A história econômica do país está povoada de exemplos de improvisação e falta de um processo educacional ade­­quado. Ela se perpetuou e virou regra em todos os níveis e atividades

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Vejam a contradição: o Brasil produz aviões a jato de última geração, equipamentos industriais sofisticados, tem o sexto maior parque automotivo do mundo e em poucos anos passou de país cujo rebanho era infestado por zoonoses a líder mundial na exportação de carnes. Mas experimente fazer uma reforma, uma simples e prosaica reforma em casa, para a qual necessitará de pedreiro, carpinteiro, eletricista e encanador e prepare-se para um exercício de infinita paciência e resignação. Ou então, decida fazer uma viagem aérea num dos moderníssimos aviões de última geração das companhias aéreas brasileiras e descobrirá que, para sorte dos passageiros, a competência delas no ar, voando, é infinitamente superior à que demonstram em terra, onde impera o caos mais absoluto. Ou ainda, tente resolver pelo telefone um problema com uma companhia telefônica. Três suplícios infernais que Dante incluiria na Divina Comédia se vivesse em nossos dias.

Na base de todos esses problemas estaria uma demonstração de incapacidade inata dos brasileiros, uma preguiça infinita de fazer as coisas certas, uma indolência invencível dos trópicos? Não, a razão está pura e simplesmente na precariedade do processo educacional, que fomenta a praga da improvisação e do jeitinho, a mania nacional de fazer as coisas por atalhos, gambiarras, quebra-galhos. Mesmo aí existe uma razão para isso: a palavra "improvisação" deriva do latim in- pro-visu, aquilo que não foi visto antes. Num país com referências históricas escassas como o nosso, tudo, ou quase tudo, foi feito de maneira improvisada. A história econômica do país está povoada de exemplos de improvisação e falta de um processo educacional adequado. Ela se perpetuou e virou regra em todos os níveis e atividades: as pessoas aprendem um ofício principalmente observando outras que, supostamente, o conhecem bem; como é inevitável, herdam todos os vícios e malformações dos seus improvisados mestres.

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Nas áreas e atividades em que os brasileiros receberam a educação (no sentido amplo) adequada e foram preparados tecnicamente para aquilo que deve ser feito, as coisas funcionam em padrões parecidos com os de outros países mais desenvolvidos. Prova disso é que os níveis de eficiência das indústrias modernas brasileiras são muito semelhantes aos dos países desenvolvidos, que servem como benchmarks, padrões de comparação. Já a construção civil convencional e os setores mais tradicionais da indústria, têm uma produtividade pífia. É o mesmo na Medicina, na Engenharia, nas Ciências Sociais , enfim em todos os setores em que temos ilhas de excelência incrustadas em um oceano de mediocridade.

Agora, antes de construir aviões crie-se um Instituto Tecno­­lógico da Aeronáutica e os aviões brasileiros voarão em céu de brigadeiro; apóie uma Embrapa para realizar pesquisas de genética e melhoramento animal e vegetal e nos tornaremos o celeiro, o breadbasket do mundo. Respeite e valorize as universidades e os centros de formação tecnológica e o Brasil terá uma Engenharia de ponta, uma Medicina de nível internacional, uma massa crítica de cientistas e tecnólogos de fazer inveja. Selecione os candidatos aos empregos públicos pelo princípio do mérito, afaste o clientelismo e a politicagem da vida pública, respeite os funcionários em suas carreiras e teremos uma burocracia pública igual ou melhor do que qualquer outra do mundo.

Por que essa reflexão? Por uma razão chocante e melancólica: num país como o nosso, que depende vitalmente da educação para avançar social e economicamente, a profissão de professor é uma das que menos atrai candidatos de talento: pesquisa recente demonstra que somente 2% dos alunos do Ensino Médio pensam em abraçá-la, 33% já pensaram mas desistiram por considerar a profissão socialmente desvalorizada e malpaga e a maioria dos futuros professores está entre os alunos com piores notas no Ensino Médio. Assim fica difícil.

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do Doutorado em Administração da PUC-PR