Statement of Purpose americano — três páginas que, no Brasil, se transformariam em um "pré-projeto" de 25. Sem essa orientação cultural, eu não teria sido aceito no doutorado.

Não foi falta de mérito; foi conhecimento estratégico. Durante sete anos, "ralei" tanto quanto qualquer professor brasileiro — ou mais. A diferença é que tive direção para canalizar o esforço.

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Grandes feitos da humanidade dependeram de mentores: Platão com Sócrates; o apóstolo Paulo com Gamaliel; Steve Jobs com Robert Noyce; Warren Buffett com Benjamin Graham. O mentor não "facilita" a vida — ele evita que o estudante desperdice energia em trivialidades e aponta o caminho para o que importa.

Essa mentalidade do "sofrer é necessário" reflete uma falha do sistema educacional. É curioso ver alguns docentes rejeitarem a mentoria sob o argumento de que "diminui o mérito", quando, na verdade, ela potencializa o esforço do estudante. Onde está a lógica em preferir que talentos se percam por falta de direcionamento?

Nas universidades americanas, a mentoria é institucionalizada. Fala-se de vida pessoal, adaptação, escolhas, relação com orientadores, projeto de vida. Algumas universidades brasileiras, como a USP e a UFRJ, já experimentam programas de mentoria com resultados promissores.

Mas ainda contamos quase exclusivamente com a figura do orientador — que, em boa parte dos casos, apenas avalia se o capítulo "está bom". Por que não expandir essas iniciativas e nos inspirar em um modelo norte-americano já validado?

Na era da inteligência artificial, qual será o papel do professor que se limitar a transmitir conteúdo ou apenas informar se o capítulo do TCC está bom? A IA já cumpre com eficiência o papel de fornecer conteúdo.

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O valor do professor deverá migrar para a curadoria, a formação do pensamento crítico e a orientação para problemas complexos. Nesse cenário, a mentoria se torna o elo que ajuda o estudante a discernir, analisar e aplicar conhecimento de modo significativo

O mentor não substitui o esforço — ele o direciona. Ajuda o universitário a conectar propósito de vida e formação, ensina métodos eficazes de estudo e auxilia na redução de ansiedades desnecessárias. Sem reformas educacionais, corremos o risco de empurrar milhares de jovens para uma travessia às cegas.

A necessidade de mentores é urgente para corrigir defeitos no sistema educacional — que, infelizmente, em muitos casos não ensina a pensar com autonomia, permanece preso à decoreba e forma profissionais com limitada competência na escrita, na leitura e no estudo de qualidade.

Mentoria não é facilitação; é potencialização. Pode significar a diferença entre sair da universidade perdido ou preparado para transformar a própria realidade. Aceitar que "sofrer no processo" é virtude formativa pode ser apenas uma falsa justificativa que encobre ineficiências históricas.

Precisamos escolher: manter a cultura do "descubra sozinho" — que reproduz privilégios, frustra talentos e normaliza a desistência — ou evoluir para um modelo que desenvolve pessoas.

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Ignorar a mentoria é privar estudantes de uma vantagem competitiva essencial para seu bem-estar e sucesso. Ter um mentor qualificado pode ser o diferencial mais relevante da formação, com potencial para redefinir a experiência universitária — e a história do estudante.

Rodrigo Penna-Firme é PhD em Antropologia, mentor universitário e docente dos cursos de Geografia e Ciência da Sustentabilidade na PUC Rio.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]